Ninguém se espanta que um candidato em apuros faça demagogia. Em campanha eleitoral, é a regra. O que chama a atenção na adesão de Lula à redução da maioridade penal não é o oportunismo em si, mas a escolha. Entre todas as demagogias disponíveis, cada candidato escolhe a sua, e a escolha diz muito sobre quem a faz.
Com a campanha em dificuldade, o PT tinha à mão vários acenos possíveis ao eleitorado de direita. Poderia ter dito que Alexandre de Moraes precisa deixar o STF e ser investigado. Seria uma bandeira popular, com amplo apoio na direita e em boa parte da população, farta dos desmandos do Judiciário. Lula não disse uma palavra. Poderia ter prometido retomar a política de acesso às armas do governo Bolsonaro, o que agradaria muito mais aos bolsonaristas do que qualquer projeto de segurança pública. Também não o fez.
Escolheu, em vez disso, endossar o projeto de Camilo Santana que reduz a maioridade penal para 16 anos nos chamados crimes hediondos. Não é um apelo ao bolsonarismo. É um apelo à direita tradicional, ao PSDB. É a classe média assustada que há décadas pede mais polícia, mais cadeia e mais repressão contra a população pobre. Foi essa direita que, muito antes de Bolsonaro, fez da segurança pública o seu divisor de águas.
A escolha é coerente. Atacar Moraes seria atacar o aparato repressivo que o PT ajudou a construir e do qual depende. Armar a população seria entregar ao povo um poder que a esquerda pequeno-burguesa teme. Reduzir a maioridade penal, ao contrário, amplia o poder da polícia e do Judiciário sobre a juventude pobre, sem incomodar nenhum dos donos do País. É a demagogia que não custa nada ao regime e ainda o fortalece.
Entre 2002 e 2014, o PT disputou a presidência contra Serra, Alckmin e Aécio. O argumento para votar no partido era sempre o mesmo: do outro lado estava o neoliberalismo tucano, o partido que destruiu a economia nacional sob FHC. Hoje, o PT não se apresenta como alternativa ao PSDB. Apresenta-se como o próprio PSDB. Toda a turma que apoiava os tucanos e não migrou para o bolsonarismo está agora com Lula. A política de segurança pública é o sinal mais claro dessa transformação.
Não por acaso, a mudança rachou a base petista. Uma decisão que reverte 46 anos de posição do partido foi tomada por dois homens, sem nenhuma discussão interna, no meio da campanha. Depois foi imposta aos militantes à força de ataques nas redes, e quem não engoliu foi tratado como inimigo.
Para quem ainda se perguntava por que o PCO não apoia o PT nesta eleição, a resposta está dada. Os dois candidatos defendem a política da burguesia. O PT apenas escolheu o figurino tucano.





