O Brasil foi eliminado pela Noruega na segunda fase da Copa do Mundo de 2026. A derrota por 2 a 1, em 5 de julho, no estádio MetLife, em Nova Jérsei, deu início a mais uma campanha contra o futebol brasileiro.
O comentarista Eugênio Leal, do Lance!, afirmou que “o Brasil é pior do que a Noruega hoje”. Depois de comparar jogadores das duas seleções, concluiu: “o tempo passou e o Brasil ficou pra trás”. Para ele, a Seleção precisa se “reinventar” e reconhecer que perdeu sua posição entre as principais equipes do mundo.
Ricardo Melo, em artigo publicado no Poder360 em 9 de julho, chamou o futebol brasileiro de “relíquia do passado distante”, classificou os jogadores da Seleção como “atletas bisonhos” e escreveu que a Copa de seleções nacionais “já era” para o País.
Samindra Kunti, em reportagem da BBC News Brasil, apresentou a mesma conclusão: “o Brasil simplesmente foi ultrapassado pela Europa”. Segundo o jornalista, a formação de jogadores foi “industrializada” pelos europeus, enquanto o Brasil permaneceu preso ao passado.
O discurso não é novo. Sempre que a Seleção perde uma Copa, aparecem os anúncios de que o futebol brasileiro envelheceu, de que a técnica já não é suficiente e de que o País precisa seguir o modelo europeu.
A imprensa já enterrou o futebol brasileiro muitas vezes.
1950: enterrado no Maracanã
O primeiro grande anúncio do fim ocorreu em 16 de julho de 1950. O Brasil precisava de um empate contra o Uruguai, abriu o placar, perdeu por 2 a 1 e transformou o Maracanã no centro de uma comoção nacional.
A derrota foi tratada como prova de que o brasileiro não tinha capacidade para vencer partidas decisivas. A Seleção passou mais de dois anos sem entrar em campo. A Confederação Brasileira de Desportos abandonou o uniforme branco e abriu um concurso para escolher novas cores, como se a camisa tivesse alguma responsabilidade pelo resultado.
Nos jornais, a improvisação, o drible e o individualismo passaram a ser apontados como defeitos. Defendia-se que o jogador brasileiro precisava ser submetido a uma disciplina mais rígida e que a equipe deveria prevalecer contra o craque. Já se apresentava a imitação do futebol europeu como solução.
Nelson Rodrigues resumiu mais tarde o ambiente criado pelo Maracanaço com a expressão “complexo de vira-latas”, definida por ele como “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, diante do resto do mundo”.
A derrota por 4 a 2 para a Hungria, em 1954, reforçou a acusação de que o jogador brasileiro “amarelava” nos jogos decisivos. Para a Copa de 1958, a comissão técnica levou o psicólogo João Carvalhaes, que chegou a desconfiar justamente de Pelé.
Em 1958, o Brasil foi campeão na Suécia com craques como Pelé, Djalma Santos, Zito, Mazzola e Pepe. Em 1962, ganhou novamente. Em 1970, conquistou o tricampeonato com uma seleção ainda mais ofensiva.
A resposta ao Maracanaço não veio da negação do futebol brasileiro, mas do desenvolvimento de suas principais características.
1966: o fim do time bicampeão
O Brasil chegou à Copa da Inglaterra como bicampeão mundial e saiu ainda na primeira fase. Depois de vencer a Bulgária, perdeu por 3 a 1 para a Hungria e pelo mesmo placar para Portugal.
Pelé sofreu uma verdadeira caçada. Os adversários recorreram a faltas violentas, enquanto os árbitros permitiram que o principal jogador do mundo fosse retirado da competição pela força.
Mesmo assim, a eliminação foi apresentada como prova de decadência. A geração campeã estaria esgotada, os europeus teriam alcançado uma superioridade física e tática e o futebol brasileiro precisaria passar por uma reforma profunda.
João Saldanha, então jornalista, atribuiu o fracasso à “presunção” e à “incompetência”, em texto publicado no Última Hora em 22 de agosto de 1966. As críticas à preparação desordenada, iniciada com 47 pré-convocados, tinham fundamento. O problema foi transformar os erros da direção da Seleção em falência de toda uma escola de futebol.
Quatro anos depois, o Brasil conquistou o tricampeonato no México. A equipe de Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson e Rivellino tornou-se a mais celebrada da história das Copas.
O futebol considerado ultrapassado em 1966 apareceu em 1970 em sua forma mais desenvolvida – curiosamente, com a contribuição inestimável do próprio Saldanha.
1974: a morte do futebol-arte
A Copa de 1974 foi a primeira disputada pelo Brasil depois da despedida de Pelé da Seleção, ocorrida em 1971. Sem o maior jogador de sua história e sem Gérson e Clodoaldo, castigados por lesões, o time fez uma campanha irregular na Alemanha Ocidental.
Empatou com Iugoslávia e Escócia, venceu o Zaire, passou por Alemanha Oriental e Argentina e perdeu para a Holanda de Johan Cruif. Na disputa do terceiro lugar, foi derrotado pela Polônia. Mas chegou à semifinal, tendo derrotado duas grandes seleções.
A Holanda foi apresentada como prova de que a Europa tinha criado um futebol novo, diante do qual o Brasil teria se tornado velho. Zagallo foi chamado de desatualizado. Jairzinho e Paulo César Caju foram acusados de falta de compromisso. O mau desempenho foi atribuído ao “estrelismo” dos jogadores e a uma suposta superioridade técnica europeia.
A revista Veja registrou a apatia que se espalhou depois da derrota e afirmou que a população teria concluído que “não tem importância o Brasil ganhar ou não o tetra”. Apenas quatro anos depois do tricampeonato, o futebol brasileiro voltava a ser tratado como uma força do passado.
A confusão apareceu novamente em 1978. Depois de cobrar uma modernização europeia, parte da imprensa passou a acusar Cláudio Coutinho de “europeizar” a Seleção, torná-la excessivamente teórica e diminuir sua capacidade ofensiva.
Quando o Brasil jogava à brasileira, exigia-se a Europa. Quando tentava seguir os europeus, cobrava-se o futebol brasileiro.
1982: a ordem era imitar os europeus
A derrota para a Itália, em 5 de julho de 1982, deu origem ao enterro mais conhecido do futebol-arte. O time de Telê Santana, com Sócrates, Falcão, Zico, Cerezo e Oscar, encantou o mundo, mas perdeu por 3 a 2 no estádio Sarriá, em Barcelona.
O Brasil precisava apenas do empate. Paolo Rossi marcou os três gols italianos.
Depois da partida, espalhou-se a tese de que a beleza tinha perdido para a eficiência. Telê passou a ser acusado de falta de pragmatismo. O País deveria reforçar a marcação, diminuir os riscos e abandonar a confiança na capacidade técnica de seus jogadores.
Esse julgamento atravessou as décadas. Em artigo publicado nos últimos dias na Revista Fórum, Julinho Bittencourt escreveu que, a partir daquela tarde, “nunca mais o futebol foi o mesmo”. Sarriá passou a representar o momento em que o futebol-arte teria morrido diante da força, da retranca e da busca do resultado a qualquer preço.
Sócrates combateu essa conclusão. O capitão da equipe de 1982 criticava a transformação do estilo do vencedor de uma Copa em receita obrigatória para todos os países.
A Itália ganhou aquela partida e conquistou o torneio. Isso não fez do estilo italiano uma escola superior à brasileira.
O Brasil voltou a ser campeão em 1994 e 2002. Nas duas ocasiões, venceu com jogadores formados na tradição técnica do País, embora as equipes fossem diferentes da seleção de 1982.
Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e Cafu não surgiram da imitação do futebol europeu.
De 2006 a 2026: a velha história da “reinvenção”
A eliminação para a França em 2006 abriu o período mais recente dessa campanha. O chamado “quadrado mágico”, formado por Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Adriano, fracassou nas quartas de final. A Seleção foi acusada de acomodação, falta de preparação e excesso de confiança. Logo surgiu a expressão “fim de uma era”.
Em 2010, a derrota para a Holanda nas quartas renovou as cobranças. Em 2014, o 7 a 1 para a Alemanha foi apresentado como o ponto mais baixo da história da Seleção. Em 2018, depois da eliminação para a Bélgica, repetiu-se que o Brasil tinha ficado para trás. Em 2022, a queda nos pênaltis contra a Croácia produziu o mesmo pedido de reforma.
Em 2026, a Noruega serviu para mais uma repetição.
As palavras mudam pouco. Fala-se em “reinventar”, “modernizar” e “industrializar” a formação de jogadores. A cada Copa, surge um novo país que o Brasil deveria copiar: Bélgica, Holanda, Croácia, Inglaterra, França ou Noruega.
A técnica brasileira aparece como atraso. A organização dos europeus é apresentada como ciência superior.
A repetição chegou a ser reconhecida pela própria imprensa. André Lobão escreveu na Revista Fórum, em 8 de julho de 2026, que “as justificativas para os insucessos se repetem textualmente” e que “a crise é eterna; só mudam os anos e os personagens”.
O futebol europeu, no entanto, depende intensamente dos jogadores formados fora da Europa. Os principais clubes do continente compram desde cedo os melhores brasileiros, sul-americanos e africanos. Depois, a concentração de dinheiro e jogadores nesses clubes é usada como prova de uma suposta superioridade europeia.
O ataque formado por Neymar, Messi e Suárez marcou uma época no Barcelona. O Liverpool campeão europeu de 2019 teve Roberto Firmino como uma de suas principais peças, ao lado de Salah e Mané. O Real Madrid chegou a escalar uma equipe titular sem nenhum espanhol.
Os clubes europeus reúnem jogadores de todo o mundo. Não foram eles que formaram todos esses atletas.
O futebol brasileiro continua vivo
O Brasil soma 24 anos sem ganhar a Copa do Mundo. É o maior jejum de sua história e não pode ser ignorado. Mas esse período não apaga cinco conquistas nem transforma uma sequência de derrotas em prova de inferioridade permanente.
O País é pentacampeão, o maior vencedor da competição e o único que disputou todas as edições. Desde o pentacampeonato mundial, a seleção nacional ainda conquistou 12 títulos, contando os continentais, intercontinentais, olímpicos e das categorias de base. Nenhuma seleção soma tantos troféus e medalhas de ouro no período.
Mesmo durante o jejum, os clubes brasileiros conquistaram títulos importantes. O Internacional derrotou o Barcelona no Mundial de 2006. O Corinthians venceu o Chelsea em 2012. O São Paulo continua como tricampeão mundial. Em 2025, o Fluminense chegou à semifinal do Mundial de Clubes diante de equipes montadas com centenas de milhões de euros.
O Brasil também continua sendo o maior exportador de jogadores. Segundo levantamento do Observatório do Futebol do CIES, divulgado em maio de 2026, 1.455 brasileiros atuavam no exterior, contra 1.275 franceses e 1.066 argentinos. Foi o sétimo ano consecutivo em que o País apareceu na primeira posição.
Nenhum outro país produz tantos jogadores para tantos campeonatos.
As derrotas revelam erros de convocação, preparação, direção e desempenho. Não demonstram que o futebol brasileiro acabou nem que o País precisa renunciar a suas principais qualidades.
A técnica, o drible, a improvisação e a capacidade ofensiva continuam sendo as armas mais desenvolvidas do jogador brasileiro.
Desde 1950, o futebol nacional foi enterrado repetidas vezes. Depois do Maracanaço vieram os títulos de 1958, 1962 e 1970. Depois de 1966 veio o tricampeonato. Depois de 1982 vieram as conquistas de 1994 e 2002.
O futebol brasileiro voltou a vencer quando recuperou suas próprias características, não quando se transformou em uma cópia do futebol europeu.
O futebol brasileiro não acabou. Seu estilo continua sendo o melhor do mundo. A própria Europa demonstra isso quando compra, todos os anos, os jogadores formados no Brasil.





