A derrota da Argentina para a Espanha na final da Copa do Mundo de 2026 parece ter abalado não apenas Lionel Messi, Lionel Scaloni e os dirigentes da Associação do Futebol Argentino (AFA). Um dia depois da decisão, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, apressou-se em enviar uma carta especialmente afetuosa a Claudio “Chiqui” Tapia, presidente da entidade argentina e membro do Conselho da Fifa.
No texto, datado de 20 de julho, Infantino classificou o vice-campeonato como “mais um resultado importante para o futebol argentino”, exaltou a “magnífica atuação da Albiceleste” e afirmou que a campanha abriria caminho para “novos e grandes sucessos”. Ao final, despediu-se de Tapia “com toda a minha amizade”.
A carta revela a proximidade política entre o presidente da FIFA e o dirigente de uma seleção que recebeu toda espécie de facilidades nas últimas competições internacionais.
A Espanha derrotou a Argentina por 1 a 0, com gol de Ferran Torres na prorrogação, e conquistou seu segundo título mundial. O placar foi apertado, mas o jogo não foi. A seleção espanhola teve 20 finalizações contra apenas uma da Argentina. Lionel Messi terminou a decisão sem uma única finalização no gol.
Mesmo diante dessa atuação, Infantino escreveu que a Argentina havia contribuído “de maneira decisiva” para transformar a Copa em um acontecimento excepcional. Também pediu que suas felicitações fossem transmitidas aos jogadores, a Scaloni, às comissões técnica e médica e aos torcedores argentinos.
O texto procura transformar uma campanha marcada por atuações medíocres e pelo favorecimento político em uma demonstração de excelência. Para o presidente da Fifa, nem mesmo a superioridade esmagadora da Espanha foi suficiente para retirar a Argentina do centro das homenagens.
O trecho mais revelador da carta não está nas avaliações esportivas, mas na despedida. Infantino encerra a mensagem dirigida a Tapia com a expressão: “com toda a minha amizade”.
A Fifa é uma organização marcada historicamente por compra de apoio, troca de favores, negociações de bastidores e utilização do futebol para fortalecer interesses políticos e comerciais. Infantino chegou à presidência prometendo uma renovação após a crise que derrubou Joseph Blatter, mas manteve intacta a estrutura corrupta da entidade.
O tratamento concedido à Argentina não começou em 2026. Na Copa do Mundo de 2022, disputada no Catar, a seleção recebeu cinco pênaltis, recorde em uma única edição do torneio. As marcações ocorreram tanto na fase de grupos quanto nas partidas eliminatórias e foram decisivas para conduzir Messi e seus companheiros até o título.
A arbitragem não apenas favoreceu a Argentina em lances isolados. Toda a competição foi construída em torno da consagração de Messi. A propaganda da FIFA, a cobertura da imprensa internacional e as decisões dos árbitros convergiram para produzir a narrativa da despedida gloriosa do jogador argentino.
O futebol foi subordinado a uma operação comercial. Messi deveria ser coroado campeão mundial, e a Fifa trabalhou para que isso acontecesse.
Em 2026, a operação encontrou um obstáculo. A Espanha foi amplamente superior e não permitiu que a Argentina fabricasse mais um título. Mesmo assim, a seleção argentina chegou novamente à final, apesar de apresentar um futebol muito inferior ao que a propaganda procurou vender.





