Editorial

Que fiquem as Bets, que a Globo vá embora

Ofensiva do governo contra população pobre é um serviço prestado aos inimigos do Brasil

O Ministério da Fazenda anunciou novas restrições à publicidade das Bets e bloqueou o acesso de 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada às plataformas autorizadas.

As novas regras entram em vigor em 17 de julho. As empresas terão de exibir advertências de que apostar pode causar dependência, faz perder dinheiro e não é investimento. Também estarão proibidas propagandas com comentaristas, especialistas ou influenciadores que indiquem apostas, apresentem prognósticos ou estimulem o público a apostar imediatamente.

Cerca de 27 milhões de brasileiros atendidos pelo Bolsa Família e pelo BPC estão proibidos de apostar. As empresas devem consultar os CPFs dos clientes quinzenalmente, bloquear os beneficiários e encerrar suas contas.

É uma interdição grotesca sobre as finanças da população. O trabalhador pobre pode pagar os juros do cartão, contratar um empréstimo consignado ou bilhete de loteria. Não pode, porém, apostar R$10 em uma partida de futebol.

Mesmo esse ataque foi considerado tímido por defensores do governo. Há quem clame por ainda mais rigor, começando pelo fim completo da publicidade das apostas. A declaração mostra até onde chegou o moralismo autoritário de um setor da esquerda brasileira. Para a esquerda pequeno-burguesa, milhões de brasileiros são incapazes, pessoas que precisam ser protegidas de suas próprias decisões por ministros, juízes e parlamentares.

A comparação entre apostas e cigarros, feita pelos defensores do governo, é uma fraude. O cigarro provoca um dano físico direto. A aposta é uma atividade de risco. Pode gerar dependência, mas isso não autoriza o Estado a proibi-la para todos os adultos.

A ofensiva ganha força durante a Copa do Mundo. As Bets financiam parte importante das transmissões gratuitas pela Internet e permitem o crescimento de canais que disputaram audiência e anunciantes com a Globo. Quando o governo restringe sua publicidade, atinge também o financiamento desse modelo.

Não é coincidência que a campanha preserve os grandes bancos e a televisão tradicional. A Globo promoveu durante décadas loterias, bolões, sorteios e títulos de capitalização. Os bancos anunciam crédito fácil todos os dias, embora cobrem juros superiores a 400% ao ano no cartão rotativo. Nenhum desses defensores do povo propôs proibir suas propagandas.

O principal assalto contra o trabalhador não ocorre nas Bets. Ocorre nos bancos. Em abril, 80,9% das famílias brasileiras estavam endividadas. O sistema financeiro toma mensalmente uma parcela do salário por meio do cartão, do cheque especial, dos financiamentos e do crédito consignado.

A escolha revela o conteúdo social da campanha. Os que pedem a proibição das apostas não combatem os banqueiros que esmagam os trabalhadores com juros. Preferem perseguir o pobre que aposta e entregar ao Estado o poder de decidir o que ele pode fazer com seu dinheiro.

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