O quarto mandato de Lula nem começou e já se anuncia como um governo dos banqueiros e da polícia. Apenas dez dias depois da reeleição, o PT negocia com o PL a redução da maioridade penal, a presidente do Santander comemora as garantias oferecidas ao capital financeiro e o governo prepara a criação de um Ministério da Segurança Pública, que poderá ser comandado por um ex-delegado da Polícia Civil.
A negociação entre PT e PL é especialmente esclarecedora. Durante a campanha, o PT apresentou o bolsonarismo como uma ameaça fascista e pediu votos em nome da defesa da democracia. Encerrada a eleição, procura um acordo com o mesmo partido que denunciava para ampliar o encarceramento da juventude.
Segundo o Poder360, o líder do PT no Senado, Camilo Santana, apresentou uma proposta para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos nos crimes hediondos. O PL quer ir mais longe, permitindo a prisão de adolescentes a partir dos 14 anos em determinados casos. Os dois partidos discutem um texto comum para acelerar a votação.
A divergência é sobre quantos adolescentes poderão ser enviados às prisões. No fundamental, PT e PL estão de acordo: é preciso aumentar a população carcerária menor de idade. A medida atingirá sobretudo a juventude pobre, que já sofre com a violência policial e o encarceramento em massa.
Não se trata de uma concessão isolada à direita. Lula pretende criar ainda neste mês um Ministério da Segurança Pública. Entre os nomes cotados para comandá-lo está Alexandre Silveira, atual ministro de Minas e Energia, membro do PSD e ex-delegado-geral da Polícia Civil de Minas Gerais e antigo presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara.
A escolha de Silveira, caso se confirme, colocará um representante do aparelho policial à frente de uma pasta destinada a ampliar a atuação federal na segurança pública. Em vez de combater a violência policial, o governo pretende fortalecer as instituições responsáveis pela repressão da população.
Enquanto isso, os banqueiros não escondem sua satisfação. Ana Botín, presidente do Santander, afirmou que Lula deu “demonstrações importantíssimas de confiança para os mercados”. A principal delas, segundo a executiva, foi a independência do Banco Central.
A declaração mostra o que importa para o capital financeiro: a garantia de que a política monetária continuará fora do controle da população e submetida aos interesses dos bancos. A chamada independência do Banco Central é, na prática, a independência dos banqueiros em relação ao governo eleito.
A satisfação de Botín também desmente a propaganda de que Lula representaria uma ameaça aos interesses da burguesia. Os grandes bancos não precisam combater um governo que lhes oferece garantias e preserva seu domínio sobre a economia.
É esse o resultado da campanha do chamado mal menor. Os trabalhadores foram convocados a votar no PT para impedir a vitória da direita, mas, terminada a eleição, o próprio PT procura essa direita para aplicar seu programa.
O problema não é a falta de firmeza de Lula diante do PL ou dos banqueiros. É a política do próprio governo, que procura conciliar os interesses da burguesia com o apoio eleitoral dos trabalhadores. Contra essa política, é necessária a mobilização independente da classe operária em defesa de seus direitos democráticos e econômicos.





