A Folha de S. Paulo publicou, na sexta-feira (14), um artigo de Marcelo Bechler com o título “Somos, ou fomos, o país do futebol?”. A resposta é simples: somos. Chama atenção, porém, a quantidade de malabarismos utilizados para colocar em dúvida a qualidade do futebol brasileiro, alvo de uma campanha permanente da imprensa de direita e de esquerda.
Logo no primeiro parágrafo, Bechler pergunta:
“Nos orgulhamos de nos chamarmos de ‘o país do futebol’. O que isso quer dizer? Somos quem mais gosta do esporte e ele está espalhado por cada rua ou roda de conversa? Somos quem mais vencemos, por isso nos autointitulamos assim? Ou somos quem melhor joga?”
O Brasil reúne todas essas características. É o maior campeão mundial, revelou alguns dos maiores jogadores da história e continua sendo o principal fornecedor de craques para os clubes mais ricos do planeta.
Na final da Liga dos Campeões da temporada 2021/22, disputada entre Real Madrid e Liverpool, havia sete brasileiros relacionados. Seis chegaram a estar em campo. Marcelo, do Real Madrid, permaneceu no banco de reservas.
Pelo Liverpool, jogaram Alisson, Fabinho e Roberto Firmino. No Real Madrid, estavam Éder Militão, Casemiro, Vinícius Júnior e Rodrygo. A conta poderia incluir ainda Thiago Alcântara, filho do ex-jogador brasileiro Mazinho, embora tenha se naturalizado espanhol e defendido a seleção daquele país.
Não se trata de uma exceção. Os principais campeonatos europeus estão repletos de jogadores brasileiros. Os clubes estrangeiros dependem do talento formado no Brasil enquanto a própria imprensa nacional procura convencer o público de que o futebol brasileiro perdeu sua importância.
Oito títulos depois do penta
Segundo Bechler, “quando vamos falar de conquistas, seguimos como os únicos pentacampeões, mas, a cada Copa do Mundo que perdemos, parece que nossa era de ouro, a era de quando fomos ‘o país do futebol’, fica cada vez mais num passado distante”.
A impressão não corresponde aos fatos.
Desde o pentacampeonato de 2002, a Seleção Brasileira conquistou oito títulos internacionais importantes. Foram três Copas América, em 2004, 2007 e 2019; três Copas das Confederações, em 2005, 2009 e 2013; e duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos, em 2016 e 2021.
O futebol brasileiro também continuou produzindo alguns dos melhores jogadores do mundo e ocupando posição central nos principais clubes europeus.
O articulista escreve:
“Até 1970, o Brasil venceu três Mundiais e ainda havia sido vice-campeão em 1950. Após o tri, foram 14 Copas do Mundo em 56 anos, ganhamos duas, chegamos a seis semifinais e três decisões. E, neste recorte de mais de meio século, Argentina e Alemanha venceram mais do que nós, com três títulos cada. Empatamos com Espanha, França e Itália, também com dois títulos. Alemanha, com oito, e França, com sete, têm mais semifinais, enquanto os argentinos têm o mesmo número, seis.”
O cálculo formal esconde as condições em que alguns desses campeonatos foram decididos.
Os títulos argentinos
O título argentino de 1978 ocorreu sob uma ditadura militar e ficou marcado pela partida em que a Argentina precisava derrotar o Peru por quatro gols de diferença para chegar à final. Venceu por 6 a 0 em um dos jogos mais suspeitos da história das Copas.
Em 1986, Diego Maradona abriu o placar contra a Inglaterra, nas quartas de final, usando a mão. O gol foi validado e se tornou um dos maiores escândalos da história do torneio.
No Catar, em 2022, a seleção argentina recebeu cinco pênaltis em sete jogos, um recorde em uma única edição da Copa do Mundo. Vários deles foram decisivos para manter a equipe no torneio.
Tratar todos os títulos como se tivessem sido conquistados em condições idênticas serve apenas para produzir uma comparação abstrata. O número bruto não mostra os favorecimentos, os erros de arbitragem e as operações políticas realizadas em determinadas edições.
A Copa de 2014
A Alemanha também foi beneficiada por acontecimentos decisivos na Copa de 2014.
Neymar, principal jogador brasileiro, foi retirado do torneio depois de receber uma joelhada criminosa do colombiano Juan Camilo Zúñiga nas costas. A entrada fraturou uma vértebra do atacante e poderia ter provocado consequências muito mais graves.
Na decisão, a Alemanha enfrentou uma Argentina sem Ángel Di María, um dos principais jogadores da equipe. O atleta ficou fora da partida em meio a uma disputa envolvendo seu clube e seus representantes, apesar de declarar que desejava jogar.
Os alemães chegaram à final depois de enfrentar um Brasil sem Neymar e sem o capitão Thiago Silva. Na decisão, encontraram uma Argentina privada de um de seus principais atacantes.
Apresentar o resultado como simples demonstração da superioridade do futebol alemão é ignorar tudo o que cercou o torneio.
O Brasil poderia ter chegado à final
Bechler reconhece que “somos historicamente o país do futebol” e que o Brasil ainda é o maior campeão, mas pergunta: “Até quando?”.
A pergunta não pode ser respondida por meio de uma linha reta que liga resultados passados a um suposto declínio inevitável.
Na última Copa, o Brasil poderia ter chegado à final. A equipe perdeu para a Noruega em uma partida na qual foi superior durante boa parte do tempo. O adversário tinha poucas alternativas e dependia praticamente de uma única jogada, mas conseguiu vencer.
Isso acontece no futebol. O melhor time nem sempre ganha uma partida eliminatória. Transformar uma derrota isolada em prova da decadência de todo o futebol brasileiro não é análise, mas propaganda.
Bechler afirma:
“Como retrospecto histórico, a situação talvez não seja preocupante. Porém, as duas últimas décadas mostram como não conseguimos competir com seleções médias. E o último meio século nos deixa, em alguns pontos, empatados e, em outros, atrás de todas as grandes e também das novas potências, como França e Espanha.”
A afirmação contradiz os próprios resultados.
Desde 2002, o Brasil conquistou oito títulos internacionais. Na última Copa, realizada nos Estados Unidos, avançou com autoridade e mostrou, especialmente contra o Japão, que possuía condições de disputar o título.
A falsa potência francesa
A França é apresentada como uma das grandes potências do futebol atual. Na última Copa, porém, terminou apenas na quarta colocação e apresentou um futebol limitado.
Na disputa pelo terceiro lugar, sofreu seis gols da Inglaterra, outra seleção de futebol previsível, baseado principalmente na força física, nas bolas aéreas e na disciplina defensiva.
A França possui bons jogadores e conquistou títulos importantes, mas isso não transforma automaticamente sua escola de futebol em superior à brasileira. Boa parte de sua força depende, inclusive, de jogadores descendentes de africanos formados nas periferias francesas, enquanto o futebol praticado pela seleção permanece tecnicamente abaixo daquele produzido historicamente pelo Brasil.
O fracasso da posse de bola
Para Bechler, o cenário deveria levar o Brasil a estudar modelos estrangeiros:
“A Espanha passou a escolher uma forma de jogar e fortalecer seu futebol através da escola da posse de bola, aproveitando as características físicas de seus jogadores. Tinha vencido uma Eurocopa até 2006. Depois, venceu três Euros e duas Copas.”
A chamada escola espanhola da posse de bola foi um fracasso na Copa do Catar. A Espanha venceu apenas a fraquíssima Costa Rica, empatou com a Alemanha e perdeu para o Japão.
Na segunda fase, foi eliminada pelo Marrocos sem marcar um único gol. Depois de 120 minutos de posse de bola estéril, os espanhóis perderam por 3 a 0 na disputa de pênaltis.
A Espanha trocou passes durante toda a partida, mas não conseguia entrar na área adversária nem criar oportunidades claras. A tão celebrada posse de bola revelou-se apenas uma maneira burocrática e improdutiva de jogar.
Mesmo assim, a imprensa brasileira apresenta esse modelo como uma espécie de ciência avançada que o Brasil deveria copiar.
Maradona, Messi e a FIFA
Depois de elogiar os centros de formação franceses, Bechler afirma que a Argentina seria um caso diferente:
“A Argentina é um fenômeno diferente: o raio caiu duas vezes no mesmo lugar com Maradona e Messi. Não há um projeto organizado, mas o talento individual foi capaz de fazê-los chegar mais longe do que nós neste período.”
Maradona e Messi não são superiores, em termos absolutos, a jogadores como Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Neymar.
A transformação dos dois argentinos em fenômenos incomparáveis serve para esconder o fato de que o Brasil produziu dezenas de jogadores do mesmo nível ou superiores.
Na última final, Messi praticamente não participou do jogo. Diante de uma equipe espanhola minimamente organizada, a Argentina não conseguiu criar jogadas nem finalizar com perigo.
A equipe argentina tentou compensar sua inferioridade técnica com violência, provocações e a tradicional catimba. Procurou arrastar a partida para os pênaltis com o auxílio da arbitragem, mas a operação fracassou.
Depois do apito final, jogadores argentinos ainda partiram para agressões contra os espanhóis, revelando o comportamento de uma equipe que havia sido apresentada durante todo o torneio como exemplo de talento e competitividade.
A campanha argentina também foi marcada por decisões de arbitragem muito favoráveis. Nas redes sociais, milhões de publicações reuniram lances, comparações e imagens do tratamento privilegiado recebido pela equipe.
Reduzir tudo isso ao “talento individual” de Messi é repetir a propaganda da FIFA.
A imprensa contra a Canarinho
Todos os dias surgem novos artigos na grande imprensa destinados a colocar em dúvida a qualidade do futebol brasileiro. Derrotas ocasionais são transformadas em crises históricas. Vitórias são diminuídas. Títulos recentes são ignorados. Qualquer seleção europeia que troca passes passa a ser apresentada como modelo a ser seguido.
Ao mesmo tempo, os clubes europeus continuam comprando jogadores brasileiros, suas principais competições continuam dependendo desses atletas e suas seleções recorrem cada vez mais a descendentes de imigrantes para compensar a pobreza técnica de suas próprias escolas.
O Brasil continua sendo o maior campeão mundial, o principal formador de jogadores e o país cuja seleção exerce a maior influência sobre a história do esporte.
Além dos adversários e das arbitragens, a Canarinho precisa enfrentar a própria imprensa brasileira, que trabalha sistematicamente para diminuir o futebol do País e promover como superiores as seleções estrangeiras.


