“A vida não se resume em festivais”, disse Geraldo Vandré à plateia que protestava contra o resultado do Festival Internacional da Canção de 1968. A esquerda pequeno-burguesa precisa ouvir algo semelhante: a vida não se resume a eleições. No segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, essa esquerda age como se todo o destino dos trabalhadores dependesse da escolha entre esses dois candidatos.
O Partido da Causa Operária decidiu pelo voto nulo. Bastou isso para que petistas anunciassem o fim do mundo caso Lula perca e apontassem os defensores do voto nulo como cúmplices de Flávio Bolsonaro. Pretendem fazer de uma organização que recusou as duas candidaturas a culpada por uma possível derrota do PT. Quem governou por quatro anos com a direita foi Lula; quem decidiu pelo voto nulo não responde pela política de seu governo.
A esquerda pequeno-burguesa, em especial o PT, criou um vício em eleições. Seus representantes são verdadeiros craqueiros eleitorais: mal termina uma campanha e já começam a pensar na próxima. A cada dois anos, nas eleições gerais e municipais, percorrem bairros, chamam reuniões e pedem o esforço da militância. Passado o pleito, o contato se desfaz e somem da luta cotidiana. O objetivo era eleger-se, eleger os amigos e garantir cargos no aparelho do Estado burguês.
Os trabalhadores não podem interromper sua atividade política entre um pleito e outro. O patrão não espera o calendário eleitoral para demitir, baixar salários ou atacar uma greve. A polícia continua seu extermínio; os bancos seguem saqueando o País; os latifundiários promovem banhos de sangue contra os camponeses. Quando a esquerda abandona a luta cotidiana, deixa os trabalhadores diante desses ataques sem uma organização capaz de responder.
O PT forneceu uma demonstração desse método. Apresentou a frente ampla como instrumento para derrotar a direita e passou a governar com Geraldo Alckmin e o Centrão. Desde que assumiu o governo, deixou as ruas para a direita, enquanto entregava a Alexandre de Moraes o combate ao bolsonarismo, que se tornou um combate contra os direitos democráticos de todo o povo. A direita não desapareceu: Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno apresentando-se como um opositor do regime arbitrário apoiado pelo PT. Agora o PT, que abandonou os trabalhadores, exige o voto dos trabalhadores.
Só carreiristas, burocratas e pessoas manipuladas por eles podem acreditar que a eleição é a coisa mais importante da política. Para quem vive do mandato, da assessoria ou de uma indicação no aparelho de Estado, perder a disputa pode significar perder o emprego e a influência. É uma questão de sobrevivência pessoal para essa camada social de carreiristas. O absurdo é exigir que o operário faça da carreira desses pequeno-burgueses a causa suprema de sua classe.
Eleições têm importância política. Um partido de esquerda pode disputar votos, apresentar candidatos e usar a campanha para divulgar seu programa. O PCO fez isso. Mas a campanha deve servir à organização dos trabalhadores, sem substituir essa tarefa. Quando a disputa de cargos domina toda a atividade partidária, os militantes passam a trabalhar pela carreira parlamentar de seus dirigentes. A campanha acaba, e os problemas pelos quais foram pedir votos continuam.
O regime apresenta as eleições como a “festa da democracia”. O povo escolhe o presidente, o governador e o prefeito, em eleições controladas para que apenas determinados candidatos (os favoritos da burguesia) tenham condições de vencer. Esses serão os patifes que servirão aos capitalistas, utilizando o aparelho estatal para manter e aprofundar o opressão contra o povo. A esquerda que faz da vitória eleitoral sua finalidade adapta o programa às exigências dos mesmos setores que deveria combater.
Para um partido operário e revolucionário, a tarefa principal é travar a luta diária contra a burguesia: participar da luta sindical contra os patrões e a burocracia que impede as greves; reunir moradores contra despejos e chacinas policiais; apoiar os camponeses na luta pela terra. Uma imprensa independente permite fazer agitação e propaganda, discutir as reivindicações dos trabalhadores e formar organizações que mantenham sua atividade fora das campanhas eleitorais.
A decisão do PCO pelo voto nulo no segundo turno expressa a independência política da classe operária. Obviamente, o Partido não chama a votar em Flávio Bolsonaro. Mas também não apresentará a frente ampla como instrumento de libertação dos trabalhadores para atender à exigência eleitoral do PT. O trabalhador não é obrigado a escolher eternamente qual setor da burguesia será responsável por esmagá-lo pelos próximos quatro anos.
Na manhã seguinte à votação, os sindicatos continuarão diante das empresas, os moradores terão de se defender da polícia e os camponeses seguirão enfrentando o latifúndio. Nada disso espera mais dois anos, até que os craqueiros eleitorais reapareçam para pedir votos.





