Polêmica

O ‘ecossocialismo’ não passa de reformismo barato

Boff e Löwy substituem a revolução proletária por um programa moral de reformas ecológicas

São Marx

Leonardo Boff publicou, na sexta-feira (24), no Brasil 247, um artigo intitulado Podemos deter o Titanic?, no qual apresenta uma visão idealista da crise mundial e oferece o chamado “ecossocialismo” como saída para a humanidade.

O texto começa em tom apocalíptico. Segundo Boff, “estamos no olho de uma crise civilizacional sem precedentes na história”. Para ele, todas as grandes crises anteriores teriam sido regionais e, após cada uma delas, teria surgido um novo sujeito histórico, os “bárbaros”, com força suficiente para abrir outro caminho para a humanidade.

Duas guerras mundiais, duas bombas atômicas lançadas contra populações civis, milhares de golpes de Estado e milhões de mortos na Coreia, no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão aparecem, assim, como acontecimentos secundários. O mesmo vale para as vítimas dos bloqueios econômicos, das guerras coloniais e das intervenções promovidas pelas potências imperialistas em todos os continentes.

A crise apresentada por Boff como “civilizacional” é a crise do imperialismo. Ela resulta do agravamento das contradições do sistema capitalista mundial e da resistência crescente dos povos oprimidos.

Os novos “bárbaros”, para usar a expressão do próprio autor, já existem. Estão no Afeganistão, no Irã, no Líbano e na Palestina. Também se levantam no continente africano, onde cresce a revolta contra a dominação das antigas potências coloniais.

Não há motivo para esperar passivamente pelo fim do mundo. É preciso organizar a luta contra o imperialismo.

A crise do imperialismo

Boff afirma que “desta vez é diferente”:

“A crise parece ser global, estrutural e terminal. Global, porque envolve todo o globo. É estrutural, porque não se trata de uma crise de conjuntura que, superada, permite a continuidade da civilização ocidental, desprezada por Donald Trump. Agora, o coração foi atingido. Por isso ela é terminal. Com ela termina, não o mundo, mas um tipo de mundo social, montado nos últimos séculos.”

A crise assumiu caráter mundial porque o imperialismo domina o planeta inteiro. O capital financeiro, os monopólios e as grandes potências disputam mercados, matérias-primas, rotas comerciais e áreas de influência em escala internacional.

Seu caráter estrutural decorre do choque entre essa dominação e a resistência dos povos oprimidos, além da disputa entre as próprias potências pela divisão do mundo. O centro do problema está nas relações de propriedade, no domínio dos grandes meios de produção e no controle da economia mundial por um pequeno número de monopólios.

Boff, porém, abandona a análise das classes sociais e transforma a crise do capitalismo em uma crise abstrata da “civilização”. Com isso, desaparecem os responsáveis pela destruição que ele denuncia. A burguesia, o capital financeiro e o imperialismo cedem lugar a uma humanidade genérica que estaria conduzindo a si mesma contra um iceberg.

Socialismo sem revolução

Segundo Boff, o mundo está “fatalmente em rota de colisão contra o iceberg que ele mesmo criou”. A esperança estaria no ecossocialismo, que, em suas palavras, “herda o melhor do ideal socialista clássico — não o soviético — e o articula com a ecologia”.

A formulação já revela o problema. O marxismo não constitui um ideal moral que possa ser separado em partes boas e ruins, combinado com outras ideias e aplicado à sociedade por pessoas bem-intencionadas.

Em O que fazer?, Lênin demonstrou que, sem teoria revolucionária, não existe movimento revolucionário. Essa teoria, contudo, está ligada à luta concreta de uma classe social pela tomada do poder. O socialismo científico parte das relações materiais existentes, da divisão da sociedade em classes e do conflito entre burguesia e proletariado.

Para afirmar que o ecossocialismo “herda o melhor” do socialismo, Boff precisaria explicar o que rejeita, por que rejeita e qual força social executaria seu programa. Nada disso aparece. O socialismo é reduzido a valores genéricos, como solidariedade, responsabilidade e respeito à natureza.

Uma sociedade dividida em classes não se transforma por meio da adoção coletiva de bons princípios. A burguesia não renunciará espontaneamente à propriedade dos bancos, das fábricas, das terras e dos grandes monopólios. Tampouco abandonará seus privilégios porque intelectuais elaboraram um modelo social considerado mais justo.

A transformação depende da luta de classes, da organização política do proletariado, da tomada do poder e da expropriação da burguesia.

Um programa de boas intenções

Boff denuncia o caráter predatório do capitalismo, a destruição da natureza, a dependência dos combustíveis fósseis e o risco de guerras provocadas pela escassez de água. Também critica o consumo individualista e reconhece que esse problema não pode ser resolvido dentro da ordem capitalista.

O diagnóstico, em seus aspectos gerais, não traz novidade. O problema aparece quando Boff apresenta seu programa.

Ele propõe “inaugurar” um novo padrão de produção, respeitoso da natureza, acompanhado de um consumo “responsável e solidário”. Defende ainda a criação de uma civilização que coloque a “comunidade de vida” no centro da economia, da política e das formas de participação social.

Quem realizará essa mudança? Qual classe social imporá o novo padrão de produção? Por quais meios a propriedade dos grandes capitalistas será retirada de suas mãos?

Boff não responde. Seu programa pressupõe que a sociedade possa reorganizar a produção e o consumo sem enfrentar aqueles que controlam os meios de produção e o aparelho de Estado.

O erro do idealismo não consiste simplesmente em reconhecer o papel das ideias. As ideias podem exercer enorme influência sobre a luta política. O problema está em separá-las das condições materiais e dos interesses de classe que lhes dão origem.

Uma teoria pode transformar-se em força política quando é adotada pelas massas e orienta sua luta. Fora desse processo, os valores defendidos por Boff permanecem no terreno da pregação moral.

Da luta de classes à providência

No final do artigo, Boff pergunta: “podemos deter o Titanic em rota de colisão?”. Sua resposta mantém a mesma abstração: “sim, se introduzirmos as mudanças necessárias. Não, se persistirmos no atual caminho que nos leva a cenários dramáticos”.

Como as mudanças não são vinculadas a uma classe, a uma organização ou a uma luta pelo poder, resta recorrer a forças superiores. Boff afirma que “existem as forças diretivas que construíram o universo e a nós mesmos” e que elas seriam “mais fortes que a destrutividade humana”.

Depois de retirar a revolução, a organização proletária e a luta pelo poder de seu programa, Boff entrega o futuro da humanidade à providência.

Em seguida, pergunta:

“Por que não tentar o ecossocialismo, de Michael Löwy, proposto e realizável em todo o planeta, por dar centralidade aos valores? É um projeto viável e promissor de um futuro melhor.”

A centralidade atribuída aos “valores” confirma o conteúdo idealista da proposta. A questão decisiva para o marxismo não está em escolher os melhores valores, mas em identificar qual classe possui condições materiais para destruir a ordem capitalista e construir uma nova sociedade.

Uma ‘ruptura’ sem tomada do poder

Michael Löwy fala em uma “ruptura” com o capitalismo e em uma transição para o ecossocialismo. Na prática, essa ruptura é apresentada principalmente como uma transformação das fontes de energia, das formas de consumo e dos mecanismos de planejamento econômico.

A substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis, como a energia solar, ocupa posição central. Alguns partidários dessa corrente chegam a chamar essa perspectiva de “comunismo solar”.

A mudança da matriz energética pode fazer parte de um programa de um governo operário, apesar de que, neste momento, não haveria razão para tal. Isolada da luta pelo poder, porém, transforma-se em uma política de reformas que pode ser aplicada, em maior ou menor grau, pelo próprio Estado burguês e pelos monopólios capitalistas.

Para Löwy, a economia de transição seria organizada pela população por meio de um planejamento democrático, sem as leis do mercado e sem aquilo que chama de “birô político autoritário”.

A crítica à burocracia soviética serve, dessa maneira, para rejeitar a própria ditadura do proletariado. A degeneração burocrática da União Soviética é utilizada para apagar a necessidade de um Estado operário capaz de derrotar a resistência da burguesia e reorganizar a economia.

Não existe planejamento socialista sem poder político. Enquanto os bancos, as fábricas, a terra, os meios de comunicação e as forças armadas permanecerem sob o controle da burguesia, o chamado “planejamento democrático” será apenas uma consulta submetida aos limites impostos pelos capitalistas.

A classe trabalhadora desaparece

Löwy também defende a articulação entre as lutas de classe, feministas, ecológicas e outros movimentos sociais. Segundo essa concepção, todas essas lutas teriam o mesmo inimigo e tenderiam naturalmente a convergir.

Ao colocar a luta de classes no mesmo plano de uma série de movimentos heterogêneos, o ecossocialismo dilui o papel revolucionário do proletariado. A classe trabalhadora deixa de ser o sujeito social capaz de tomar o poder e passa a ocupar apenas um lugar entre várias causas.

A aproximação com o chamado ecofeminismo segue o mesmo caminho. A afirmação de que as mulheres seriam as primeiras vítimas da crise ecológica não explica qual classe controla a produção, quem se apropria da riqueza produzida e qual força social pode expropriar a burguesia.

A divisão fundamental da sociedade capitalista ocorre entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores obrigados a vender sua força de trabalho. As demais formas de opressão devem ser combatidas como parte da luta geral do proletariado contra a burguesia, e não utilizadas para dissolver essa luta em uma coalizão de movimentos sem direção de classe.

A política da pequena burguesia

A proposta de Boff, Löwy e da esquerda ecossocialista consiste em adiar a transformação social para um futuro indeterminado. Em lugar da revolução, aparecem mudanças graduais no consumo, na matriz energética, nos valores e nas formas de participação.

Esse programa corresponde à posição social da pequena burguesia. Seus defensores não estão submetidos à pressão imediata da fome, do desemprego, dos baixos salários e da destruição dos serviços públicos. Por isso, podem tratar a transformação social como um processo lento de conscientização.

Como observou Lênin, na questão do pão, o faminto é sempre político. O abastado pode se dar ao luxo de parecer “apolítico”.

O trabalhador que não tem o que comer não pode esperar por uma mudança gradual dos valores da humanidade. A burguesia também não esperará. Ela utiliza o Estado, a polícia, o Exército, os tribunais e os meios de comunicação para defender sua propriedade e esmagar qualquer ameaça ao seu poder.

Ao rejeitar a revolução proletária, o ecossocialismo converte a destruição ambiental em argumento para mais uma variedade de reformismo. Oferece à ordem burguesa um vocabulário verde, enquanto deixa intactos os bancos, os monopólios, a propriedade privada dos grandes meios de produção e o Estado encarregado de protegê-los.

Aos capitalistas, permanece o controle da sociedade. Aos trabalhadores, recomenda-se consumir com responsabilidade, cultivar novos valores e esperar.

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