Uma semana depois da derrota sofrida pelos principais partidos do regime alemão diante da extrema direita, uma nova pesquisa mostra um quadro semelhante se formando na França. Marine Le Pen inicia a campanha presidencial de 2027 com uma vantagem muito grande sobre seus adversários e aparece com pelo menos um terço dos votos em todos os cenários pesquisados.
Na Alemanha, a eleição de 6 de setembro na Saxônia-Anhalt terminou com 43,8% dos votos para a Alternativa para a Alemanha (AfD). O resultado foi mais que o dobro dos 20,8% obtidos pelo partido em 2021. A União Democrata-Cristã (CDU), partido do chanceler Friedrich Merz, caiu de 37,1% para 17,2%. O Partido Social-Democrata (SPD), que governa o país em coalizão com a CDU, ficou em apenas 9,3%. Juntos, os dois partidos do governo federal chegaram a 26,5%, muito abaixo da votação obtida sozinha pela AfD.
Agora é a França que apresenta sinais claros de uma crise semelhante.
Pesquisa Ipsos-BVA realizada entre 3 e 9 de setembro, com 13.060 eleitores, coloca Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional (RN), com 33% a 35% das intenções de voto, dependendo da combinação de candidatos. A margem de erro é de 0,9 ponto percentual.
Jean-Luc Mélenchon aparece em segundo bloco, com 15,5% a 17%. Depois deles, os partidos que comandaram a França durante décadas se dividem entre várias candidaturas. Édouard Philippe aparece entre 14% e 21%, dependendo de quem concorre pelo campo macronista. Raphaël Glucksmann tem entre 11,5% e 13,5%, enquanto Olivier Faure, do Partido Socialista, fica entre 4,5% e 5,5%. Gabriel Attal chega a apenas 6% ou 7,5% quando disputa diretamente com Philippe.
O dado mais importante não é apenas a vantagem de Le Pen. A pesquisa mostra uma rejeição muito ampla à situação política francesa. Mais de sete em cada dez entrevistados afirmam querer que a eleição produza “uma verdadeira mudança social e política”. Três quartos acreditam que a situação do país irá piorar nos próximos meses. Quando perguntados sobre seu estado de espírito, os termos mais citados são preocupação, incerteza, cansaço e raiva. Apenas 17% escolheram “esperança”.
O crescimento da extrema direita acontece nesse ambiente.
Não se trata simplesmente de uma súbita conversão ideológica de milhões de europeus ao programa da direita. Os partidos que governaram Alemanha e França perderam apoio enquanto aplicavam políticas rejeitadas por parcelas cada vez maiores da população.
Na Alemanha, CDU e SPD governam juntos enquanto o país enfrenta estagnação econômica, gastos militares crescentes e as consequências da política de confronto com a Rússia. O resultado na Saxônia-Anhalt foi uma derrota particularmente dura para a CDU, que perdeu quase 20 pontos percentuais em cinco anos. A AfD ganhou 23 pontos no mesmo período.
Na França, ocorre um desgaste semelhante dos partidos tradicionais. O antigo sistema baseado na alternância entre socialistas e a direita conservadora já havia entrado em crise antes de Emmanuel Macron. O macronismo, apresentado como saída para esse desgaste, agora também aparece fragmentado e sem um candidato capaz de se aproximar de Le Pen.
Nem a social-democracia conseguiu aproveitar a crise. O Partido Socialista francês chega à campanha dividido, enquanto seu secretário-geral, Olivier Faure, aparece com no máximo 5,5%. O candidato mais forte ligado a esse campo, Raphaël Glucksmann, permanece muito distante do RN.
A situação alemã ajuda a entender o perigo dessa política. Durante anos, os principais partidos apresentaram a AfD como uma ameaça que deveria ser isolada por um “cordão sanitário”. Isso não impediu que o partido chegasse a 43,8% e quase conquistasse sozinho a maioria parlamentar na Saxônia-Anhalt.
A França segue pelo mesmo caminho. A campanha contra Le Pen convive com a continuidade das políticas que produziram o desgaste dos partidos tradicionais. Quanto maior a crise desses partidos, mais o RN consegue aparecer para parte do eleitorado como uma ruptura com o regime existente.
A pesquisa mostra que esse crescimento deixou de estar concentrado em determinados segmentos. Le Pen chega a 43% entre os eleitores na faixa dos 50 anos e aparece perto de 38% tanto entre os que têm mais de 60 anos quanto entre os quarentões. O eleitorado aposentado, durante muito tempo considerado uma barreira importante contra a extrema direita francesa, já não funciona dessa maneira.
Alemanha e França são os dois principais países da União Europeia. Em um deles, a extrema direita acaba de conquistar 43,8% em uma eleição regional e esmagar a CDU. No outro, sua principal candidata começa a campanha presidencial com até 35%, cerca do dobro da votação de Mélenchon e muito à frente dos candidatos dos partidos tradicionais.
A sequência das duas notícias mostra que o problema já ultrapassou uma eleição particular. Os partidos que governam a Europa estão perdendo sua base social, e a extrema direita está ocupando uma parcela cada vez maior do espaço deixado por eles.





