O governo alemão comandado pelo chanceler Friedrich Merz atingiu um novo recorde de rejeição. Pesquisa da Infratest dimap apontou que apenas 10% dos alemães estão satisfeitos com seu desempenho, enquanto 88% afirmam estar pouco ou nada satisfeitos.
A queda foi rápida. Poucos dias antes, outro levantamento do mesmo instituto havia registrado 15% de satisfação. Pesquisa do INSA, realizada em 5 de setembro, apontara 17%.
A rejeição atinge diretamente os partidos da coalizão. Entre os entrevistados descontentes, 63% responsabilizam principalmente a União Democrata-Cristã (CDU), de Merz, 22% o Partido Social-Democrata (SPD) e 7% a União Social-Cristã (CSU), aliada da CDU na Baviera.
Apenas 14% consideram Merz capaz de conduzir adequadamente o país diante dos problemas atuais.
O resultado aparece logo após a derrota sofrida pela CDU nas eleições da Saxônia-Anhalt. A Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita, obteve 43,8% dos votos, contra apenas 17,2% da CDU.
A dimensão da derrota fica evidente quando se compara com a eleição de 2021. Naquela ocasião, a CDU recebeu 37,1%, enquanto a AfD ficou com 20,8%. Em cinco anos, portanto, a votação democrata-cristã caiu para menos da metade, enquanto a extrema direita mais do que dobrou seu resultado.
A relação entre a eleição estadual e o governo federal apareceu também na pesquisa. Nada menos que 76% dos entrevistados consideraram merecido o voto de protesto dado pelos eleitores da Saxônia-Anhalt contra o governo de Berlim.
A procura por forças que se apresentam como alternativas aos partidos do regime não ocorre somente pela direita. A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), situada na extrema esquerda do sistema partidário alemão, entrou no parlamento estadual em sua primeira disputa na Saxônia-Anhalt, com 5,3% dos votos e cinco deputados. A Esquerda obteve outros 8,6%.
CDU, SPD e seus aliados se revezaram no governo durante décadas aplicando a mesma orientação econômica: ataques aos direitos dos trabalhadores, redução dos gastos sociais e defesa dos interesses dos grandes capitalistas. Merz procura aprofundar essa política ao mesmo tempo em que amplia os gastos militares e sustenta a política imperialista alemã na Europa.
Entre as medidas defendidas pelo governo estão mudanças nas aposentadorias e novos ataques aos direitos dos trabalhadores, inclusive nas regras de afastamento por doença.
A resistência a essas medidas é ampla. Apenas 13% dos entrevistados querem que as chamadas reformas sociais sejam realizadas da maneira planejada pelo governo. Outros 59% exigem mudanças, enquanto 22% defendem que sejam abandonadas.
Nas aposentadorias, 74% querem preservar o direito de quem contribuiu durante 45 anos se aposentar sem redução do benefício.
A enorme rejeição a Merz ajuda a explicar por que setores cada vez maiores do eleitorado procuram forças localizadas nos extremos. A direita explora demagogicamente a revolta contra um regime profundamente desgastado. Ao mesmo tempo, resultados obtidos por organizações situadas à esquerda demonstram que também existe espaço para uma política de ruptura com o programa aplicado pelos capitalistas alemães.
A resposta de parte da esquerda europeia tem sido justamente a contrária. Diante do crescimento da extrema direita, procura aproximar-se cada vez mais do chamado centro político e dos partidos responsáveis pelas medidas que provocam a revolta popular.
Essa adaptação entrega à extrema direita a possibilidade de aparecer como principal força de oposição ao regime. Se CDU, SPD e seus aliados são rejeitados por quase toda a população, aproximar-se deles significa assumir parte de seu desgaste.
A esquerda precisa apresentar um programa próprio dos trabalhadores e radicalizar sua oposição à política neoliberal. O eleitor que abandona os partidos do regime não está procurando a mesma política com pequenas modificações. O crescimento dos extremos ocorre justamente porque milhões de pessoas procuram uma saída fora do sistema político que produziu a situação atual.





