A Bolívia vive, neste momento, uma situação que serve de lição para o Brasil. Seis meses depois da posse de Rodrigo Paz, eleito em outubro do ano passado em uma eleição marcada pela fraude contra Evo Morales, o País está paralisado pela mobilização popular.
A Central Operária Boliviana (COB) decretou greve geral por tempo indeterminado. Mineiros, camponeses, índios, professores e transportadores bloquearam estradas em pelo menos seis departamentos. Em La Paz e El Alto, as mobilizações pedem a renúncia do presidente. O movimento lembra, nas condições atuais, as grandes revoltas populares do início do século, que derrubaram governos pró-imperialistas e abriram caminho para os mandatos de Evo Morales.
O governo Paz respondeu com repressão e perseguição política. Acusou as mobilizações de receberem financiamento do narcotráfico, ameaçou lideranças com prisão e atribuiu a Evo a responsabilidade pelos protestos. A repressão já deixou mortos, feridos e detidos. Um secretário do governo Trump chegou a ameaçar uma intervenção militar norte-americana, mostrando o grau de preocupação do imperialismo diante da mobilização popular.
A situação atual ainda confirma como foi correta uma decisão atacada pela esquerda brasileira na época. Quando Evo Morales foi impedido de concorrer e o partido do governo lançou figuras sem expressão para encobrir a fraude, o ex-presidente boliviano convocou o voto nulo. O resultado passou de 20% e ficou próximo da votação obtida pelos principais candidatos.
A campanha pelo voto nulo foi, nesse sentido, o primeiro ato de oposição ao governo que sairia da fraude eleitoral. Serviu como preparação política para a mobilização que agora toma as ruas.
O contraste com a política do PT em 2018 é evidente. Quando Lula foi impedido ilegalmente de concorrer, o PT não chamou o voto nulo nem denunciou o caráter fraudulento da eleição. Lançou Fernando Haddad, que não tinha condições de vencer, e ajudou a dar ao pleito uma aparência de normalidade. Bolsonaro venceu. Em vez de enfrentar o bolsonarismo por meio da mobilização política, o PT esperou que a própria burguesia se movesse contra o ex-presidente.
Mesmo que o PT vença em 2026, o Brasil continuará diante de uma crise profunda. A direita tende a ampliar sua força no Congresso Nacional, nos governos estaduais e nas assembleias legislativas. Para governar, um eventual quarto mandato de Lula dependerá de um conjunto de alianças ainda mais amplo. Quanto maior essa composição com a direita e a burguesia, menor será a capacidade de levar adiante qualquer medida favorável aos trabalhadores.
Em entrevista recente a Breno Altman, no Opera Mundi, o ex-presidente do PT José Dirceu reconheceu que as alianças impedem o avanço do atual governo em diversos terrenos. A política neoliberal continuará se impondo. Se Lula for derrotado, a situação será ainda mais complicada, com a direita em melhores condições para aplicar no Brasil uma política semelhante à que Rodrigo Paz tenta impor na Bolívia.
Os trabalhadores bolivianos não foram ao Congresso pedir que os deputados contivessem o governo. Foram às ruas. Essa é a principal lição dos acontecimentos, a Bolívia mostra o caminho. A tarefa da esquerda brasileira é abandonar a passividade diante do regime político e preparar a mobilização popular contra a direita, contra o imperialismo e contra a política de destruição nacional.





