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Leonardo Boff e sua igrejinha do fim do mundo

Ao reduzir guerras, crises políticas e tecnologia a uma disputa entre boa e má vontade, Leonardo Boff troca a análise histórica por uma espécie de sermão moral

Boff e sua igrejinhja do fim do mundo

Leonardo Boff publicou nesta quinta-feira (17) no sítio A Terra é Redonda um artigo que poderia passar sem dificuldade por um sermão de domingo. Em O que mais falta na política hoje?, o teólogo apresenta guerras, o governo brasileiro e até a possibilidade de desaparecimento da humanidade como manifestações de um conflito entre a “boa vontade” e a “má vontade”.

Boff praticamente retira da política os interesses econômicos, as classes sociais, os Estados, os exércitos e a luta entre forças sociais. Em seu lugar aparecem homens bons e homens maus, virtudes e pecados, consciência e falta de consciência.

Se a humanidade está ameaçada porque lhe falta boa vontade, seria necessário desenvolver a boa vontade das pessoas. Boff escreve que ela deve ser “cultivada” para “humanizar as relações humanas” e termina esperando que essa transformação moral abra “uma nova fase” para a humanidade.

É uma ideia muito antiga a de mudar a sociedade mudando a educação moral dos homens. Platão já imaginava uma sociedade cuja direção dependeria da formação de uma camada especialmente preparada para governar. O problema aparece imediatamente em se saber quem formará os homens encarregados de formar os demais. Quem escolhe os valores que deverão ser ensinados? E por que aqueles que ocupam a posição de educadores permaneceriam acima dos interesses existentes na própria sociedade?

Marx tratou diretamente do problema na terceira das Teses sobre Feuerbach. Contra a concepção de que uma mudança na educação produziria homens transformados, lembrou que são os próprios homens que modificam as circunstâncias e acrescentou: “o educador deve ele próprio ser educado”. O resultado da concepção contrária seria dividir a sociedade em duas partes, colocando uma delas acima das demais.

Esse é justamente o buraco na proposta de Boff. Quem vai ensinar a boa vontade a quem? Os banqueiros ensinarão boa vontade aos trabalhadores? Os governos ensinarão boa vontade aos povos que bombardeiam? Os dirigentes das grandes potências ensinarão solidariedade aos países que submetem economicamente?

O problema deixa de ser apenas ingênuo quando se passa da moral abstrata para a política concreta.

Boff descreve Donald Trump como um homem “ensandecido”, atribui-lhe uma espécie de poder para decidir mundialmente “o que é o bem e o que é o mal” e chega a associá-lo aos sinais bíblicos do anticristo. No mesmo trecho, responsabiliza sua “má vontade” pela possibilidade de colocar toda a humanidade em perigo.

A guerra contra o Irã mostra a pobreza dessa explicação. A política norte-americana não foi executada por Trump isoladamente. A OTAN participou politicamente do quadro criado pela ofensiva e seu secretário-geral, Mark Rutte, chegou a destacar o apoio de países da aliança às ações norte-americanas e de “Israel”. Vários países forneceram instalações, direitos de passagem, apoio militar ou logístico.

Em maio, a Reuters registrava Montenegro, Croácia, Romênia, Portugal, Grécia, Itália, Reino Unido, França e Alemanha entre os países que colocavam em prática acordos bilaterais de apoio e utilização de bases. Falar em anticristo é abandonar a análise política justamente quando ela se torna necessária.

A mesma estrutura aparece quando Boff fala do Brasil. O governo anterior é associado a “insanidade política”, “patologia pessoal”, “homem depravado” e “violento”. Logo depois, ao falar do atual presidente, o tom muda completamente e aparece outra passagem bíblica: “Seu cuidado é como uma nuvem de chuva primaveril”.

De um lado, o pecador. Do outro, aquele que traz a chuva salvadora. Isso não passa nem perto de ser uma explicação da política brasileira. Bolsonaro não surgiu porque milhões de pessoas foram contaminadas por uma patologia pessoal, assim como Lula não pode ser compreendido politicamente como a manifestação da boa vontade. Governos são resultado de conflitos entre forças sociais, partidos, classes, instituições e interesses econômicos. Sem examinar essas relações, a política se transforma numa parábola religiosa.

As previsões sobre inteligência artificial são um exemplo particularmente claro. Há pesquisadores que creem na possibilidade de sistemas extremamente avançados provocarem catástrofes. Jacob Coxon, ex-pesquisador da Anthropic, deixou a empresa afirmando que a inteligência artificial poderia levar à extinção humana até o fim da década. Isso, porém, está muito longe de ser uma conclusão científica estabelecida.

Há forte divergência inclusive entre especialistas da própria área. Enquanto pesquisadores e empresários defendem uma redução no ritmo de desenvolvimento, outros contestam tanto a dimensão atribuída ao risco quanto as propostas de paralisação. Empresas europeias, por exemplo, rejeitaram recentemente a pressão norte-americana para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia.

Também não ocorreu a suposta adesão geral das empresas a uma “moratória”, como afirma Boff. O presidente da Anthropic, Dario Amodei, propôs coordenação entre empresas, mecanismos independentes de avaliação e redução do ritmo de desenvolvimento; recebeu apoio de dirigentes de outras companhias, mas não produziu uma paralisação universal do setor.

Transformar uma controvérsia científica e tecnológica em anúncio do Juízo Final serve apenas para produzir medo.

A humanidade convive há séculos com previsões de destruição iminente. O objeto do medo muda; a estrutura permanece. O mundo estaria à beira do abismo e somente uma mudança moral poderia impedir a tragédia.

Em Boff, essa mudança é a conversão à boa vontade. É justamente aí que sua igrejinha política revela toda sua limitação. As guerras não serão encerradas convencendo os governos a serem bondosos. Ao ignorar isso, Boff pega problemas concretos da sociedade e os transforma numa moral religiosa: há pecadores, há virtuosos, há uma humanidade ameaçada pelo apocalipse e, finalmente, há a promessa de salvação pela conversão dos homens.

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