Copa do Mundo

Imprensa lesa-pátria usa Messi e Mbappé para atacar Pelé e Neymar

Campanha eufórica em favor dos astros estrangeiros procura diminuir os maiores jogadores da história do futebol brasileiro

A Copa do Mundo de 2026 mal começou e a imprensa burguesa brasileira já encontrou uma nova oportunidade para atacar o futebol nacional. A pretexto de noticiar os gols de Messi e Mbappé, diversos veículos passaram a divulgar, com entusiasmo, comparações estatísticas contra Pelé, como se a artilharia bruta em Copas do Mundo fosse suficiente para reescrever a história do esporte.

Mbappé marcou contra Senegal e chegou a 13 gols em Copas, ultrapassando os 12 de Pelé. Messi, por sua vez, fez três gols contra a Argélia e foi tratado pela CNN Brasil como protagonista de uma “noite perfeita”, com destaque para seus 200 jogos pela seleção argentina e para sua posição na artilharia histórica dos Mundiais. A campanha eufórica procura apresentar os dados como prova de que o Rei Pelé foi superado.

Não foi, nem de longe.

O maior jogador de todos os tempos disputou Copas em outra época, em condições muito mais difíceis. Os Mundiais tinham 16 seleções, menos partidas e uma concentração muito maior de equipes fortes. Não existiam grupos inchados por seleções sem tradição, nem a sequência de jogos contra adversários frágeis que a ampliação do torneio tornou cada vez mais comum.

Pelé fez 12 gols em Copas do Mundo, foi campeão três vezes, estreou em Mundial aos 17 anos e marcou dois gols na final de 1958. Disputou quatro Copas e venceu três. Na prática, jogou integralmente apenas duas: 1958 e 1970. Em 1962, foi lesionado logo no início da campanha; em 1966, foi vítima de uma verdadeira caçada em campo, com total conivência da arbitragem.

A imprensa que hoje faz festa com a ultrapassagem numérica de Mbappé e Messi esconde esse dado decisivo. Pelé não teve proteção. Ao contrário: apanhava em campo de maneira brutal, numa época em que os árbitros permitiam que os defensores destruíssem os jogadores mais talentosos. A Copa de 1966 foi o maior exemplo disso. Foi uma Copa marcada pela violência contra o Brasil e pela complacência com o jogo duro europeu.

Pelé deixou a Seleção Brasileira cedo. Aos 30 anos, já tricampeão mundial, encerrou sua trajetória em Copas. Poderia ter disputado 1974 e até 1978, caso quisesse prolongar sua carreira apenas para acumular números. Não precisou. Já tinha feito o que nenhum outro jogador fez.

A campanha contra Pelé não começou agora. Há anos, setores da imprensa procuram diminuir sua marca histórica de gols, retirando centenas de tentos de sua contabilidade sob o argumento de que não foram marcados em partidas “oficiais”, fraudando a história do futebol

Pelé marcou contra a seleção argentina, contra grandes clubes europeus e contra adversários de altíssimo nível nas excursões do Santos, quando o clube paulista era uma das maiores equipes do mundo. Muitos desses jogos eram mais difíceis do que várias partidas oficiais disputadas hoje por seleções europeias contra adversários sem tradição.

A trajetória de Messi em Copas do Mundo, por sua vez, foi muito irregular. Em 2006, era jovem. Mas Pelé, com 17 anos, já decidia uma Copa do Mundo. Em 2010, a Argentina fracassou e Messi não marcou nenhum gol. Em 2014, chegou à final, mas sua atuação nos jogos decisivos ficou muito abaixo da propaganda feita em torno dele. Em 2018, novo fracasso. Apenas em 2022, em sua quinta Copa, Messi conquistou o título mundial.

Mesmo essa conquista não pode ser tratada como uma epopeia intocável. A Argentina de 2022 foi amplamente favorecida por decisões de arbitragem, principalmente em pênaltis. Messi marcou vários gols de penalidade máxima, alguns deles em lances bastante questionáveis. Foi a Copa em que a Fifa conseguiu finalmente entregar ao seu principal garoto-propaganda o título que faltava.

O mesmo tratamento privilegiado apareceu novamente contra a Argélia. Messi fez três gols, mas também protagonizou uma entrada de sola na panturrilha de um adversário. O árbitro marcou falta, mas não mostrou cartão. O VAR não chamou o juiz. Em condições normais, era lance para expulsão. A imprensa, no entanto, preferiu falar apenas da “atuação histórica”.

A diferença de tratamento é gritante. Pelé apanhava e a arbitragem deixava seguir. Neymar quase ficou paraplégico em 2014 após a joelhada de Zúñiga e o árbitro sequer marcou falta. Messi, ao contrário, recebe uma proteção escandalosa.

Mbappé tem mais mérito esportivo que Messi em Copas. Foi decisivo em 2018, fez grande final em 2022 e assumiu responsabilidade pela seleção francesa em momentos importantes. Mas isso não muda o essencial: seus números pertencem a outra época do Mundial.

A Copa de hoje tem mais jogos, mais seleções e mais partidas contra adversários inferiores. A ampliação do torneio facilita a acumulação de gols para os grandes jogadores das principais seleções. Comparar diretamente os 13 gols de Mbappé com os 12 de Pelé, sem explicar essa diferença, é uma falsificação.

Além disso, a própria França também foi beneficiada por decisões discutíveis. Em 2018, na final contra a Croácia, um pênalti marcado por toque de mão ajudou a definir o jogo quando a partida ainda estava aberta.

Por trás da exaltação a Messi e Mbappé, aparece também o ataque permanente a Neymar. A imprensa brasileira adora tratar Neymar como “mimado”, enquanto fecha os olhos para o favorecimento recebido pelos astros estrangeiros.

Neymar tem oito gols em Copas do Mundo e participação decisiva em praticamente todos os jogos que disputou. Em 2014, carregava a Seleção Brasileira até ser retirado da Copa por uma agressão brutal. Em 2018, voltou de lesão e ainda assim organizou o jogo brasileiro, deu passes, cobrou escanteios, armou jogadas e fez a equipe jogar para frente.

Há uma diferença fundamental. Messi e Mbappé jogam em seleções organizadas para servi-los. Neymar, durante boa parte de sua trajetória na Seleção Brasileira, jogou para os outros. Foi armador, garçom, cobrador de bolas paradas e principal alvo dos marcadores adversários.

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