Os estudantes franceses voltaram às ruas para exigir o fim do Parcoursup, sistema de seleção para o ensino superior. A reivindicação se espalhou com os bloqueios de escolas e universidades. Entidades estudantis e sindicatos de professores defendem também o ingresso no curso e na instituição pública escolhidos pelo jovem que concluiu o ensino secundário.
A revolta começou em setembro nos bairros operários próximos de Paris. A falta de professores, as classes lotadas e os prédios deteriorados levaram os alunos a fechar liceus. Eles exigem 10 bilhões de euros para as escolas. O governo anunciou que mobilizaria 3.024 professores substitutos; o Sindicato Nacional Força Operária dos Liceus e Colégios (SNFOLC) denunciou que os docentes seriam deslocados para cobrir faltas fora de suas áreas. A repressão deixou adolescentes gravemente feridos.
O Parcoursup recebe as candidaturas depois do baccalauréat, diploma de conclusão do ensino secundário francês. Os estudantes indicam os cursos desejados, mas isso não assegura a matrícula. As instituições classificam os candidatos e comunicam as respostas pela plataforma. Mesmo as graduações apresentadas oficialmente como “não seletivas” ficam sujeitas ao limite de vagas. Quando há mais interessados do que lugares, os estabelecimentos ordenam os pedidos e chamam os jovens segundo essa classificação.
O próprio sítio oficial do Parcoursup informa que as comissões recebem boletins escolares, notas do baccalauréat, avaliações feitas pelo liceu e, em certos cursos, cartas de motivação. Em formações seletivas, podem ser exigidas ainda provas escritas ou orais. O governo chama esse procedimento de orientação. Para quem não consegue ingressar na área escolhida, pouco importa se a exclusão veio de uma prova ou da análise do dossiê. Substituir a plataforma sem abrir vagas apenas daria outro nome à mesma barreira.
A União Nacional dos Estudantes da França (UNEF) propõe acabar com a seleção. Num documento publicado em 2022 sobre a capacidade das instituições de receber novos alunos, a entidade defende ensino superior público, gratuito e de livre acesso. O baccalauréat deve ser o único requisito para ingressar na graduação; a licence, diploma do primeiro ciclo universitário, o único para entrar no mestrado. Os estudantes devem poder escolher o curso e a cidade onde estudarão.
O documento exige recursos para que as universidades recebam esses estudantes. A UNEF contesta a ideia de que a raridade de um diploma seja prova de qualidade: o valor da formação depende do ensino oferecido e das condições para que os alunos concluam o curso. Defender o livre ingresso significa ampliar a universidade, não amontoar novos estudantes em salas que já não comportam os matriculados.
Em agosto, a Solidaires Étudiant-e-s contou 163.372 candidatos que chegaram ao fim da fase principal do Parcoursup sem receber proposta de admissão. Segundo o sindicato, 126.652 ainda aguardavam uma vaga; outros 36.720 haviam deixado a plataforma sem receber oferta. A entidade exige a revogação imediata do sistema e de toda seleção para o ensino superior público. Pede vagas em todos os cursos e regiões, contratação de funcionários, financiamento permanente e ensino gratuito. Quem deseja continuar os estudos deve ter lugar na formação pública de sua escolha.
O dinheiro da família pesa nessa disputa. Quem pode pagar uma escola privada ou uma mudança de cidade encontra uma saída que falta ao jovem pobre. Por isso a Solidaires também defende uma remuneração estudantil: conseguir a matrícula pouco adiantará a quem for obrigado a abandonar as aulas para trabalhar. A entidade exige que as vagas sejam criadas onde os estudantes precisam delas, em vez de obrigá-los a aceitar qualquer curso que ainda tenha lugar disponível.
Em moção aprovada em 11 e 12 de junho, o SNFOLC pediu a revogação do Parcoursup, do Mon Master — plataforma de candidaturas ao mestrado — e da lei que instituiu a seleção na entrada da universidade. Exigiu a abertura maciça de vagas e a inscrição imediata de cada estudante na formação escolhida. O baccalauréat, sustenta o sindicato, deve garantir o direito à matrícula no curso e na universidade desejados. A Federação Nacional do Ensino, Cultura e Formação Profissional da Força Operária (FNEC FP-FO) levou as mesmas reivindicações a atos com estudantes e professores.
A moção denuncia o destino oferecido aos jovens barrados do ensino público: cursos pagos ou o abandono dos estudos. Foi para exigir vagas e professores que a federação convocou atos diante dos órgãos de ensino em 24 de junho. Em setembro, voltou a cobrar a inscrição de cada estudante no curso escolhido. A defesa do acesso livre já estava organizada antes dos bloqueios de outubro.
Essas entidades participam da mobilização atual. Em 9 de outubro, a seção da Solidaires na universidade de Assas participou do bloqueio e denunciou a investida policial contra mais de cem estudantes. O SNFOLC convocou os professores para a greve de terça-feira (13). Na véspera, rejeitou a proposta de preservar o Parcoursup com mais “transparência” e reafirmou a exigência de revogá-lo.
No Brasil, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os vestibulares fazem o mesmo serviço. O aluno que passou anos numa escola sem recursos compete com quem pôde pagar escola particular e preparação para as provas. Quando perde, dizem-lhe que faltou mérito. A seleção poupa os governos de abrir universidades e contratar os professores necessários. Trocar critérios de classificação não dá ao trabalhador o direito de estudar na área que escolheu.
É preciso extinguir o Enem e os vestibulares, garantindo assim o ingresso de todos os que concluírem o ensino médio. Isso exige abrir universidades, ampliar cursos, contratar professores e funcionários e assegurar alimentação, moradia, transporte, creches e bolsas. Repartir as poucas vagas existentes entre diferentes grupos conserva o vestibular e deixa a maioria do lado de fora, o que é uma política absolutamente antidemocrática e favorece o domínio dos capitalistas sobre todo o povo.
As entidades estudantis e os sindicatos de professores da França deverão se reunir na quinta-feira (15) com os ministros da Educação e do Ensino Superior. Para sábado (17), há nova convocação às ruas, junto aos trabalhadores mobilizados contra a alta do custo de vida.





