A crise boliviana colocou diante da esquerda brasileira duas políticas em choque. De um lado, a política da capitulação diante do regime político, que pretende convencer os trabalhadores de que é possível enfrentar a direita, o imperialismo e a burguesia por meio de acordos com o Congresso, o Judiciário e as instituições que sustentam o próprio domínio da direita. De outro, a política que o povo boliviano está mostrando nas ruas: a mobilização direta das massas contra um governo que ataca suas condições de vida.
A Bolívia vive uma revolta popular. Camponeses, indígenas, mineiros, professores, trabalhadores e setores populares bloquearam estradas, paralisaram regiões inteiras e colocaram o governo de Rodrigo Paz contra a parede. É a reação popular a um governo de direita que, em poucos meses, tentou impor uma política de ajuste, ataque aos subsídios, favorecimento ao grande capital e repressão contra os setores que resistem.
É precisamente aí que está a importância da Bolívia para o Brasil. A esquerda brasileira, particularmente o Partido dos Trabalhadores (PT), insiste em vender a ilusão de que o problema nacional pode ser resolvido por dentro das instituições atuais. O Congresso Nacional, dominado por latifundiários, banqueiros, empresários e representantes diretos da direita, seria convencido, por meio de bons acordos, a aprovar medidas em favor do povo. O Judiciário, que cassou direitos políticos, perseguiu dirigentes populares e funciona como poder acima do voto popular, seria um terreno neutro. O sistema eleitoral, manipulado pela pressão do dinheiro, da imprensa capitalista e das instituições do regime, seria o caminho para a transformação social.
A Bolívia mostra o contrário. Quando Evo Morales foi impedido de concorrer, a eleição já estava profundamente viciada. A ideia de “democracia” começa pelo direito elementar de o povo escolher seus candidatos. Se a principal liderança popular do país é retirada da disputa por uma decisão institucional, o resultado não pode ser apresentado como expressão livre da vontade popular. O que veio depois apenas confirmou a fraude política: um governo hostil aos trabalhadores, apoiado pela direita e pelo imperialismo, passou a aplicar uma política contra a população.
Diante disso, o povo boliviano não foi pedir humildemente que o Congresso corrigisse o curso do governo. Não ficou esperando uma decisão salvadora dos tribunais. Não colocou sua esperança em negociações intermináveis com os mesmos setores que sustentam a política de ataque. Foi às ruas. Transformou a crise social em crise política.
Essa é a lição central. Mesmo que a mobilização boliviana não derrube imediatamente Rodrigo Paz, ela já impôs um limite à ofensiva do governo. A possibilidade de estado de emergência, a ameaça de tropas nas ruas e a tentativa de criminalizar os bloqueios mostram que o governo está encurralado.
O contraste com a política do PT é evidente. O Brasil está no quinto governo petista, e nenhuma transformação estrutural foi realizada. O País continua submetido ao capital financeiro, ao Congresso reacionário, ao Judiciário golpista e à pressão permanente do imperialismo.
A alternativa colocada pela Bolívia é clara: ou a esquerda continua no caminho da capitulação, aceitando os limites impostos pela burguesia, ou prepara a mobilização dos trabalhadores.





