Editorial

Lula está perdendo a aposta

Proibição antidemocrática das bets parece não estar surtindo o efeito desejado pelo PT, desesperado pela possibilidade de perder a eleição

A proibição das bets foi apresentada por Lula como uma das grandes medidas da reta final da eleição. Quatro dias depois da assinatura da Medida Provisória nº 1.394, os primeiros números não mostram o efeito eleitoral que o governo esperava tirar da iniciativa. A disputa com Flávio Bolsonaro continua apertada e a maior parte dos entrevistados diz que a decisão não muda seu voto.

A pesquisa Palver divulgada nesta terça-feira (29) oferece uma fotografia bastante clara dessa contradição. Apenas 1% afirmou que poderia mudar de voto por causa da medida. Para 52%, ela não interfere na escolha; outros 34% disseram que apenas reforça uma decisão tomada anteriormente.

Ou seja, uma coisa é concordar com uma proibição quando ela é apresentada ao eleitor como combate ao vício e ao endividamento. Outra, muito diferente, é decidir o voto por causa dela.

O problema é ainda maior porque, enquanto o ganho eleitoral não aparece, o mercado clandestino cresce. Levantamento citado pelo Estadão identificou 1.689 novos endereços ilegais no dia seguinte à publicação da MP. A lista monitorada pelo setor chegou a 17.651 páginas que não deveriam estar funcionando. Não se trata necessariamente de 1.689 novas empresas, mas de endereços detectados pelo monitoramento, muitos deles criados para escapar dos bloqueios.

O DCO já havia advertido para esse resultado. Antes mesmo de Lula assinar a MP, este Diário apontou que a proibição poderia simplesmente empurrar os apostadores para empresas clandestinas. Depois do anúncio, outro levantamento encontrou centenas de novos domínios irregulares em poucos dias. O governo fecha justamente a parte do setor sobre a qual possuía instrumentos de fiscalização, tributação e identificação dos usuários, enquanto os operadores ilegais mudam de endereço e continuam oferecendo o jogo.

A medida possui também um conteúdo de classe. Antes da proibição, bancos e entidades empresariais já defendiam restrições às apostas e divulgavam levantamentos relacionando o jogo ao aumento da inadimplência. O Sicredi encontrou numa amostra de 1,3 milhão de associados inadimplência 40% maior entre os que haviam apostado pela Internet. Há aí um interesse material dos bancos: dinheiro destinado às apostas é dinheiro que não vai para prestações, cartões e empréstimos.

Também é grande demais o número de apostadores para que o governo possa imaginar que está mexendo numa questão marginal. Dados do Ministério da Fazenda indicavam 43,8 milhões de brasileiros que haviam utilizado ao menos uma vez as plataformas regulamentadas até o fim de agosto. A média mensal de apostadores ativos no primeiro semestre era de 8,5 milhões.

Não há pesquisa que demonstre, neste momento, que uma parcela relevante dessas pessoas tenha decidido votar em Flávio Bolsonaro por causa da proibição. A própria Palver mostra somente 1% admitindo mudar de voto. Mas tampouco aparece o grande dividendo eleitoral que justificaria transformar as bets numa das bandeiras da última semana da campanha.

Na mesma Palver, Lula e Flávio aparecem com 44% cada no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, Flávio tem 47% e Lula 45%, diferença inferior à margem de erro de 2,4 pontos porcentuais. Há uma eleição apertada na qual Lula apostou numa medida de enorme repercussão sem que, até agora, apareça uma transferência minimamente significativa de votos em sua direção.

Em vez de o PT procurar mobilizar os trabalhadores em torno de salários, emprego, redução dos juros e recuperação de direitos, o governo chegou à última semana com proibições e medidas de efeito imediato, como o novo Desenrola, tentando comprar votos do eleitorado. A MP das bets e a nova fase do programa de renegociação foram publicadas no mesmo dia por um governo que passou quatro anos atacando os direitos da população pobre, como comprovado pelo congelamento do valor do Bolsa Família.

Até agora, a aposta não deu o resultado pretendido. Lula corre o risco de descobrir, na própria eleição, que proibir milhões de pessoas de fazer o que desejam não é a mesma coisa que convencê-las a votar nele. Pode, inclusive, perder votos por causa disso, o que, em uma eleição apertada, pode o levar à derrota.

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