Die Linke

Alemanha: uma esquerda a serviço do Mossad

Die Linke apoia combater o BDS, reforçar a polícia contra a causa palestina e impõe a seus parlamentares a defesa do Estado de “Israel”

O Die Linke venceu a eleição em Berlim com a promessa de enfrentar a especulação imobiliária. Antes de negociar como governar a cidade, sua direção aceitou outra tarefa: defender o “direito de existir” de “Israel”, voltar-se contra o boicote ao Estado sionista e ajudar a ampliar a atuação da polícia e da inteligência sob a bandeira do combate ao “antissemitismo”.

O compromisso foi assinado com o Partido Social-Democrata (SPD) e os Verdes em 8/10, como condição para iniciar as conversas sobre uma coalizão. Esses partidos são apresentados como um bloco de esquerda na Alemanha. Nenhum governo foi formado até agora.

O caráter dessa exigência ficou exposto na terça-feira (13/10). A bancada do Die Linke recebeu a deputada Vanessa Emde, eleita pelo distrito de Neukölln, apesar das pressões de seus possíveis aliados. Durante a campanha, Emde afirmara que o direito de existir pertence às pessoas, e não aos Estados. Bastou a parlamentar manter essa posição para SPD e Verdes suspenderem as negociações. Na quarta-feira, os três partidos chegaram a um novo entendimento: a declaração de 8/10 deverá integrar o acordo de governo caso a coalizão seja formada. As conversas foram retomadas em 15/10. A direção do Die Linke recebeu uma demonstração de quem pretende determinar os limites da sua atuação.

O vencedor da eleição de 20/9 obteve 25,7% dos votos. A União Democrata-Cristã (CDU) ficou com 18,8%; a Alternativa para a Alemanha (AfD), com 16,3%; os Verdes, com 14,3%; e o SPD, com 12,1%. Elif Eralp, candidata do Die Linke a chefiar o governo de Berlim, depende da adesão dos dois últimos partidos para reunir maioria parlamentar. A disputa pelos cargos começou, portanto, com uma prova política imposta ao primeiro colocado: aceitar as exigências dos derrotados sobre a Palestina.

A campanha do Die Linke dera destaque aos aluguéis e ao plebiscito de 2021, quando os berlinenses aprovaram a transferência ao poder público dos imóveis das maiores empresas proprietárias da cidade. A medida nunca foi executada. O partido pediu votos para realizá-la; seus dirigentes passaram os primeiros dias de negociação discutindo que tipo de crítica a “Israel” seria tolerada num futuro governo. A direção do SPD, que perdeu votos e terminou em quinto lugar, ganhou assim a possibilidade de ditar condições políticas ao partido mais votado.

O primeiro instrumento de disciplina atinge diretamente os eleitos. Deputados, dirigentes e eventuais integrantes do governo deverão sustentar o “direito de existir” de “Israel”. Isso significa apoiar a ocupação da Palestina histórica por uma entidade artificialmente criada pelo imperialismo britânico e americano. Acusações de descumprimento dos compromissos assinados com o sionismo poderão levar a sanções, inclusive à expulsão da bancada ou do partido. Um representante parlamentar de qualquer um dos três aliados poderá pedir que um grupo de especialistas examine um episódio. A bancada atingida conservará a decisão formal, mas deverá prestar contas às demais. Antes de constituírem um governo, SPD e Verdes já conquistaram um instrumento para cobrar punições dentro do Die Linke.

A declaração ocupa três páginas. “Israel” tem seu alegado direito de existir proclamado como inegociável. Para os palestinos, aparece uma promessa de autodeterminação condicionada à chamada solução de dois Estados e à segurança israelense. A Palestina não recebe garantia equivalente à oferecida ao Estado que a ocupa. Também não se encontra no texto o nome do responsável pela devastação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia: há uma referência ao sofrimento e à destruição suportados pelos civis palestinos, sem uma acusação direta ao governo israelense, que pratica um genocídio em Gaza.

A operação de 7/10/2023, conduzida pelo Hamas e por outras organizações da resistência, recebe condenação expressa. Os crimes praticados por “Israel” são reduzidos a possíveis violações do direito internacional e dos direitos humanos. A palavra genocídio está ausente. Isso ocorre embora a direção nacional do próprio Die Linke tenha usado o termo para descrever a ofensiva israelense contra Gaza em junho. O papel destinado a servir de base a um governo na capital alemã recuou em relação ao que o partido já havia dito publicamente. Afinal de contas, a esquerda carreirista é assim no mundo todo: para conquistar cargos, abandona qualquer princípio.

O acordo admite a possibilidade de críticas “justas” a ações do governo de “Israel”, mas logo acrescenta que elas não justificam atitudes “antissemitas”. Ninguém precisa justificar agressões a judeus para denunciar a colonização da Palestina. A questão está em outro lugar: uma liberdade extremamente limitada para tecer críticas ao governo é concedida ao mesmo tempo que o fundamento político do Estado sionista se torna intocável para os dirigentes e parlamentares da coalizão. É essa fronteira que SPD e Verdes exigiram que o Die Linke aceitasse. Na verdade, é a tentativa de calar qualquer crítica ao regime terrorista de “Israel” e de perseguir os ativistas pró-Palestina.

O texto passa da política externa às ruas de Berlim. Sob o capítulo dedicado à vida judaica, considera inaceitável que bares, clubes e outros locais exibam palavras de ordem como “Sionistas não são bem-vindos”. Defender que judeus possam viver e circular sem perseguição é uma obrigação. O sionismo, porém, é uma posição política, e não uma religião ou a identidade de todos os judeus. Há judeus organizados contra a ocupação israelense e há defensores não judeus do Estado sionista. Ao pôr a rejeição ao sionismo entre as condutas que o governo deve combater, o documento apaga essa distinção em benefício de “Israel”. É a velha cartilha do Mossad: comparar antissionismo com antissemitismo para blindar os criminosos assassinos de criancinhas.

A proteção se estende às relações institucionais. Os partidos prometem manter a cooperação entre universidades de Berlim e instituições de pesquisa israelenses, que fornecem funcionários e projetos para a máquina de guerra sionista. Essa escolha foi assinada também pelo partido que pede votos como alternativa de esquerda à velha política alemã.

O mesmo vale para o Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), movimento iniciado por organizações palestinas para pressionar “Israel”. A declaração rejeita apelos gerais ao boicote e sanções que chama de indiferenciadas, mencionando expressamente a campanha. Não cria, por si só, uma proibição legal a todo boicote. Estabelece, entretanto, que a futura coalizão se colocará contra um instrumento internacional de luta dos palestinos. O Die Linke aceita essa restrição ao mesmo tempo que se compromete a preservar convênios com instituições israelenses.

Há uma força material por trás das palavras. Polícia e Verfassungsschutz, o serviço de inteligência interno, deverão receber mais recursos e formação para identificar ameaças classificadas como antissemitas. O documento promete ampliar registros e canais de denúncia e exige que universidades usem seus poderes para controlar atividades nos campi. O mesmo Estado que chama símbolos palestinos de sinais de “extremismo” ganhará novos meios de vigiar seus adversários políticos a serviço do Mossad.

Poucos meses atrás, a inteligência federal alemã passara a mencionar a melancia — usada por reunir as cores da bandeira palestina —, o personagem Handala e palavras de ordem pela Palestina num relatório sobre “extremismo pró-palestino”. Já em Berlim, depois de 7/10, a polícia reprimiu manifestações em Neukölln, bairro com grande população árabe e turca. SPD, Verdes e Die Linke conhecem a atuação desses órgãos. Mesmo assim, prometeram fortalecê-los sem retirar do Estado a arma política de confundir antissionismo e antissemitismo.

O acordo ainda preserva a base do plano berlinense de prevenção ao antissemitismo como orientação para a administração, ressalvando que deverá ser aplicada de acordo com os direitos fundamentais e cada situação. Também prevê aprofundar a parceria de Berlim com Telavive. Em sentido oposto, determina que os deputados da possível maioria evitem discutir assuntos externos sem relação direta com a cidade, porque política externa seria atribuição do governo federal. “Israel” recebe um tratamento diferenciado do restante do mundo. A defesa de “Israel”, para essa esquerda, é prioridade.

Os negociadores acrescentaram ao pacote outra declaração, desta vez sobre criminalidade organizada. Nela, exigem que dirigentes e parlamentares mantenham distância de pessoas apontadas como integrantes desse meio, novamente com possibilidade de expulsão. Sua assinatura junto com o documento sobre “antissemitismo” indica que os partidos da esquerda alemã tratam os defensores da causa palestina como criminosos.

A CDU procura empurrar esse teste ainda mais à direita. Em reportagem de 8/10, o jornal Die Welt apresentou a declaração pela ótica dos conservadores, que a consideraram insuficiente. Stefan Evers, dirigente da CDU em Berlim, chamou-a de “folha de figueira”; Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus, cobrou punições contra integrantes do Die Linke. Alexander Hoffmann, da CSU, reuniu numa só investida acusações de antissemitismo, hostilidade à polícia e proximidade com clãs criminosos. A campanha conservadora associa as duas exigências feitas nas negociações e quer que SPD e Verdes obriguem a esquerda a ir mais longe em sua capitulação vergonhosa.

Nem todos no Die Linke aceitaram a capitulação. Cerca de 120 integrantes e dirigentes protestaram contra o acordo e denunciaram mecanismos de disciplina impostos de fora para dentro do partido. Wieland Hoban, da organização Voz Judaica por uma Paz Justa no Oriente Médio, afirmou ao Middle East Eye que a acusação de antissemitismo se tornou uma arma para desacreditar políticos de esquerda críticos de “Israel”. A existência de opositores judeus ao sionismo expõe a fraude de apresentar toda resistência ao Estado israelense como perseguição religiosa.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.