A nova pesquisa Quaest produziu pânico na esquerda. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente num eventual segundo turno: 42% contra 40%, ainda dentro da margem de erro. Mais grave para o governo, o candidato do PL avançou dez pontos entre quem recebe de dois a cinco salários mínimos.
Nos bastidores petistas, já apareceram explicações sobre comunicação ruim e uma campanha excessivamente “analógica”. É mais confortável culpar a propaganda do que discutir a política que está sendo propagandeada.
A pesquisa foi divulgada depois de o caso Banco Master colocar Alexandre de Moraes no centro de uma crise gigantesca no STF. Vieram a público trocas de mensagens com Daniel Vorcaro, participação direta na edição de contratos e sobre mais de R$200 milhões pagos ao escritório de sua esposa.
O problema para Lula é que o PT passou anos amarrando sua imagem à de Moraes.
Quando o ministro censurava, comandava inquéritos excepcionais e perseguia adversários políticos, a esquerda dizia que ele estava defendendo a democracia contra o bolsonarismo. O STF foi apresentado como barreira contra a extrema-direita. Moraes, como uma espécie de herói da civilização.
Agora que ele está no olho do furacão, essa relação cobra seu preço.
Flávio Bolsonaro pode aparecer como inimigo da bandidagem togada. Lula aparece quase como um cúmplice de tamanha bandalheira. Parte do eleitorado popular olha para a crise, vê o STF afundado no esterco e associa o governo a toda essa podridão.
Não foi um acidente. É resultado da linha adotada pelo PT desde, pelo menos, a eleição anterior.
A chamada frente ampla consistiu em ressuscitar justamente os piores inimigos do povo. Geraldo Alckmin deixou de ser o picolé de chuchu para ser o companheiro vice-presidente. Simone Tebet deixou de ser uma latifundiária que votou pelo impeachment de Dilma, entrou para o governo e hoje é a candidata da esquerda ao Senado em São Paulo. Junto com Marina Silva, marionete de George Soros, igualmente golpista e que agora é 13.
O PSDB e figuras que participaram da ofensiva contra Dilma Rousseff e o PT passaram a ser apresentados como defensores da democracia.
Em vez de nocautear politicamente a direita, que estava nas cordas após as derrotas de 2018 e 2022, o PT resolveu tocar o gongo, dar-lhe água para beber, massageá-la e voltar para o ringue. Agora quem está nas cordas é o próprio PT.
A consequência não foi Alckmin, Tebet, Marina e o antigo tucanato adotarem o programa da esquerda. Foi o PT abandonar cada vez mais uma política própria para caber dentro da frente ampla, à qual ele lidera na aparência e é arrastado por trás da direita na prática.
O mesmo aconteceu com o STF. Em nome do combate a Bolsonaro, a esquerda aceitou que 11 ministros não eleitos acumulassem poderes cada vez maiores. Deixou à direita todo o terreno da denúncia contra os abusos da Corte.
Agora Flávio Bolsonaro colhe parte desse descontentamento.
Seu avanço entre os eleitores de menor renda deveria preocupar ainda mais o PT. São trabalhadores, desempregados, pequenos comerciantes e pessoas que vivem diretamente os efeitos dos salários baixos, dos serviços públicos ruins e da falta de emprego. Sofrem na pele a política direitista que Lula leva a cabo na economia para tentar agradar aos banqueiros como parte da política frente-amplista.
A resposta para ganhar esse setor não está numa campanha menos “analógica”.
Está em oferecer alguma coisa concreta.
Um governo que concretizasse o aumento dos salários, redução da jornada, pleno emprego, investimento público, defendesse as empresas públicas e enfrentasse minimamente os grandes capitalistas e seus funcionários no Judiciário e na política teria algo para apresentar a essa população.
A frente ampla oferece Alckmin. Oferece Tebet. Oferece os picaretas do STF. E ainda pede que o trabalhador vote nisso para se proteger de Bolsonaro.
A política é tão contraditória que pode produzir justamente o resultado que dizia querer evitar. Para derrotar a direita, o PT juntou-se à direita. Para impedir a volta do bolsonarismo, tornou-se dependente dos setores que abriram caminho para ele e que estarão com ele quando o PT não servir mais aos seus objetivos.
Agora pode perder para Flávio Bolsonaro, um político medíocre que vive à sombra do pai.
O mais irônico é que toda essa política foi justificada pela necessidade de preservar o governo e impedir que os cargos públicos voltassem às mãos da extrema-direita. Depois de engolir Alckmin, Tebet, Marina, PSDB e STF, o PT corre o risco de perder exatamente aquilo que colocou acima de tudo: seus cargos.
Chamaram isso de frente ampla. A esta altura, traseiro amplo parece uma descrição mais precisa.





