O governo dos Estados Unidos iniciou uma articulação internacional para incluir organizações de esquerda, “movimentos antifascistas” e grupos de defesa da Palestina no aparato mundial de combate ao terrorismo. A iniciativa foi apresentada em uma reunião realizada em Washington, convocada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, com representantes de mais de 65 países.
Batizado de Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, o encontro definiu medidas para ampliar a classificação de organizações como terroristas, intensificar a troca internacional de informações, impor restrições de viagem, bloquear fontes de financiamento e fortalecer a proteção de ferrovias, redes elétricas e outras estruturas consideradas estratégicas.
A campanha é apresentada pelo governo norte-americano como uma resposta a supostos ataques contra instalações industriais, sistemas ferroviários, empresas de energia e órgãos governamentais ocorridos principalmente na Europa. A operação é parte da preparação de um mecanismo internacional destinado a criminalizar o conjunto da esquerda revolucionária e, de maneira mais imediata, os movimentos que se colocam contra a política externa dos Estados Unidos.
Marco Rubio afirmou que o combate internacional ao terrorismo não deveria se limitar às organizações árabes e islâmicas tradicionalmente perseguidas pelos Estados Unidos. Segundo a nova orientação, seria necessário combater também um suposto “terrorismo de extrema esquerda” existente nos países ocidentais.
Rubio não é propriamente um representante da corrente trumpista. Trata-se de um político tradicional do Partido Republicano, incorporado ao governo como resultado de um acordo entre Donald Trump e o aparato partidário que durante anos se colocou contra ele. Sua atuação no Departamento de Estado expressa diretamente os interesses mais tradicionais da política imperialista norte-americana.
A mudança defendida por Rubio amplia enormemente o alcance da chamada guerra ao terrorismo. Qualquer organização que se declare revolucionária poderá ser apresentada como uma ameaça, mesmo que não realize ações armadas. A identificação de determinado grupo como potencialmente violento será suficiente para justificar investigações, espionagem, bloqueios financeiros e prisões.
Entre os principais alvos apresentados pelo governo norte-americano estão os chamados grupos Antifa. A própria classificação, porém, é deliberadamente enganosa. Não existe uma organização internacional chamada Antifa, com direção, programa, filiação e estrutura centralizadas. O termo é utilizado por uma série de agrupamentos heterogêneos que promovem atividades contra organizações de extrema direita.
Mesmo assim, os Estados Unidos anunciaram a classificação de quatro organizações da Alemanha, da Itália e da Grécia como entidades terroristas estrangeiras. O governo húngaro de Viktor Orbán também adotou medidas semelhantes após confrontos ocorridos durante uma manifestação em Budapeste.
A propaganda da campanha procura destacar casos de sabotagem na Alemanha, na Itália e na Grécia. O texto utilizado para defender a iniciativa atribui a grupos de esquerda ataques contra ferrovias, redes de energia e oleodutos. Também menciona um apagão ocorrido em Berlim e sabotagens ferroviárias durante os Jogos Olímpicos de Inverno.
Rubio também relacionou a questão a Cuba e às organizações latino-americanas que mantêm vínculos políticos com a Revolução Cubana. Levado às últimas consequências, esse critério permitiria classificar como terroristas não apenas guerrilhas atuais, mas também toda a tradição revolucionária latino-americana, incluindo figuras como Che Guevara.
A reunião aprovou três frentes principais: novas classificações de organizações como terroristas, maior colaboração entre serviços de espionagem e medidas contra o financiamento de movimentos políticos.
O Departamento de Estado deverá ampliar as restrições de vistos contra militantes e pessoas acusadas de financiar organizações de esquerda. O Departamento do Tesouro, por sua vez, pretende localizar e bloquear redes financeiras, oferecendo recompensas por informações que permitam interromper o fluxo de recursos.
A Alemanha se ofereceu para sediar a próxima reunião do grupo. O envolvimento alemão mostra que a iniciativa não é uma extravagância isolada do governo Trump. A política corresponde a uma tendência geral dos governos imperialistas, incluindo aqueles dirigidos por partidos apresentados como liberais.
A Europa já vive uma escalada repressiva contra manifestações, partidos e associações que denunciam o genocídio do povo palestino. No Reino Unido, a organização Palestine Action foi proibida com base na legislação antiterrorista. Seus militantes e apoiadores passaram a ser presos por atividades políticas em defesa da Palestina.
Esse caso ajuda a esclarecer o verdadeiro objetivo da iniciativa de Rubio. O governo norte-americano não está diante de uma grande insurreição da esquerda europeia. A preocupação imediata do imperialismo é conter o crescimento da mobilização popular contra a política de guerra, contra o apoio a “Israel” e contra a militarização do continente.





