África

Com apoio da Rússia, Máli frustra mais um golpe do imperialismo

Ministro da Defesa foi assassinado por milícias rebeldes impulsionadas pelo imperialismo

Neste domingo (25), o ministro da Defesa do Máli, general Sadio Camara, uma das figuras centrais do atual governo de transição do país africano, foi assassinado. Segundo o governo de transição, Camara morreu depois que sua casa, na cidade de Kati, foi atacada por um veículo carregado de explosivos, conduzido por um suicida. O ministro chegou a ser levado ao hospital, mas não resistiu. Sua esposa e parentes também morreram no ataque, além de pessoas que estavam em uma mesquita próxima, atingida pela explosão.

Sadio Camara era um dos homens fortes do governo de transição maliano e um dos principais responsáveis pela reorganização militar do Máli após a ruptura com a França. Também foi uma das figuras centrais da aproximação com a Rússia e da substituição da cooperação militar francesa por acordos com o país eslavo.

Ao mesmo tempo em que o ministro era assassinado, um conjunto de ações coordenadas ocorriam em várias cidades. Os ataques miraram desde instalações militares a prédios ligados ao governo. A operação foi reivindicada pelo Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos, conhecido como JNIM ou GSIM, ligado à Al-Qaeda, em coordenação com a Frente de Libertação do Azawad, a FLA, organização separatista tuaregue que atua no norte do país. Os tuaregues são um povo nômade de origem berbere que habita a região do Deserto do Saara, habitando países como Máli, Níger, Argélia, Líbia e Burquina Fasso.

Durante quase uma década, a França manteve tropas no Máli sob o pretexto de combater o “terrorismo”. O resultado foi o contrário: o “terrorismo” se espalhou, o Estado maliano perdeu controle sobre grandes áreas do território e a presença francesa passou a ser vista por setores cada vez maiores da população como uma ocupação colonial disfarçada. Foi nesse cenário que os militares chegaram ao poder, romperam com a França e expulsaram as tropas francesas. O mesmo processo ocorreu em Burquina Fasso e Níger. Os três países formaram a Aliança dos Estados do Sael, depois convertida em Confederação AES. Dirigidos por governos militares, Máli, Burquina Fasso e Níger romperam com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), organização capacho do imperialismo francês.

A cidade de Kati, onde Camara foi assassinado, fica a cerca de 15 quilômetros da capital Bamaco e abriga um dos principais centros militares do país, o campo Soundiata Keïta. Esse campo foi de onde partiu o golpe de Estado que derrubou o antigo regime fantoche do imperialismo francês.

A operação também atingiu Bamaco, além de posições no norte e no centro do país. A Al-Qaeda declarou ter atacado o sítio do presidente da transição, Assimi Goïta, o aeroporto e instalações militares em Kati. O FLA, por sua vez, anunciou ter retomado Kidal, cidade do norte do Máli, recuperada pelo Exército maliano em novembro de 2023 com apoio de forças russas então ligadas ao grupo Wagner, depois reorganizadas como África Corps.

Os separatistas tuaregues afirmam ter assumido o controle de Kidal e dizem ter feito um acordo para permitir a saída de militares malianos e russos. Fontes russas reconheceram que unidades do África Corps e soldados do Exército do Máli deixaram Kidal, alegando que a decisão foi tomada em conjunto com o governo de transição e que a retirada priorizou feridos e equipamentos pesados.

A imprensa imperialista procurou apresentar a operação como prova de que o governo de transição de Assimi Goïta estaria em colapso. O desaparecimento público do presidente desde o início dos ataques foi usado nesse sentido. Segundo os órgãos imperialistas, Goïta teria sido retirado de Kati e levado para um local seguro, possivelmente uma base de forças especiais próxima a Bamaco. Até segunda-feira (27), ele ainda não havia feito pronunciamento público.

Apesar do impacto político, a queda do governo, objetivo evidente dos grupos armados, não ocorreu. Depois de dois dias de combates, Bamaco e Kati amanheceram mais calmas. Em Kati, onde os confrontos foram intensos, já não se ouviam tiros, embora veículos queimados, marcas de bala e áreas destruídas mostrassem a violência dos combates. Em Sévaré, no centro do país, a situação seguia mais confusa, com relatos de disparos. Em Gao, os combates diminuíram, mas havia presença de rebeldes nas imediações.

A aliança entre o JNIM e o FLA também chama atenção. O primeiro é um grupo jihadista ligado à Al-Qaeda. O segundo é uma força separatista tuaregue que reivindica o Azawad, região do norte do Máli. A ação coordenada em várias cidades, separadas por centenas de quilômetros, mostra preparação, logística, armamento e comunicação de alto nível.

Os ataques geraram o efeito contrário ao desejado por seus patrocinadores políticos. Em vez de quebrar o bloco entre os países do Sael, eles reforçaram a integração entre os três países e a Rússia.

As forças de segurança do Máli afirmaram ter eliminado mais de 200 mercenários em todo o país e apreenderam grandes quantidades de equipamentos. Enquanto isso, o África Corps, operando sob o Ministério da Defesa da Rússia, relatou que auxiliou as forças do Máli, enfatizando que o ataque “foi frustrado”.

O África Corps da Rússia divulgou vários vídeos de ataques aéreos e de artilharia devastadores. A organização acrescentou que o ataque envolveu mercenários ucranianos. Em comunicado, o África Corps afirmou que essencialmente ajudou a evitar um golpe de Estado, mantendo posições ao longo de uma linha de frente de 2.000 km. A organização acrescentou que forneceu apoio aéreo, o que teria impedido a tomada de instalações decisivas, incluindo o palácio presidencial em Bamaco. Segundo o África Corps, as baixas dos rebeldes excederam 1.000 mortos.

O presidente interino de Burquina Fasso, Ibrahim Traore, disse que a Aliança dos Estados do Sael condenou o que descreveu como “atos ignóbeis, covardes e bárbaros” contra um país soberano, enfatizando que eles não abalariam a determinação da região de viver “livre, em paz e com dignidade”. O Ministério das Relações Exteriores da Turquia declarou que “condena veementemente” a tentativa de golpe A Embaixada da China no Máli expressou seu “profundo pesar” pela morte de Sadio Camara e “condenou fortemente os ataques terroristas”, oferecendo suas “mais profundas condolências” às vítimas.

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