Cerca de 800 mil pessoas participaram das manifestações deste sábado (17) na França contra a carestia e o governo de Emmanuel Macron, conforme o balanço das organizações da mobilização, entre elas a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a União Estudantil. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou 550 mil participantes em 110 passeatas, sendo 110 mil em Paris. Os números ainda eram provisórios.
Secundaristas e universitários, em luta desde o fim de setembro, foram às ruas ao lado de participantes dos Coletes Amarelos, agricultores e militantes ambientalistas. Os protestos uniram as reivindicações da juventude contra a destruição do ensino público à luta contra o encarecimento das condições de vida.
A revolta estudantil começou com bloqueios na entrada de centenas de liceus. Os alunos denunciam prédios deteriorados, falta de professores e instalações inadequadas. Exigem mais recursos e mudanças no sistema educacional. O governo, por sua vez, prepara dezenas de bilhões de euros em cortes, enquanto os deputados começam a examinar o orçamento de 2027.
Em Saint-Étienne, uma granada policial arrancou a mão de um manifestante. Nuñez confirmou a mutilação e anunciou uma investigação. No começo do mês, o governo suspendeu o uso de granadas atordoantes em atos estudantis depois que um adolescente de 15 anos perdeu a mão. A medida não impediu que a polícia voltasse a mutilar um jovem.
A repressão das últimas semanas também deixou um estudante sem um olho em Argenteuil e outro com a mandíbula destroçada em Saint-Ouen-l’Aumône. A polícia emprega contra a juventude os mesmos métodos usados para reprimir os Coletes Amarelos em 2018 e 2019.
Prisões e ameaças
Nuñez anunciou cerca de 400 detenções no país, em um balanço ainda provisório. Em Paris, a chefatura de polícia já contabilizava 133 detidos às 14 horas, a maioria sob a acusação de integrar um agrupamento destinado a cometer violência ou depredação.
Na capital, grupos deixaram o percurso autorizado e seguiram para a avenida Champs-Élysées. Manifestantes enfrentaram a polícia nas proximidades da Praça da República e invadiram a sede da prefeitura do 10º distrito. Em Marselha, a porta da prefeitura foi arrombada com barreiras de segurança. Em Lyon, o escritório de turismo foi incendiado.
Macron ameaçou processar e punir os envolvidos em ataques a prédios públicos e estabelecimentos comerciais. Nuñez denunciou “cenas de saque” e afirmou que as forças policiais permaneceriam mobilizadas pelo tempo necessário. Destacou ainda que a maioria dos detidos era adulta, procurando dissociar os confrontos da revolta secundarista.
O prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire, afirmou que o movimento estudantil “foi feito refém”. A declaração serve para desqualificar os protestos e encobrir a responsabilidade do governo pela violência policial, que já deixou centenas de feridos.
Na quinta-feira (15), o primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou um balanço de 248 estudantes e 149 profissionais da educação feridos desde o início da mobilização. O governo também contabilizou 937 policiais e integrantes da Gendarmaria feridos no período.
Greves em novembro
A participação dos estudantes na jornada deste sábado foi convocada por organizações da juventude e recebeu o apoio da CGT. A central também chamou trabalhadores dos setores público e privado para uma jornada nacional de greves e manifestações em 5 de novembro, contra os projetos de orçamento do Estado e da Seguridade Social.
A CGT denuncia que o governo pretende impor novos sacrifícios à população enquanto mantém benefícios às grandes empresas. Reivindica aumentos de salários, aposentadorias e benefícios sociais vinculados aos preços, além de contratações e investimentos em hospitais, escolas, transportes e creches.
O chamado inclui a luta contra o fechamento de fábricas e as demissões em empresas beneficiadas por recursos públicos. A central exige que esse dinheiro seja empregado na manutenção e na criação de empregos.





