A fala de Lula contra Neymar repercutiu negativamente até na China. O comentário feito pelo presidente na sexta-feira (19), durante evento em Divinópolis (MG), foi reproduzido no Weibo, plataforma chinesa equivalente ao X, e recebeu centenas de comentários. A maioria saiu em defesa do jogador brasileiro e criticou o presidente.
Lula chamou Neymar de “primeiro convocado home office do mundo”. A declaração fazia referência ao fato de o atacante estar se recuperando de lesão e ainda não ter entrado em campo na Copa do Mundo de 2026.
O que chamou a atenção é que a reação negativa não ficou restrita ao Brasil. Publicações chinesas que reproduziram a declaração reuniram centenas de manifestações. Uma das respostas, com 78 curtidas, explicou o motivo do ataque de Lula: “porque Neymar certa vez se posicionou publicamente ao lado de outro político”.
Outro usuário escreveu: “este presidente é tão abstrato e carece completamente de uma visão geral. Todos os presidentes estrangeiros são assim? Nossos líderes jamais seriam tão insensíveis e sem visão”.
As críticas seguiram no mesmo sentido. “A visão do presidente é menor que uma semente de gergelim; ele vem perseguindo o yin e o yang há anos”, afirmou uma internauta. Outro comentário questionou: “será este o tipo de magnanimidade que um presidente deveria ter?”. Um usuário resumiu: “um presidente com tamanha falta de visão”. Outro foi mais direto: “esse presidente é ultrajante”.
Também apareceram manifestações de solidariedade ao jogador. “O Brasil não merece Neymar”, disse uma publicação. Outra mensagem afirmou: “deveria ser o partido que Neymar apoia, não ele”. Ou seja, mesmo entre usuários estrangeiros, apareceu de maneira clara que o ataque de Lula não se dirigia ao desempenho do jogador, mas à sua posição política.
Neymar é popular também na China
Neymar é conhecido do público chinês, já fez publicidade para marcas do país e empresta sua imagem a uma marca de energético vendida no mercado chinês. Sua figura, portanto, circula entre torcedores e consumidores chineses há anos.
Neymar é conhecido na China pelo mesmo motivo que o é em praticamente todos os países oprimidos: trata-se de um dos maiores jogadores da história do futebol, o maior jogador brasileiro em atividade e o principal nome do futebol nacional dos últimos 15 anos. A publicidade e os contratos comerciais ajudam a ampliar sua imagem, mas não explicam sua popularidade. O fundamental é seu papel como ídolo esportivo de alcance mundial. Por isso, a tentativa de Lula de ridicularizá-lo foi tão mal recebida. Para a maioria dos comentários, o presidente brasileiro atacou justamente um dos maiores símbolos do futebol brasileiro recente, em plena Copa do Mundo. A crítica, vinda de fora do País, mostra o grau de desacerto político da declaração.
Lula atacou Neymar porque o jogador é identificado com o bolsonarismo. Ao fazer isso, tenta explorar eleitoralmente uma rejeição política ao jogador. No entanto, Neymar não é apenas um eleitor de direita. É o maior craque brasileiro dos últimos 15 anos, um jogador que a maioria do povo queria ver novamente na Seleção.
Atacar Neymar para agradar os setores que torcem contra a Seleção é uma política desastrosa para a esquerda. O povo brasileiro não acompanha a Copa do Mundo como um debate parlamentar. A Seleção é um patrimônio popular. O jogador que veste a camisa do Brasil, ainda mais um craque como Neymar, não pode ser tratado como inimigo do País porque tem uma posição política errada.
Direita aproveita o erro
No mesmo dia da declaração, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo defendendo Neymar e criticando gastos do governo. O episódio mostra como a direita se aproveita facilmente dos erros da esquerda petista.
Enquanto Lula debocha de Neymar, a direita aparece como defensora do jogador. É uma inversão absurda, mas previsível. O bolsonarismo tenta se apropriar do futebol sempre que pode. A esquerda, por sua vez, frequentemente entrega esse terreno de bandeja, tratando a Seleção e seus principais jogadores com desprezo.
A fala de Lula também desconsidera a própria história da Seleção. Jogadores lesionados ou em recuperação já foram decisivos em Copas anteriores. Ronaldo chegou à Copa de 2002 sob desconfiança e terminou como artilheiro do torneio, conduzindo o Brasil ao pentacampeonato. Tostão jogou a Copa de 1970 sob grave risco à visão. Rivaldo, Branco, Zico e Kaká também conviveram com problemas físicos em diferentes momentos.
A lesão não apaga a grandeza de um jogador. Muito menos autoriza o presidente da República a ridicularizar um atleta convocado para defender o Brasil.
O fato de chineses, do outro lado do mundo, destacarem o absurdo da fala revela o tamanho do erro. Lula atacou um dos principais símbolos do futebol brasileiro recente. E fez isso em um momento em que deveria defender a Seleção contra os ataques da imprensa burguesa e contra todos os que torcem pelo fracasso do futebol brasileiro.
A crítica dos usuários chineses é, portanto, um sinal de que a declaração foi recebida como aquilo que ela é: uma provocação desnecessária, sem sensibilidade e sem qualquer ganho político para a esquerda.





