A nove dias da eleição, Lula parece ter resolvido fazer das bets uma das grandes questões de sua campanha. O governo estuda uma medida provisória que pode proibir cassinos on-line, restringir a publicidade ou chegar ao banimento das próprias apostas esportivas. Segundo a Folha de S.Paulo, estrategistas do presidente avaliam que uma medida dura poderia produzir impacto eleitoral na reta final da disputa.
Lula não esconde sua posição. Nos últimos dias, afirmou publicamente que pretende acabar com as casas de apostas. A justificativa apresentada é o prejuízo causado pelo jogo às famílias, especialmente pelo vício e pelo endividamento.
É uma maneira conveniente de inverter a questão. O trabalhador brasileiro não começou a se endividar quando apareceu o “tigrinho”. O salário já era insuficiente, os juros já estavam nas alturas e uma parcela enorme da renda familiar já terminava nas mãos dos bancos muito antes da explosão das apostas pela internet.
As bets podem levar pessoas a perder dinheiro e, em determinados casos, agravar seriamente uma situação financeira ruim. Daí não se segue que o Estado deva decidir onde um adulto pode ou não gastar seu próprio dinheiro. O governo oferece controle sobre um direito individual onde deveria oferecer condições materiais melhores.
Se quer combater o endividamento, Lula teria caminhos muito mais importantes. Poderia travar uma batalha verdadeira pela elevação dos salários, pela recuperação dos direitos retirados com as reformas trabalhista e previdenciária, pela redução dos juros e pela ampliação dos gastos sociais. Poderia enfrentar o mecanismo pelo qual uma parcela gigantesca do orçamento público termina destinada ao pagamento dos juros da dívida, enchendo o bolso dos banqueiros.
Escolheu outro caminho: responsabilizar o hábito individual do trabalhador.
A operação tem uma finalidade eleitoral declarada nos bastidores. As restrições às bets vêm sendo discutidas pelo governo justamente na reta final da campanha, e a avaliação dos sapientíssimos “aliados” é que a proibição pode render votos, com base em pesquisas de opinião que indicariam que 3/4 da população seria a favor de proibir as apostas.
Pesquisas há de todos os tipos. O que se vê, pela experiência histórica do povo brasileiro, é que apostar é uma atividade muito popular, sobretudo entre as classes mais humildes.
Além disso, o mercado de apostas envolve milhões de jogadores e uma cadeia econômica que se tornou particularmente importante para o futebol. Assim que apareceu a possibilidade de proibição, empresas começaram a avisar clubes de que os patrocínios poderão ser encerrados imediatamente. Betano, Novibet, Superbet e Esportes da Sorte estão entre as companhias que já se movimentaram. Flamengo, Santos, São Paulo, Fluminense e Corinthians estão entre os clubes envolvidos.
Em 2025, as casas de apostas destinaram cerca de R$1,03 bilhão aos clubes da Série A, segundo levantamento da consultoria Convocados citado pela Folha. O dinheiro representou 7,2% da receita total das equipes que estavam na primeira divisão naquele ano.
A reação foi suficientemente forte para o próprio governo começar a estudar formas de compensar os clubes. Entre as possibilidades discutidas estão crédito mais barato e mudanças no pagamento de dívidas com a União.
Chega-se assim a uma situação curiosa. Primeiro o Estado regulamenta um mercado, permite que ele se espalhe, cobra das empresas para operarem legalmente e deixa que os clubes construam contratos milionários em torno dele. Depois ameaça fechar o setor. Em seguida, começa a discutir dinheiro público e facilidades financeiras para socorrer aqueles que perderiam receita com a própria decisão governamental.
Dentro do governo também existe resistência. Há preocupação com perda de arrecadação e com a possibilidade de uma proibição simplesmente deslocar apostadores para empresas clandestinas. A discussão chegou a dividir setores do Planalto e da Fazenda.
É nesse ponto que a jogada eleitoral de Lula pode começar a produzir o efeito contrário ao pretendido. Ainda que muitas pessoas apoiem a proibição de apostas (o que mais parece ser uma opinião de setores capitalistas que estão perdendo a concorrência para essa área), isso não elimina a reação dos milhões que apostam nem dos setores que recebem dinheiro das empresas. No futebol, ela já começou antes mesmo de a medida existir.
Não se pode saber antecipadamente quantos votos isso custaria ao PT. O que se pode constatar é que o governo, procurando uma iniciativa de grande repercussão às vésperas da eleição, resolveu abrir simultaneamente um conflito com uma parcela significativa da população, sobretudo da população trabalhadora. A chantagem das bets aos clubes também poderia desencadear uma campanha com os torcedores contra o governo.
O PT chega a essa situação porque procura administrar o problema sem romper minimamente com a política econômica que pesa sobre os trabalhadores. Combater o endividamento pela esquerda significa aumentar a renda, recuperar direitos e retirar das costas da população o peso dos juros. Proibir a aposta é muito mais simples: não exige enfrentar os bancos nem alterar a distribuição da renda nacional.
Lula pretende tirar dessa medida uma vantagem eleitoral. Pode acabar descobrindo que, em política como no jogo, apostar sem calcular todas as consequências também tem preço.





