O governo boliviano ampliou a ofensiva judicial e policial contra o ex-presidente Evo Morales e as organizações operárias, camponesas e de índios que participaram das mobilizações realizadas entre maio e junho. Ministros do governo de Rodrigo Paz Pereira admitem abertamente que há uma estratégia para prender Morales antes do fim da atual gestão.
A Procuradoria-Geral abriu uma investigação contra Morales, o secretário-executivo da Central Operária Boliviana (COB), Mario Argollo, e o dirigente camponês Vicente Salazar. O processo foi iniciado após uma denúncia do Comitê Pró-Santa Cruz, uma das principais organizações da direita golpista boliviana. Salazar já se encontra em prisão preventiva no presídio de Chonchocoro.
O ministro de Governo, Marco Antonio Oviedo, afirmou que a investigação não representa perseguição política, mas uma resposta às mortes, aos feridos e às perdas econômicas registradas durante os 53 dias de bloqueios de estradas.
“Isso não é perseguição, isso é justiça. Quando alguém protesta e provoca mortes, além de danos econômicos, deve responder por seus atos”, declarou Oviedo, justificando as medidas verdadeiramente fascistas que estão sendo adotadas pelo regime.
Governo anuncia prisão antes do julgamento
A alegação de que se trata apenas de uma investigação judicial foi desmentida pelo próprio ministro de Obras Públicas, Mauricio Zamora. Em entrevista televisiva, ele garantiu que Evo Morales será preso antes do fim do governo de Rodrigo Paz.
“Posso garantir que Evo Morales terminará preso nesta gestão”, afirmou Zamora. O ministro disse ainda que o Executivo possui uma estratégia para levar o ex-presidente aos tribunais, mas declarou que os detalhes não podem ser divulgados.
“Há coisas que não se podem dizer, há uma estratégia. Evo Morales vai chegar à Justiça”, disse.
A declaração expõe que o resultado dos processos já foi decidido politicamente pelo governo antes de qualquer julgamento. O ministro também classificou os bloqueios como uma tentativa fracassada de golpe de Estado e acusou os manifestantes de “narcoterrorismo”.
Zamora declarou ainda que entre US$300.000,00 e US$500.000,00 eram gastos diariamente para sustentar as mobilizações. Não apresentou, contudo, qualquer prova pública, documento ou informação sobre a suposta origem do dinheiro.
Morales permanece em Lauca Ñ, no Trópico de Cochabamba, protegido por moradores e dirigentes cocaleros diante de uma ordem de prisão relacionada a outro processo. O ex-presidente foi declarado rebelde pelos tribunais e denuncia que as acusações fazem parte de uma operação destinada a eliminá-lo da vida política.
O dirigente Alejandro Caricari informou que as organizações do Trópico permanecem em estado de alerta contra uma possível operação policial para prender Morales. O ex-presidente também lembrou que o Comitê Pró-Santa Cruz promoveu bloqueios em 2019 e 2021 sem que seus dirigentes fossem submetidos ao mesmo tratamento.
Ofensiva contra camponeses e índios
A perseguição já se estende a outras lideranças populares. O governador de Cochabamba, Leonardo Loza, declarou que não participou dos bloqueios, mas que está preparado para responder a qualquer processo iniciado pelo governo.
“Se é crime ser índio, se é crime vir da classe popular, que nos processem, como sempre fizeram. Sou índio, sou camponês e sou quéchua. Se é crime representá-los, que o façam”, afirmou.
Loza declarou que não abandonará sua classe, sua militância política nem seu apoio a Morales devido às ameaças judiciais.
“Não vou renunciar à minha classe. Não traio meu sangue. Fico ao lado do meu povo, dos meus irmãos, dos meus companheiros e do irmão Evo Morales”, disse.
O dirigente camponês David Mamani, da Federação Departamental de Camponeses Tupac Katari de La Paz, entrou na clandestinidade. Seu advogado, Abel Loma, afirmou que Mamani está escondido em território boliviano para se proteger da perseguição política. A polícia sustenta que ele e outros dirigentes deixaram o país e anunciou que poderá pedir a colaboração dos governos vizinhos para capturá-los.
A ofensiva também aumentou a tensão no Trópico de Cochabamba. Organizações da região rejeitaram uma visita anunciada de Rodrigo Paz ao município de Chimoré e denunciaram o presidente por utilizar cerimônias militares para atacar os camponeses e os índios.
Os dirigentes declararam estado de alerta e afirmaram que Paz não possui apoio na região. Também denunciaram que as medidas econômicas do governo atingem principalmente as famílias mais pobres e exigiram explicações sobre denúncias de tráfico de drogas envolvendo malas e carregamentos de madeira.
Enquanto Vicente Salazar permanece em prisão preventiva no presídio de Chonchocoro, David Mamani segue na clandestinidade e Evo Morales permanece em Lauca Ñ, protegido pelos camponeses e dirigentes cocaleros do Trópico de Cochabamba. As organizações da região declararam estado de alerta diante da possibilidade de uma operação policial para prender o ex-presidente.




