Economia

Bets são bode expiatório da calamidade causada pelos banqueiros

Endividamento em massa precede as apostas pela Internet e está ligado a salários baixos, informalidade, custo de vida e crédito submetido a juros elevados

Um artigo publicado nesta sexta-feira (25) no Poder360 traz um dado importante para a discussão sobre as apostas pela Internet: o endividamento das famílias brasileiras não começou com as bets. Muito antes da regulamentação nacional do setor, milhões de brasileiros já dependiam de cartões, empréstimos e financiamentos para fechar as contas.

O texto de Vivian Graminho, Endividamento dos brasileiros: o risco de culpar um único instrumento, mostra que, em novembro de 2022, 78,9% das famílias já estavam endividadas. Em junho de 2024, o índice era praticamente o mesmo, 78,8%. O mercado federal regulado de apostas só começou a funcionar em janeiro de 2025.

A própria autora resume o problema ao afirmar que “os números não confirmam que os gastos com as apostas são a razão do problema”. O artigo aponta para o crédito, os juros, a renda e a inadimplência e lembra que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, atribuiu o avanço das dívidas principalmente ao crédito utilizado para consumo e despesas recorrentes, destacando ainda o peso dos juros do cartão.

O dado histórico é decisivo porque desmonta a explicação segundo a qual bastaria conter as apostas para solucionar o endividamento, uma desculpa do governo federal para proibir as bets e dizer o que o povo deve fazer com o próprio dinheiro. As bets podem produzir prejuízos graves e levar determinadas pessoas a aumentar suas dívidas. Isso não altera, porém, o fato de que o fenômeno de massas que atinge as famílias brasileiras foi formado antes da atual expansão das plataformas.

Em agosto deste ano, o endividamento continuava no recorde de 82% das famílias brasileiras, enquanto a inadimplência permanecia próxima dos 30%. O que precisa ser explicado, portanto, é por que uma parcela tão grande da população necessita recorrer permanentemente ao crédito.

É justamente nesse ponto que a análise publicada pelo Poder360, embora correta ao rejeitar a responsabilização exclusiva das apostas, para antes de chegar à raiz do problema. Juros, baixos rendimentos e dívidas não são fenômenos isolados. São parte do funcionamento de uma economia capitalista marcada por enorme desigualdade e, desde a crise internacional de 2008, submetida a sucessivos choques que descarregam seus efeitos principalmente sobre os trabalhadores.

No Brasil, essa situação assume uma forma particularmente aguda pela importância adquirida pelo capital financeiro. Os trabalhadores recebem salários baixos e, quando o rendimento não basta para as despesas mensais, precisam recorrer justamente aos bancos e demais instituições financeiras. A insuficiência salarial transforma-se assim em dívida, e a dívida, submetida a juros elevados, consome uma parcela ainda maior da renda futura.

A política monetária brasileira ilustra bem esse mecanismo. A Selic chegou a 15% ao ano em 2025 e permaneceu nesse patamar durante meses. Depois de sucessivas reduções, o Comitê de Política Monetária decidiu nesta semana baixá-la para 13,75%. Mesmo com o recuo, o próprio Banco Central continua classificando sua política monetária como restritiva.

A consequência para quem precisa de dinheiro emprestado não é abstrata. O juro básico serve de referência para uma estrutura de crédito em que cartões, empréstimos pessoais e financiamentos podem custar muito mais. Quem possui renda suficiente pode evitar essas modalidades; para quem precisa parcelar alimentos, contas, medicamentos ou outras despesas, fugir do crédito é muito mais difícil.

A situação salarial ajuda a entender por quê. O salário mínimo vigente está muito distante do necessário para atender às despesas básicas de uma família. Em agosto, o Dieese calculou em R$ 7.565,86 o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas. O valor não representa uma remuneração luxuosa: o cálculo procura cobrir alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, conforme os critérios usados historicamente pelo instituto.

A distância entre esse valor e aquilo que efetivamente recebe quem está na base da pirâmide salarial não desaparece por decreto. O trabalhador precisa cortar gastos, procurar outras fontes de renda ou se endividar.

Também não corresponde aos fatos dizer que o bom resultado recente do desemprego resolveu o problema do trabalho no País. No trimestre encerrado em julho, 37,8% dos ocupados estavam na informalidade. Eram 38,8 milhões de trabalhadores sem vínculo formal.

Quase 39 milhões de pessoas trabalhando na informalidade é um dado fundamental para compreender o endividamento. É uma parcela gigantesca da classe trabalhadora submetida, em diferentes graus, a rendimentos instáveis e à ausência de diversas garantias existentes no emprego formal.

A inflação dos produtos essenciais completa o problema. Para uma família rica, a alta de alimentos altera pouco o orçamento. Para quem recebe um ou dois salários mínimos, alguns reais a mais no arroz, na carne, no leite, no gás ou na passagem podem determinar se uma conta será paga à vista, parcelada ou simplesmente deixada para o mês seguinte.

Apresentar as apostas como grande causa da calamidade financeira produz, nesse quadro, uma conveniente inversão de responsabilidades. Em vez de discutir por que o salário não cobre as despesas, por que quase 39 milhões estão na informalidade e por que o trabalhador paga juros altíssimos quando precisa de crédito, desloca-se a discussão para o comportamento da própria vítima do empobrecimento.

Isso não significa negar os danos provocados pelas apostas. O jogo pode transformar uma dificuldade financeira em desastre, particularmente nos casos de comportamento compulsivo. O que os números não permitem é converter esse problema específico na origem de uma situação econômica formada ao longo de muitos anos.

Há, além disso, uma razão econômica para a popularidade das apostas entre setores pobres. Para quem possui salário digno e estabilidade, a promessa de ganhar rapidamente R$ 500 ou R$ 1.000 pode ser apenas entretenimento. Para quem termina o mês sem dinheiro para pagar as contas, a mesma promessa ganha outro significado. A aposta aparece como possibilidade de obter uma renda que o trabalho não proporciona.

Daí o absurdo de responsabilizar moralmente o trabalhador. Ele pode efetivamente perder dinheiro apostando, mas foi a plataforma que criou seu salário insuficiente? Foi ela que criou os juros do cartão, o trabalho informal ou o custo elevado de necessidades básicas? A resposta está na própria série histórica destacada pelo artigo: as famílias já estavam maciçamente endividadas antes do crescimento atual das bets.

A discussão precisa alcançar também a política econômica dos governos. O atual governo Lula não criou a estrutura financeira brasileira, tampouco decide sozinho a Selic, definida por um Banco Central dotado de autonomia legal, que Lula questiona mas não faz nada para mudar. Mas preservou elementos fundamentais da política econômica neoliberal e conviveu durante seu mandato com juros básicos que chegaram a 15%, mantendo o sistema financeiro numa posição privilegiada diante do restante da economia.

É essa estrutura que está no centro da questão. Em períodos de crise capitalista prolongada e cada vez mais aguda, a desigualdade não simplesmente permanece: os mecanismos de proteção dos grandes proprietários e credores tendem a transferir cada vez mais os prejuízos para os que vivem do trabalho. O assalariado perde poder de compra e recorre ao crédito; o banco transforma essa necessidade em mais uma fonte de rendimento.

O resultado está diante dos olhos. Famílias endividadas em proporção recorde, dezenas de milhões de trabalhadores informais, salário mínimo muito abaixo do necessário e uma taxa básica de juros ainda em 13,75% ao ano. As apostas podem entrar nesse quadro e piorar a condição de determinados trabalhadores, mas chegaram quando o terreno já estava preparado.

O trabalhador que aposta pode perder R$ 20, R$ 50 ou muito mais. Mas o mecanismo que transforma a insuficiência de renda de dezenas de milhões de pessoas em juros pagos mês após mês não é administrado pelas famílias endividadas. É administrado pelos bancos e demais instituições que fazem da dívida uma das mercadorias mais lucrativas da economia brasileira.

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