Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência, passou em poucos dias de uma candidatura praticamente irrelevante nas pesquisas para o terceiro lugar na disputa. Levantamentos recentes chegaram a apontá-lo com 11% das intenções de voto, atrás apenas de Lula e Flávio Bolsonaro.
A mudança chama a atenção não apenas pela velocidade. Não houve nenhum fato político capaz de explicar uma adesão popular dessa magnitude à candidatura de Cury.
Sua maior exposição recente tampouco oferece uma explicação convincente. A participação do escritor na campanha presidencial revelou um candidato politicamente despreparado, com propostas que chegaram a provocar piadas, como o uso de drones no combate ao “feminicídio” – isto é, ao assassinato de mulheres. Na entrevista à Rede Globo, suas respostas foram particularmente ruins e deixaram evidente a fragilidade de sua candidatura.
O programa apresentado por Cury também está longe de representar qualquer aspiração popular. Trata-se de mais uma candidatura com propostas que ecoam perfeitamente as exigências da burguesia, apresentadas sob a aparência de modernização, eficiência administrativa e inovação tecnológica.
Apesar disso, o escritor disparou.
O UOL registrou que Cury passou de 2% para 11% em uma semana no levantamento BTG/Nexus. Na Real Time Big Data, também chegou a 11%. Na Atlas/Bloomberg, passou de 1,6% para 7,8%.
Os próprios números levantam dúvidas sobre a ideia de que surgiu espontaneamente uma espécie de entusiasmo popular pelo candidato. Segundo a Real Time Big Data, 33% dos entrevistados que declararam voto em Cury disseram considerá-lo apenas “o menos ruim entre as opções”. Outros 18% apontaram a rejeição aos demais candidatos.
O crescimento já produziu preocupação nas campanhas de Lula e Flávio. Reportagem do Valor Econômico revelou ainda um dado muito mais significativo: dirigentes dos partidos burgueses já vinham estudando as possibilidades de uma terceira candidatura. É a admissão, pela própria burguesia, de que ela está buscando uma terceira via eleitoral.
Segundo o jornal, uma pesquisa qualitativa encomendada por um partido apontou que haveria espaço para uma terceira via, desde que aparecesse um candidato capaz de romper a atual divisão entre Lula e Flávio. Um dirigente do Centrão chegou a afirmar que Cury estaria correspondendo a essa expectativa.
É justamente aí que sua ascensão se torna suspeita.
Antes mesmo dos levantamentos que apontaram a disparada do escritor, João Pimenta, membro do Comitê Central do PCO, levantou no Diário Causa Operária a hipótese de que a burguesia estivesse preparando um candidato surpresa para a reta final da eleição.
A coluna não apresentava a hipótese como fato comprovado. Tratava-se de observar as movimentações da burguesia e tentar compreender de que maneira ela poderia intervir em uma eleição na qual seus candidatos preferidos não conseguem se impor.
A subida de Cury torna essa hipótese muito mais relevante.
A burguesia procura há muito tempo uma chamada “terceira via”. O objetivo é encontrar um candidato completamente comprometido com seus interesses, mas capaz de aparecer eleitoralmente como alternativa a Lula e ao bolsonarismo. Vários nomes foram colocados em circulação sem conseguir produzir o resultado esperado.
Cury apresenta algumas características convenientes para essa operação. Não possui uma trajetória política que o desgaste junto ao eleitorado, pode ser vendido como alguém “de fora da política” e defende um programa perfeitamente aceitável para os grandes capitalistas.
Ao mesmo tempo em que Cury cresce, outras candidaturas que disputavam o espaço da chamada terceira via perdem terreno.
Renan Santos foi atingido por uma decisão do ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral, que restringiu sua campanha. O tapetão contra o candidato do Missão pode ter servido para retirá-lo do caminho e reduzir o número de concorrentes nesse campo.
Romeu Zema também perdeu força nas pesquisas. Em levantamento no qual Cury apareceu com 11%, o candidato mineiro marcou apenas 2%.
Pode estar ocorrendo, portanto, um afunilamento deliberado da disputa. Em vez de manter vários candidatos tentando ocupar o mesmo espaço, seria mais conveniente para a burguesia concentrar a operação naquele que apresentar melhores condições para subir.
Os ataques contra Lula e Flávio Bolsonaro também entram nessa equação.
Os escândalos lançados contra os dois principais candidatos funcionam eleitoralmente como uma forma de testar a resistência de cada candidatura. Quanto Lula pode cair sem perder seu eleitorado fundamental? Quanto Flávio pode perder antes que uma parcela importante de sua base procure outro candidato?
Essas informações permitem medir o espaço disponível para uma terceira candidatura.
A questão é particularmente importante porque não seria necessário transformar Cury no candidato mais popular do País. Bastaria aproximá-lo suficientemente dos dois primeiros colocados.
A eleição municipal de São Paulo de 2024 mostrou o perigo de uma situação desse tipo. Ricardo Nunes, Guilherme Boulos e Pablo Marçal terminaram o primeiro turno praticamente empatados. Boulos ficou à frente de Marçal por uma diferença muito pequena e conseguiu a segunda vaga.
Marçal representava um problema para o sistema político. Embora fosse um candidato de direita, aparecia para parte do eleitorado como uma alternativa à direita tradicional representada por Ricardo Nunes. Havia o risco de que concentrasse o voto de protesto contra o candidato do MDB e chegasse ao segundo turno em condições de derrotá-lo.
O episódio mostrou como uma disputa com três candidatos muito próximos cria condições para que uma diferença mínima determine quem chegará ao segundo turno.
Uma situação semelhante na eleição presidencial teria consequências muito maiores.
Caso Cury continue crescendo enquanto Lula e Flávio são desgastados, pode-se formar um cenário em que três candidatos apareçam muito próximos nas pesquisas. A partir daí, qualquer resultado apertado poderia ser apresentado como perfeitamente compatível com os levantamentos anteriores.
Até porque as pesquisas eleitorais já não têm mais credibilidade. Elas são visivelmente manipuladas pelos institutos de pesquisa, por seus patrocinadores e pela imprensa burguesa. Basta ver que, nestas eleições, a Quaest se recusa a mencionar o nome dos candidatos do PCO aos entrevistados, enquanto lhes apresenta todos os outros candidatos a presidente ou a governador.
É nesse sentido que a ascensão de Augusto Cury deve ser observada. Seu crescimento ocorre exatamente no momento em que a burguesia procura um terceiro candidato, enquanto concorrentes desse mesmo campo são enfraquecidos e os dois líderes da eleição sofrem uma ofensiva permanente.
Um candidato que estava praticamente fora da disputa, não apresentou nada capaz de provocar uma mobilização do eleitorado e teve uma atuação pública medíocre tornou-se, em poucos dias, a principal aposta para romper a polarização. A coincidência é grande demais para ser simplesmente ignorada.
A burguesia sabe jogar esse jogo. Afinal, as eleições são controladas por ela.





