Palantir – a consciência do neofascismo é o nome do artigo de Tales Ab’Sáber publicado no Brasil 247 no sábado (2). Nele, sustenta que a fusão entre o poder das grandes empresas de tecnologia (Big Tech) e o Estado, caracterizam um novo fenômeno que seria como um novo estágio do capitalismo que ele denomina “techno-fascismo”.
Para Ab’Sáber, vivemos um momento em que empresas de tecnologia detêm o controle total da informação pessoal e do espaço público. Elas se amalgamaram a um novo tipo de “Estado das direitas” que abandonou o contrato social e a democracia liberal em favor de um regime de vigilância total e gestão de mercado.
Essa figura do “novo capitalismo” tem aparecido frequentemente na esquerda e os desdobramentos dessa concepção são basicamente dois: 1) o capitalismo se reinventa, não vai morrer; e 2) as relações entre trabalho e capital se modificaram, o marxismo já não serve e será preciso adaptá-lo às novas realidades.
No primeiro parágrafo se lê que “tecnologia e expansão mundial da acumulação com genocídio se movem articulados desde o tempo em que uma moderna caravela portuguesa, e a cartografia precisa dos mares, dos continentes e dos céus, projetaram por três continentes a guerra colonial, a escravização de populações, a monocultura intensiva, com a correlata ruína ambiental, realizando a grande acumulação dos valores do negócio, planejado e financiado, na Europa”.
Ainda que as grandes navegações representem mesmo a fase inicial de acumulação do capitalismo, a superioridade tecnológica sempre foi um fator primordial para a dominação. Desde os tempos bíblicos já se falava da superioridade do aço filisteu contra as espadas de bronze.
Os impérios todos se formaram por meio da guerra, genocídio e escravização de populações. Napoleão levou inúmeras inovações para o front, que foram superadas na I Guerra Mundial e assim sucessivamente. Portanto, não apenas a “expansão capitalista é uma lesão”. Como disseram Marx e Engels na abertura do Manifesto Comunista, “a história de toda sociedade até aqui é a história da luta de classes”.
A “novidade”
“O Techno-fascismo de agora”, escreve Ab’Sáber, “a consciência política de empresas que se tornaram simplesmente donas do espaço público mundial e de toda nossa informação pessoal e civil, amalgamadas ao novo tipo de Estado imperial que emerge, está finalmente em condição técnica de abrir guerra a qualquer um, individualizando seus alvos em massa, tendo como alvo de fato a sociedade civil opositora”.
É verdade, chegamos a um ponto tecnológico que torna possível o que escreveu George Orwell em seu 1984. A questão é que os povos oprimidos também têm acesso às tecnologias, e isso tem impossibilitado a dominação. Basta ver o que aconteceu no Vietnã, no Afeganistão, na Faixa de Gaza, no Líbano e no Irã, que recentemente impôs uma derrota sem precedentes ao imperialismo.
Todos os dias surgem notícias de grupos de hackers que se infiltram em serviços de inteligência e divulgam dados sensíveis de agentes e ativos militares.
Não se deve deixar levar por um linguajar mistificador, como este que diz que “esse novo ‘Estado das direitas’, que desconhece contrato social, mas opera de modo total a gestão em redes desejadas, de multiplicação de mercado e de securitização social, é o núcleo de domínio de proprietários bilionários do controle da tecnologia junto à megaempresários da especulação total, operadores do capital fictício mundial sobre variadas formas”.
Nunca existiu um contrato social e em nenhum momento as pessoas pararam para assiná-lo. Todas as relações sociais se deram de forma dinâmica. Tampouco existe um “novo Estado”, mas um velho se decompondo rapidamente. O controle das tecnologias, como vimos, já era operado pelos filisteus. O que há de novo, e isso Vladimir Lênin já explicou muito bem, é a junção do capital industrial com o financeiro, foi esse fenômeno que propiciou o controle de cada mínimo aspecto da produção. O imperialismo é uma fase superior do capitalismo e as tecnologias são um desenvolvimento natural das forças produtivas.
Quando Ab’Sáber fala sobre “a forma da utilização do Estado para ganho direto e exclusivo do grupo”, é preciso saber que era assim no Antigo Egito, na Grécia, em Roma, no absolutismo. O Estado serve às classes dominantes.
O autor apresenta o “tal Estado” como “promotor ativo de guerra mundial”, e anuncia “o fim da democracia liberal” que já tinha morrido há muito. Quem promoveu as duas guerras mundiais? Quem financiou as ditaduras e os golpes de Estado desde pelo menos fim da II Guerra? Não há novidade. O liberalismo, como explicou Lênin, deixou de existir com o advento do imperialismo.
O fim do mundo
Textos com este de Ab’Sáber, são textos de desesperança, são apocalípticos, dizem que “há técnica e há desejo no poder nessa direção, de programação da extinção, como nova indústria da nova concentração monárquica da decisão sobre as vidas e as mortes. Como a terra e o ambiente não importam em nada para a máquina infinita da determinação técnica sobre como deve ser o mundo, as vidas humanas, excedentes, custosas ou excêntricas, também não importam nada”.
O problema é que eles não apontam para lugar nenhum. Se “Gaza, Venezuela, Irã, para o ‘Estado das direitas’, estão em qualquer lugar”, basta levantar um pouco a cabeça para enxergar que estão lutando e resistindo.
Derrotismo é um sentimento notadamente pequeno-burguês. O fim dos tempos para a burguesia corresponde ao fim do capitalismo, a humanidade segue.
A classe trabalhadora não vai se prostrar e afirmar que “o neofascismo é a decisão mundial, tecnicamente mediada por empresas a quem entregamos nossas vidas – o desejo do que desejamos – sobre a vida e a morte, de cada um de nós, para a manutenção da reprodução do capital hiper concentrado”.
É curioso surgirem esses textos apocalípticos que profetizam, ou repercutem, que “qualquer tensão, sombra, crítica ou luta por outra vida, será rastreada e deve ser anulada”, e que “este é o sentido verdadeiro da Inteligência artificial”, justamente no momento em que o imperialismo dá sinais de agudos de decomposição, e que um país atrasado vence uma guerra contra a maior potência militar do planeta.
O “neofascismo”, ao contrário do que muita gente acredita, nada mais é que a “democracia liberal” agindo como sempre agiu; desta vez, porém, não está necessitando de intermediários.





