O governo de “Israel” destinou mais de US$50 milhões a uma campanha para recuperar sua imagem nos Estados Unidos. A operação inclui mensagens produzidas por inteligência artificial (IA), contratos com órgãos da imprensa, pagamento de influenciadores e anúncios dirigidos a públicos religiosos.
As informações foram reveladas pelo jornal norte-americano The Wall Street Journal. A campanha foi montada em meio ao crescimento da rejeição a “Israel” provocado pelo genocídio na Faixa de Gaza e pela guerra contra o Irã.
Pesquisa do Pew Research Center, divulgada em março, mostrou que cerca de 60% dos adultos norte-americanos têm uma opinião desfavorável sobre “Israel”. A rejeição é ainda maior entre os jovens, que acompanham pelas redes sociais os bombardeios e massacres praticados pelo exército israelense.
Diante dessa situação, o governo sionista contratou empresas para espalhar propaganda em celulares, redes sociais, igrejas, universidades e sistemas de inteligência artificial.
Personagens inventados por IA
Mais de US$45 milhões foram destinados a empresas comandadas por Brad Parscale, ex-chefe da campanha presidencial de Donald Trump e atual diretor de estratégia do conglomerado conservador Salem Media.
Uma das operações consiste no envio de milhões de mensagens a celulares norte-americanos. Os textos são escritos por IA e apresentados como se partissem de pessoas chamadas “Emma”, “Sarah” ou outros nomes comuns.
As mensagens aparecem sob a identificação Friends for Peace, ou Amigos pela Paz, e procuram iniciar conversas sobre “Israel”, o Irã e a política externa dos Estados Unidos. Uma delas perguntava: “como você acha que as negociações de paz dos Estados Unidos e de ‘Israel’ com o Irã afetarão a segurança mundial?”.
O Friends for Peace, porém, não possui registro conhecido como empresa ou organização sem fins lucrativos. Questionado pelo jornal sobre a existência do grupo, Parscale respondeu: “o que você define como uma organização de verdade?”.
As respostas dos destinatários são coletadas e analisadas por uma empresa contratada pelo governo sionista.
Vance denuncia pressão para prolongar a guerra
A campanha provocou críticas dentro do próprio governo norte-americano. Durante participação no programa de Joe Rogan, o vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, acusou integrantes do governo sionista de tentar manipular a população norte-americana para impedir o fim das guerras.
“Algumas autoridades israelenses estão manipulando e tentando mudar a opinião pública norte-americana para manter a guerra indefinidamente”, declarou Vance.
Rede conservadora a serviço de governo estrangeiro
Parscale também ocupa o cargo de diretor de estratégia da Salem Media, uma das maiores redes conservadoras dos Estados Unidos. A empresa transmite programas de figuras como Hugh Hewitt, Scott Jennings e Lara Trump, nora do presidente norte-americano.
O contrato inicial de Parscale com o governo sionista previa a inserção de mensagens favoráveis a “Israel” nos órgãos da Salem Media e em seus canais de distribuição.
A rede já veiculou mais de US$500 mil em anúncios relacionados a “Israel”. Seus dirigentes alegam que os apresentadores não recebem dinheiro para defender posições determinadas.
“Nossos apresentadores construíram suas carreiras dizendo exatamente o que pensam, e não lendo o roteiro de outra pessoa”, afirmou David Santrella, diretor-executivo da Salem.
Parscale, no entanto, registrou-se oficialmente como agente estrangeiro devido aos serviços prestados ao governo sionista. Assim, um dirigente de uma das maiores redes conservadoras dos Estados Unidos trabalha simultaneamente para um governo estrangeiro interessado em influenciar o debate político norte-americano.
O ex-assessor de Trump viajou a “Israel” no final de 2024 para apresentar o projeto. Durante a reunião, afirmou que suas empresas seriam “provavelmente a maior coisa fora da Fox News para ajudar a combater a desinformação e o ódio aos judeus”.
US$700 milhões para ‘moldar consciências’
O ministro das Relações Exteriores de “Israel”, Gideon Sa’ar, anunciou no final do ano passado que o orçamento destinado às campanhas internacionais de propaganda superaria US$700 milhões em 2026.
O objetivo declarado seria “moldar consciências” e melhorar a imagem de “Israel” no exterior. Somente no último ano, pelo menos seis empresas norte-americanas foram contratadas. Cerca de 36 pessoas, muitas delas ligadas à publicidade, registraram-se como agentes estrangeiros.
Segundo Nick Cleveland-Stout, pesquisador do Instituto Quincy, “Israel” deverá gastar mais do que qualquer outro governo em atividades de influência oficialmente declaradas nos Estados Unidos neste ano.
Parscale afirmou que “a ameaça existencial a Israel é a desinformação, venha de onde vier”. Também negou que sua campanha tenha como objetivo interferir nas negociações conduzidas pelo governo norte-americano.
A queda do apoio a “Israel”, contudo, cresceu com a divulgação de vídeos, fotografias e depoimentos sobre os massacres na Faixa de Gaza. A circulação direta dessas imagens reduziu o controle exercido durante décadas pelos grandes órgãos da imprensa.
Influenciadores pagos
A campanha também procura atingir setores da esquerda norte-americana e públicos que não acompanham os meios conservadores.
Yoav Davis, responsável pela página Jews of NY, com cerca de 193 mil seguidores no Instagram, dirige uma empresa contratada pelo governo sionista para gerenciar influenciadores. Davis não informou se recebeu dinheiro por suas próprias publicações ou viagens.
Documentos registram ainda pagamentos a empresas pertencentes a outros influenciadores. O casal evangélico Stefanie e Caleb Rouse recebeu US$4.500 de uma empresa contratada por “Israel” por um serviço descrito como “promoção estratégica de marketing”.
Benjamim Netaniahu reuniu-se com influenciadores conservadores em pelo menos duas viagens recentes aos Estados Unidos. Em entrevista ao programa 60 Minutes, em maio, afirmou que a queda do apoio norte-americano a “Israel” acompanhava o crescimento das redes sociais.
Igrejas e universidades na mira
Outra frente da campanha foi entregue à organização Show Faith by Works. O grupo apresentou um plano de propaganda dirigido a frequentadores de megaigrejas e estudantes de universidades cristãs no sudoeste dos Estados Unidos.
A operação utilizaria a localização dos celulares para identificar pessoas que frequentaram esses locais e enviar anúncios posteriormente. A meta inicial era atingir quatro milhões de pessoas, com um orçamento superior a US$3 milhões.
Nos documentos apresentados, o grupo afirmou que pretendia criar “associações positivas com a Nação de Israel” e ligar a população palestina a “facções extremistas”.
O material citava o ator Chris Pratt e o jogador de basquete Stephen Curry como possíveis porta-vozes. Um representante de Pratt declarou que o ator nunca foi procurado. O representante de Curry não respondeu.
Chad Schnitger, fundador da organização, afirmou posteriormente que o projeto mudou de direção e que a maior parte do dinheiro passou a ser destinada a um museu itinerante.
Operação tenta influenciar respostas de IA
Parte do projeto de Parscale consiste na criação de páginas destinadas a aparecer como fontes nas respostas fornecidas por sistemas de inteligência artificial.
A equipe produz páginas favoráveis a “Israel” e procura posicioná-las entre os resultados consultados por ferramentas como ChatGPT e Claude. Em alguns casos, esses sistemas já apresentaram como referência páginas como Allyvia.org, criada pela equipe de Parscale.
O objetivo é aumentar a presença de material sionista nas informações utilizadas pelos sistemas de IA. Parscale também pretende identificar as principais críticas feitas a “Israel” pela população norte-americana e entregar os resultados ao governo sionista.
O ex-assessor de Trump é ainda investidor da Influenceable, empresa que paga influenciadores para divulgar produtos e posições nas redes sociais. Ele afirma que a companhia não foi utilizada nos contratos com “Israel”.
‘Não acho que você seja uma pessoa real’
As mensagens enviadas pelo Friends for Peace já despertaram desconfiança entre seus destinatários.
A artista Beth Surdut recebeu um dos textos em junho e percebeu que a conversa repetia as mesmas respostas.
“Eu disse: ‘não acho que você seja uma pessoa real’, e ela tentou me convencer de que era uma pessoa real”, contou ao Wall Street Journal.
Surdut, que é judia, tentou encontrar informações sobre o Friends for Peace, mas não localizou uma página oficial ou qualquer registro da organização.
“Mesmo quando se trata de uma causa em que acredito, não quero ter uma conversa com uma inteligência artificial”, declarou.
A operação de mensagens é conduzida pela Sparkfire, empresa que afirma utilizar IA para produzir conversas “mais produtivas”. Até meados de maio, a companhia havia recebido US$6,5 milhões. Um porta-voz declarou que integrantes humanos participam do processo.
A campanha também passou a ser criticada por integrantes da direita trumpista. Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump, questionou: “como é possível que a segunda maior rede conservadora de rádio seja dirigida por um agente estrangeiro registrado?”.
Sobre a tentativa de recuperar o apoio a “Israel”, Bannon acrescentou: “eles estão tentando vender algo que não pode ser vendido”.





