Oriente Médio

Iêmen retoma guerra de libertação contra Arábia Saudita

Ataque ao aeroporto de Saná encerra a desescalada iniciada em 2022 e coloca a monarquia saudita diante de uma resistência muito mais armada do que em 2015

A Arábia Saudita voltou a atacar o Iêmen. Na segunda-feira (13), aviões da coalizão dirigida pelo governo saudita bombardearam a pista do Aeroporto Internacional de Saná, numa tentativa de impedir a chegada de um avião civil iraniano.

O ataque encerrou a desescalada militar que vigorava desde 2022. As autoridades iemenitas classificaram o bombardeio como uma declaração de guerra e anunciaram uma resposta contra aeroportos, portos e instalações petrolíferas sauditas.

A aeronave iraniana transportava uma delegação iemenita que retornava de cerimônias realizadas no Irã, além de mais de 200 doentes e passageiros que estavam impedidos de voltar ao país. Após o bombardeio, o avião seguiu para o Aeroporto Internacional de Hodeidá, onde pousou em segurança.

A pista de Saná foi atacada justamente quando o voo iraniano rompia o bloqueio aéreo imposto ao Iêmen. Desde agosto de 2016, a coalizão saudita controla o espaço aéreo do país e restringe a entrada e a saída de aeronaves comerciais.

O aeroporto atende a região onde vive aproximadamente 80% da população iemenita, cerca de 20 milhões de pessoas. O fechamento obriga doentes, estudantes e trabalhadores a atravessar regiões de guerra por terra para alcançar aeroportos controlados pelos aliados da Arábia Saudita.

O ataque retoma abertamente a guerra de libertação nacional travada pelo povo iemenita contra a monarquia saudita e seus patrocinadores imperialistas.

O porta-voz das Forças Armadas do Iêmen, brigadeiro-general Iahia Saré, afirmou que o ataque encerrou a fase de desescalada.

“O inimigo saudita encerrou a fase de desescalada e deve arcar com as consequências de sua agressão. Essa agressão não ficará sem resposta nem punição”, declarou.

O Ministério das Relações Exteriores do governo iemenita foi ainda mais direto: “o regime saudita declarou guerra e deve assumir toda a responsabilidade”.

Poucas horas depois, o setor de comunicação militar das Forças Armadas iemenitas publicou um vídeo intitulado A resposta está chegando. O material apresentou imagens e coordenadas de instalações estratégicas sauditas.

Entre os possíveis alvos estão o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riade; o Aeroporto Internacional Rei Abdulaziz, em Jidá; e o Aeroporto Internacional Rei Fahd, em Damã. Também foram indicados os portos de Jazan e Jidá, o Porto Industrial Rei Fahd e o complexo petrolífero de Ras Tanura.

Ras Tanura é uma das principais instalações de refino e exportação de petróleo da Arábia Saudita. Um ataque contra o complexo atingiria diretamente a principal fonte de receitas da monarquia.

Mohammad al-Bukhaiti, integrante do Bureau Político do Ansar Alá, afirmou que o Iêmen possui capacidade para atacar instalações de petróleo e gás em qualquer parte do território saudita.

“A resposta será muito forte e dolorosa. Atacaremos a infraestrutura vital do regime saudita”, disse al-Bukhaiti à emissora libanesa Al Mayadeen.

Segundo ele, a Arábia Saudita ainda pode evitar o ataque caso anuncie imediatamente o fim da agressão e a suspensão do bloqueio.

“A Arábia Saudita tem pouco tempo para tomar a iniciativa e anunciar o levantamento do bloqueio. O Iêmen é capaz de atacar profundamente o território saudita”, afirmou.

O cessar-fogo de abril de 2022 reduziu os ataques aéreos sauditas e os lançamentos de mísseis contra a Arábia Saudita. O acordo, porém, não encerrou a guerra.

O bloqueio aéreo, naval e econômico permaneceu. O governo saudita também não cumpriu os entendimentos posteriores que previam a abertura do aeroporto, a liberação dos portos, o pagamento dos funcionários públicos e a retirada das tropas estrangeiras.

Al-Bukhaiti afirmou que o Ansar Alá não havia adotado medidas militares para impor o cumprimento dos acordos porque concentrou suas forças na defesa da Palestina.

Desde outubro de 2023, o Iêmen mantém uma frente militar de apoio à Faixa de Gaza. As Forças Armadas iemenitas atacaram embarcações ligadas a “Israel” no Mar Vermelho e lançaram mísseis e aviões não tripulados contra o território ocupado.

Nem os bombardeios dos Estados Unidos e do Reino Unido conseguiram encerrar as operações iemenitas. A resistência manteve a interdição de navios ligados ao enclave sionista e obrigou grandes companhias marítimas a abandonar a rota do Mar Vermelho.

“O campo de batalha demonstrou que a frente de apoio à Palestina permitiu ao Iêmen impor um bloqueio contra aqueles que o bloqueiam”, declarou al-Bukhaiti.

A ação contra o aeroporto de Saná procura restabelecer o isolamento do país justamente após a resistência iemenita demonstrar que pode interferir numa das principais rotas comerciais do mundo.

O Ministério dos Transportes do governo iemenita acusou a Arábia Saudita de agir por pressão dos Estados Unidos e de “Israel”. O objetivo seria impedir relações diretas entre o Iêmen e o Irã e manter o país submetido ao bloqueio estrangeiro.

O governo iraniano também condenou o ataque. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, classificou o bombardeio como uma violação da soberania iemenita, da Carta das Nações Unidas e das normas internacionais da aviação civil.

A atual guerra começou em março de 2015, quando a Arábia Saudita reuniu uma coalizão militar para invadir o Iêmen. A operação recebeu armas, abastecimento, treinamento, inteligência e apoio político dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outros países imperialistas.

O objetivo declarado era recolocar no poder o presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi, que havia fugido da capital. O verdadeiro objetivo era esmagar o movimento popular que levou o Ansar Alá ao governo e impedir o surgimento de um Estado independente no sul da Península Arábica.

O Ansar Alá surgiu na província de Saada, no norte do país, combatendo a influência saudita e a submissão do antigo governo de Ali Abdullah Saleh aos Estados Unidos. Entre 2004 e 2010, o movimento enfrentou seis guerras lançadas pelo governo iemenita, com participação direta da Arábia Saudita.

Em 2011, uma revolta popular derrubou Saleh. O governo que o sucedeu manteve a política econômica, as relações com os Estados Unidos e a influência da monarquia saudita.

Em 2014, manifestações contra a retirada dos subsídios aos combustíveis reuniram grandes setores da população. O Ansar Alá avançou sobre Saná, derrubou o governo sustentado pela Arábia Saudita e passou a dirigir a maior e mais povoada região do país.

A invasão de 2015 procurava resolver essa derrota em poucas semanas. A monarquia saudita empregou aviões modernos, bombas norte-americanas, tropas estrangeiras e forças locais pagas. Mesmo assim, não conseguiu tomar Saná nem destruir o movimento de resistência.

O conflito deixou evidente que não se tratava de uma simples disputa entre grupos iemenitas. De um lado, estava uma coalizão estrangeira armada pelo imperialismo. Do outro, as forças que defendiam a independência e a unidade do país.

Por isso, a guerra assumiu o caráter de uma luta de libertação nacional.

A coalizão saudita procurou vencer pela destruição das condições de vida da população. Aeroportos, estradas, hospitais, escolas, mercados, reservatórios de água e instalações elétricas foram atacados.

O bloqueio reduziu a entrada de alimentos, medicamentos e combustível num país que dependia fortemente de importações. Milhões de pessoas passaram a enfrentar fome, doenças e falta de atendimento médico.

A transferência do Banco Central para Áden, em 2016, também interrompeu o pagamento de grande parte do funcionalismo público. A medida fazia parte da tentativa de destruir economicamente as regiões controladas pelo Ansar Alá.

Apesar dos bombardeios e do cerco, o governo revolucionário permaneceu de pé. O exército iemenita desenvolveu mísseis, aviões não tripulados, embarcações explosivas e sistemas de defesa antiaérea.

A partir de 2019, os ataques passaram a alcançar grandes instalações petrolíferas sauditas. O território da Arábia Saudita deixou de ser uma retaguarda protegida.

O governo saudita foi obrigado a aceitar a desescalada de 2022 porque a guerra ameaçava diretamente seus aeroportos, portos e campos de petróleo.

Após o bombardeio de segunda-feira, uma fonte militar iemenita informou à Al Mayadeen que qualquer ofensiva conduzida por tropas controladas pela Arábia Saudita será considerada uma ação direta do governo saudita.

“As forças mercenárias movem-se sob ordens sauditas. Qualquer movimento militar delas será considerado um movimento da Arábia Saudita. O governo saudita não se esconderá atrás de seus instrumentos”, afirmou a fonte.

A declaração impede que a monarquia ataque o território iemenita por meio de grupos locais e procure evitar a resposta militar.

As forças apoiadas pela Arábia Saudita alegaram que o ataque à pista foi realizado para impedir a entrada de um voo iraniano não autorizado. O governo saudita, por sua vez, não havia respondido diretamente às acusações até a publicação dos primeiros relatos internacionais.

Para o governo iemenita, a autorização da Arábia Saudita não possui valor. O Iêmen é um país soberano e não precisa submeter seus voos civis à inspeção de uma potência estrangeira que o invadiu e o mantém bloqueado.

A chegada do avião iraniano tinha, por isso, um significado político preciso. Era uma demonstração de que o controle estrangeiro do espaço aéreo iemenita começava a ser rompido.

O bombardeio procurou restabelecer esse controle pela força.

A resistência à invasão aproximou o Iêmen do Irã e das demais forças do Eixo da Resistência. Essa aliança permitiu ao país enfrentar os Estados Unidos, o Reino Unido, a Arábia Saudita e “Israel”.

A propaganda imperialista apresenta o Ansar Alá como uma força comandada pelo Irã. A história do movimento demonstra o contrário. O Ansar Alá nasceu no próprio Iêmen, enfrentou sucessivos governos iemenitas e já combatia a influência saudita antes de receber apoio iraniano.

A aliança com o Irã fortaleceu uma luta nacional que já existia. Não criou essa luta.

A guerra de Gaza mostrou ainda que o Iêmen não atua apenas para defender suas fronteiras. Mesmo sendo um dos países mais pobres do mundo árabe, foi o único Estado que estabeleceu uma frente militar permanente em defesa dos palestinos.

As operações no Mar Vermelho demonstraram que o país possui capacidade para atingir os interesses do imperialismo muito além da Península Arábica.

A Arábia Saudita voltou à guerra quando decidiu atacar o aeroporto de Saná. Desta vez, enfrenta um Iêmen mais organizado, mais armado e integrado a uma luta regional contra os Estados Unidos e “Israel”.

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