Continuamos aqui o debate sobre o texto “Bolsonarismo e lumpen burguesia ”, de Valerio Arcary, publicado no sítio Esquerda Online neste 4 de julho. A primeira parte pode ser lida aqui.
Na segunda parte do artigo, o autor diz: “A normalização que estamos assistindo da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, mesmo depois do espantoso escândalo de corrupção de caixa 2 dissimulado de financiamento do filme-biografia de seu pai, é algo assombroso, mas não é uma “jabuticaba”. Flávio mente como se não houvesse amanhã. Trata-se de um extremista, o que não é surpresa para ninguém, porque o bolsonarismo nunca disfarçou seu impulso fascista, afinal o núcleo dirigente foi cúmplice de uma operação golpista que foi até à loucura de elaborar um plano “verde-amarelo” de liquidação física de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.”
Na esquerda, tratar da política a partir de casos de corrupção é inútil, além de ser um debate rebaixado. No capitalismo, ser corrupto e mentir nunca foi um problema, nem mesmo para o eleitorado, basta lembrar que dois políticos, Adhemar de Barros e Paulo Maluf, eram conhecidos como os “rouba, mas faz”.
Tradicionalmente, é a burguesia que compra políticos e depois os acusa por meio de sua imprensa de serem corruptos quando estes, por algum motivo, precisam ser descartados. Não há nada de assombroso, portanto, na ‘normalização’ da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.
O ‘escândalo’ do financiamento do filme, perto do caso do Banco Master envolvendo figuras do Supremo Tribunal Federal – para ficarmos em um exemplo – não representa absolutamente nada.
A esquerda não tem que ficar fazendo trabalho de polícia e muito menos entrar na questão de que um político seja mentiroso.
Para criticar Flávio Bolsonaro, é preciso mostrar quais interesses este representa, que se trata de um inimigo da classe trabalhadora, não sair dizendo que existe um “impulso fascista” no bolsonarismo para em seguida tentar ligá-lo a uma suposta conspiração.
Adiante, no mesmo trecho, Arcary escreve que “é verdade e tem importância que Jair Bolsonaro e alguns generais tenham sido condenados e estejam presos. Mas é uma aberração a tolerância das instituições do regime, a começar pela Justiça Eleitoral e a mídia comercial, com seus sucessivos crimes políticos. A impunidade é absurda. Se a revelação das estreitas relações de Flávio com o banqueiro Vorcaro não é um crime eleitoral – um abjeto criminoso – então se naturalizou o “vale tudo”. Não há nada de “normal” na operação que movimentou, pelo menos, R$ 60 milhões. Não é tampouco sem importância a visita a Trump que resultou no apoio à ingerência da maior potência militar da história nas eleições brasileiras. Mas não é menos grotesca a relação dos Bolsonaros com frações lumpens da burguesia.”
Arcary esperava o quê das instituições do Estado burguês e da “mídia comercial”? Supor que essa gente possa ou deva se escandalizar com “sucessivos crimes políticos” chega a ser infantilidade. A crítica deveria focar na questão entre Flávio Bolsonaro e Trump, mas o colunista trata disso apenas de passagem.
Valerio Arcary deveria prestar atenção no que está acontecendo na grande imprensa, que tem criticado sistematicamente o pré-candidato e que apoiou toda a operação farsesca para prender seu pai, Jair Bolsonaro. Essas são indicações de que a burguesia ainda não o escolheu para candidato e está à procura de uma terceira via.
Lumpen-burguesia
Na terceira parte de seu texto, Arcary se dispõe a falar sobre a “lumpen burguesia”, mas o que interessa aqui é que o trecho prepara para a quarta parte, que inicia dizendo: “O crime organizado, PCC e Comando Vermelho e outras facções, são a face mais pública da lumpen burguesia, mas somente uma ala.”
A questão do combate ao crime organizado tem aparecido na imprensa com muita frequência, inclusive sua equiparação ao terrorismo feita pelo governo Trump, que pode abrir portas para intervenções no território brasileiro.
Arcary está preocupado que “o crime organizado prosperou no Brasil, e alcançou a dimensão de poderosas empresas capitalistas que movimentam bilhões de reais por ano”, quando os bancos mordem bilhões por dia apenas com a cobrança de juros extorsivos da dívida pública.
É curiosa a descrição que faz: “A lumpen burguesia é um grupo social que explora oportunidades de ganhar dinheiro, vertiginosamente, rápido explorando as inúmeras brechas jurídicas existentes. Não querem pagar impostos, não querem regras que estabeleçam limites, não aceitam regulações, não têm escrúpulos.” Qual é exatamente a diferença, considerando o escrito, entre a burguesia e seus lumpens?
Valerio Arcary ataca Flávio Bolsonaro pelo viés burguês da corrupção, ataca o crime organizado e, finalmente, passa a atacar Daniel Vorcaro e o Banco Master, que caracteriza como “uma fração lumpen no mercado financeiro”.
A partir daí, todo o esforço de Arcary é unir o Banco Master, a extrema direita e a família Bolsonaro, deixando de lado, talvez por esquecimento, não se sabe, a ligação do banco com importantes figuras do STF.
Quem pauta?
Chama a atenção no texto de Arcary que seus alvos sejam exatamente os mesmos que vêm sendo atacados na imprensa burguesa. Mas, principalmente, é preciso notar que o teor da crítica é exatamente o mesmo. É como se a burguesia estivesse pautando aquilo que o autor.
Não há independência política no texto, que age como uma sucursal da grande imprensa dentro da esquerda.
De qualquer maneira, não há motivo para espanto, Arcary vem fazendo críticas à esquerda, fala de “novos tempos”, “grandes transformações”; e, principalmente, chamou a esquerda para uma suposta luta contra o fascismo, a se unir à democracia liberal.




