O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nessa sexta-feira (25) uma Medida Provisória para proibir as apostas pela Internet no País. A decisão atinge os cassinos virtuais, como o chamado Jogo do Tigrinho, e também as apostas de quota fixa sobre acontecimentos reais, entre elas as partidas de futebol.
Em ato eleitoral no Recife, Lula apresentou a proibição como uma medida de proteção das famílias endividadas.
“Não é correto a gente gastar o que não tem para tentar ganhar o que não existe. Não dá para ficar acreditando em mentira”, declarou.
O presidente também atacou os clubes que se manifestaram contra a proibição, afirmando que eles não poderiam sobreviver “às custas da dívida do povo pobre que torce para o time”.
O discurso apresentou o governo de um lado e as empresas de apostas de outro. Mas existe um terceiro setor diretamente interessado nessa disputa pelo dinheiro dos trabalhadores: os bancos.
A posição do setor financeiro é pública. Antes da decisão de Lula, bancos, comércio e indústria já pressionavam por restrições severas ou pela proibição das bets, enquanto os clubes de futebol se posicionavam contra.
O motivo da preocupação dos bancos também aparece em seus próprios levantamentos. Pesquisa Febraban/Ipespe mostrou que 81% dos entrevistados avaliavam de maneira negativa ou muito negativa o efeito das apostas sobre as finanças familiares. Ao divulgar o levantamento, a entidade relacionou a desorganização financeira ao aumento do risco de inadimplência. Uma pesquisa paga pela Febraban obviamente trará o resultado que a Febraban quer.
Para uma instituição financeira, o problema é bastante concreto. O dinheiro perdido numa casa de apostas não estará disponível para pagar a fatura do cartão, a prestação de um financiamento ou uma parcela de empréstimo. O banco, ladrão do dinheiro do povo, perde com isso.
O Sicredi mediu essa relação em 2026. Em uma amostra de 1,3 milhão de associados com crédito ativo, a inadimplência entre aqueles que haviam apostado pela Internet em 2025 era 40% maior do que entre os que não apostaram. O levantamento encontrou também uma associação entre maior frequência e volume das apostas e maior inadimplência.
O interesse bancário chegou aos programas de renegociação de dívidas. Desde agosto, cerca de 800 mil pessoas que renegociaram débitos estavam impedidas de apostar em plataformas autorizadas. O Ministério da Fazenda informou que o bloqueio integra as regras de acesso ao sistema oficial de apostas.
A situação produz uma peculiar inversão. O sistema financeiro, que obtém parte importante de suas receitas cobrando juros extorsivos sobre dívidas de trabalhadores, aparece agora como defensor da preservação do orçamento familiar. Há uma razão material por trás dessa preocupação: um devedor que gasta parte do salário numa bet torna-se também um cliente com maior risco de não pagar o banco.
O volume de dinheiro envolvido explica o interesse. Estudo do Banco Central estimou que, entre janeiro e agosto de 2024, as empresas de apostas receberam em média R$20,8 bilhões mensais em transferências. Os valores oscilaram entre R$18 bilhões e R$21 bilhões por mês. Segundo o BC, cerca de 15% do total ficava retido pelas empresas, enquanto o restante retornava aos jogadores em prêmios.
Esse dinheiro disputa espaço com outras despesas das famílias. Parte acaba nas empresas de apostas; parte retorna aos jogadores e volta a circular. Para bancos, comércio e outros setores capitalistas, porém, a expansão das bets criou um novo destino para bilhões de reais que anteriormente poderiam chegar ao pagamento de dívidas ou ao consumo que enche o bolso desses capitalistas.
Não surpreende, portanto, que justamente esses setores tenham pressionado por medidas mais duras. Uma decisão anunciada como proteção financeira das famílias coincide diretamente com um interesse que o próprio setor bancário vem manifestando e estudando há anos. Lula proibiu as bets para que os trabalhadores que apostam entreguem seu dinheiro aos bancos.
A dimensão social da medida também é muito maior do que o número de pessoas com problemas graves de jogo. Dados do Ministério da Fazenda obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que 43,8 milhões de brasileiros haviam feito ao menos uma aposta em plataformas regulamentadas até o final de agosto. O número equivale a 27% da população adulta. A média mensal de pessoas que depositaram dinheiro nas plataformas no primeiro semestre foi de 8,5 milhões.
São números diferentes e que precisam ser distinguidos: 43,8 milhões correspondem ao total de pessoas que já utilizaram as plataformas; 8,5 milhões, à média de apostadores ativos mensalmente. Ainda assim, a abrangência explica por que a proibição passou imediatamente a fazer parte da disputa eleitoral.
As apostas são uma das atividades mais populares entre os brasileiros, sobretudo entre a classe operária. Milhões de pessoas, como está comprovado, adoram “fazer uma fezinha”. A medida de Lula castra o direito desses milhões de trabalhadores. Lula e o PT acham que é uma ação muito sábia, que lhe renderá uma nova vitória eleitoral. Isso pode constituir a sua cova política.
Flávio Bolsonaro reagiu no mesmo dia. Chamou Lula de “pai do Tigrinho” e classificou a decisão como “populista, hipócrita e eleitoreira”. Ao tratar das modalidades, contudo, diferenciou as apostas esportivas dos cassinos virtuais. Disse ser contrário ao Tigrinho, mas não assumiu a defesa da proibição das apostas sobre jogos de futebol.
A reação dos clubes introduziu outra variável na disputa.
Ainda na sexta-feira, o Flamengo divulgou uma nota contra a proibição. O clube argumentou que o Estado passou anos regulamentando as apostas, cobrou das empresas para que operassem legalmente e permitiu que fossem assinados contratos de longo prazo. Agora, o governo pretende modificar de uma vez o sistema que ele próprio regulamentou.
“A mudança atinge em cheio o esporte brasileiro”, afirmou o Flamengo.
O clube acrescentou que a proibição das empresas regulamentadas não significaria o desaparecimento das apostas. Segundo a nota, o resultado poderia ser o deslocamento dos jogadores para casas clandestinas: “O jogo não vai acabar com uma canetada. O que acaba é a parte que o Brasil consegue regular, fiscalizar, tributar e responsabilizar.”
A crítica possui peso econômico. Treze clubes da Série A mantêm casas de apostas como patrocinadoras principais, e o impacto estimado sobre esses contratos chega a aproximadamente R$1 bilhão. No Flamengo, o acordo com a Betano está entre os maiores patrocínios do futebol brasileiro.
As próprias casas de apostas começaram a preparar a ruptura dos contratos diante da possibilidade de proibição. O efeito, portanto, não fica restrito às empresas que operam os jogos: alcança clubes, campeonatos, publicidade e outros negócios ligados ao futebol.
Aí também o cálculo eleitoral do governo encontra um problema político que ainda não pode ser medido. O Flamengo possui a maior torcida do País, outros grandes clubes dependem de contratos semelhantes e dezenas de milhões de brasileiros já tiveram contato com as plataformas. Quantos torcedores poderão deixar de votar em Lula porque verão seus clubes do coração prejudicados pela MP?
Lula faz isso para atender aos bancos na esperança de que eles consigam elegê-lo. Mas ele nunca foi o candidato favorito dos banqueiros, não importa o que faça. Os banqueiros podem inclusive ganhar de toda maneira: Lula faz a medida, as apostas são proibidas, e isso não garante sua reeleição, pode ser inclusive o fator fundamental para que muitos eleitores mudem seu voto na última hora e elejam outro candidato. Assim, os banqueiros também se livram de Lula, quem eles usaram até onde conseguiram e jogaram fora.



