Marcelo Marcelino

Membro Auditoria Cidadã da Dívida Pública (ACD) nacional, sociólogo, economista e cientista político, pesquisador do Núcleo de Estudos Paranaenses – análise sociológica das famílias históricas da classe dominante do Brasil e membro do Partido da Causa Operária – Curitiba.

Coluna

Breve apresentação da economia política do necroimperialismo

"A crise atual forçou uma ruptura e ao mesmo tempo intensificou o problema de forma violenta ao colocar a população na maioria do planeta numa condição de enorme fragilização"

Imperialismo e seus lacaios

No capitalismo ultraliberal onde o Estado está capturado pela classe dominante e em consonância com as corporações transnacionais totalitárias a imposição de doutrinas e estratégias de ações de ampla reprodução do capital a vida dos cidadãos está permanentemente ameaçada. A frase que remete uma reflexão me parece adequada na atual conjuntura: “O Covid 19 não escolhe classes sociais”; entretanto, precisa ser ajustada de maneira mais contundente contra os trabalhadores e os povos oprimidos do mundo. 

Nesse momento os mais ameaçados são o grande número de desvalidos, trabalhadores precarizados e todos aqueles não citados que por alguma razão estão excluídos de mínimos sistemas de proteção sociais. E o fim da pandemia da Covid-19 não melhorou; como era de se esperar a vida nas sociedades capitalistas; principalmente nos países mais atrasados e dependentes coercitivamente pelo imperialismo. Em relação a essa reflexão cabe a passagem do sociólogo estadunidense Mike Davis, que; apesar do contexto histórico ser diferente, chama a atenção para a similaridade do caso atual em questão; mesmo em tempos de pós pandemia.

Segundo Davis (2005; p. 42):

Na mais sofisticada análise da mortalidade pandêmica feita até agora – um estudo de caso do vírus de 1918 em Sidney -, Kevin Cracken e Peter Curson revelaram que ”a classe trabalhadora e os operários de fabrica tiveram as taxas de mortalidade mais pesadas”, particularmente nos centros pobres das cidades, e que o desemprego previa tão bem a mortalidade quanto os fatores epidemiológicos mais convencionais, como a densidade de habitantes por quilômetro quadrado. 

Mais de um século depois estamos de joelhos enfrentando problemas de pandemia que perpassam as condições de saúde e que batem novamente na porta da desigualdade econômica e social produzida e exacerbada pelo capitalismo ultraliberal em 2024.

A pandemia universal do Covid-19 impulsionou o debate secular acerca das ideias econômicas e evidentemente das estratégias de organização do sistema capitalista mundial e do próprio sistema político e social macroestruturante onde o Imperialismo capitaneado pelos EUA tem a sua hegemonia contestada.

O século XX marca a ascensão do capitalismo monopolista de Estado e as disputas pela hegemonia no Imperialismo. A primeira grande guerra, a construção do modelo stalinista capitaneado pela então União Soviética e a crise do capitalismo liberal demarcam uma fronteira de espaços complexos de luta e processos imbricados de dominação em uma nova fase geopolítica universal.

A economia política do neoliberalismo passa a vigorar com uma força extraordinária e a organização da globalização econômica e financeira internacional passa a exercer uma economia de destruição internacional com maior força a partir da década de 1990

A plataforma ideológica de poder no projeto de globalização concentrada nos oligopólios transnacionais com forte penetração da financeirização corresponde à versão mais intensa do liberalismo clássico, também denominado neoliberalismo.

Reconfigurado na década de 1970 na esteira da derrocada do esgotamento fordista keynesiano, na trava do seu ciclo de avanço reprodutivo o neoliberalismo navegou favoravelmente com o final do padrão ouro de Bretton Woods, com os choques do petróleo de 1973 e 79, mas também com os avanços das tecnologias nas áreas da informatização e das telecomunicações. 

O rearranjo não apenas do avanço das tecnologias e do progresso técnico, mas das políticas de liberalização e desregulamentação dos mercados, em particular do mercado financeiro permitiram que os ganhos de acumulação se deslocassem para outros segmentos da economia e fragilizassem ainda mais as organizações laborais.

Da década de 1980 em diante o neoliberalismo se tornou o maior vírus que enfrentamos no sentido do avanço da macroestrutura da exploração capitalista na forma de tecnologias avançadas, Estado mínimo a serviço da dominação imperialista do “Consenso de Washington” e financeirização global atingem um contingente colossal da população universal de forma predatória. 

De acordo com Herbert Marcuse “As contradições clássicas do capitalismo, particularmente a contradição geral entre o inaudito desenvolvimento das forças produtivas e da riqueza social, por um lado, e sua utilização destrutiva e repressiva, pelo outro, são hoje mais fortes do que em qualquer época do passado”.

Nessa obra do mestre Marcuse “O Fim da Utopia” (1969, p. 25) o autor analisava o capitalismo ainda numa ordem global distinta do atual momento, entretanto, conseguiu capturar a essência da lógica do capitalismo monopolista avançado.  

O capitalismo no seu estágio atual em tempos de pós-pandemia expôs de forma mais nítida a sua natureza e organicidade perversa em níveis de exploração das forças produtivas e da produção de uma legião de excluídos no sistema social e político de representação. A crise provocada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia e os massacres de Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza revelam a exacerbação da crise do imperialismo capitaneado pelos EUA. 

Com a intensificação da crise pós-pandêmica universal e os conflitos no leste asiático e no oeste da Ásia o neoliberalismo apresenta ao mundo a sua face mais totalitária e ultrajante onde as coerções institucionais e o viés brutal da dominação do aparato megaempresarial em associação com os aparelhos de violência estatais são cada vez mais percebidos na prática diante da emergência da vida.

Na raiz da questão Marcuse chama a atenção para a profundidade do pensamento de Marx ao desenvolver a construção do capitalismo como um processo histórico materialista e dialético onde as contradições apontadas por Marcuse formam a base de sua teoria e de toda uma escola do pensamento econômico a partir de Marx. Geralmente as condições impostas pelas corporações e pelo Estado dirigente caminham na direção da acumulação e reprodução ampliada do capital onde o processo de dominação necessita atuar incessantemente.

Segundo Chomsky “Os Estados, e claro, tem estruturas internas complexas, e as escolhas e decisões das lideranças políticas são influenciadas pelas concentrações internas de poder, ao passo que a população em geral e quase sempre marginalizada. Isso e verdadeiro até mesmo quando se aplica as sociedades mais democráticas, e obviamente as outras (2017, p. 297)

Os EUA representam a face mais nítida dessa discussão, onde países ricos e hegemônicos colocam a sua população reféns das políticas básicas de saúde e assistência social. O capitalismo ultraliberal com suas próprias contradições viscerais colocou em xeque a continuidade do processo de acumulação e reprodução do capital, além do poder de controle da burguesia em um sentido mais amplo, isto e, mesmo com a intervenção estatal com seu aparato de segurança e seguridade acionados; já que são insuficientes. 

A discussão sobre o sistema capitalista sob a gerência dos mecanismos neoliberais hegemônicos atua na comparação com o aparato de natureza distinta capitaneado pelo modelo antagonista chinês, onde a simbiose entre formas capitalistas tradicionais combinam mecanismos que correspondem à organização intervencionista de origem soviético- keynesiana e o planejamento estratégico projetacionista, tendo como precursor o modelo soviético pós segunda guerra com os projetos de expansão aero espaciais no acirramento da guerra fria, já entre o final da década de 1950 e início de 60. Entretanto, o Estado burocrático soviético ruiu no interior das suas próprias contradições e extrapolaram suas vísceras.

A Economia Política da crise fabricada pelo capitalismo na sua gênese e acelerada pelos mecanismos do avanço tecnológico combinado com as políticas de desmanche dos serviços públicos com entrega do patrimônio estatal e com volume de recursos naturais a serviço do imperialismo moldaram a estrutura do neoliberalismo, e que no momento atual se transformou no ultraliberalismo da necropolítica. 

A crise atual forçou uma ruptura e ao mesmo tempo intensificou o problema de forma violenta ao colocar a população na maioria do planeta numa condição de enorme fragilização, seja pelas escassas condições de lidar com os problemas de saúde e ainda pelas mazelas sociais que produziu essa Pandemia e seus conflitos político-militares pós Covid.

A pandemia foi agravada amplamente pelas políticas neoliberais de ajuste fiscal impostas pelo mercado financeiro em grande medida, onde os desvios dos recursos orçamentários ocorrem através do pagamento de juros exorbitantes aos rentistas bilionários de todo o globo. As dívidas públicas dos países do terceiro mundo foram ampliadas para o quintal dos países desenvolvidos também ao longo do processo de expansão da predominância do capitalismo financeiro sobre o setor real da economia a partir da década de 1970 como havíamos mencionado e alcançou seu ápice nesse atual estágio de desenvolvimento do capitalismo ultraliberal.

A alternativa colocada pelo Estado chinês de desenvolvimento combinando keynesianismo com a economia do projetamento numa simbiose que aponta no que denominamos de socialismo de mercado” é uma grande discussão que senta à mesa da reflexão filosófica, onde a economia política certamente está inserida  

Para avançarmos na discussão que envolve a filosofia da economia política se faz necessário e urgente que possamos aprofundar ainda mais esse debate e olhar as tragédias do mundo como resultado proposital ou não dá interação entre os homens e com a própria natureza, sem perder de vista os processos macroestruturantes de dominação. Os autores citados acima não são marxistas na sua essência, mas já expuseram com suas contribuições a forma como o imperialismo é brutal e feroz contra os povos oprimidos e esse necroimperialismo é ainda mais nefasto para os marxistas e precisa ser interditado e ultrapassado pela ótica do marxismo revolucionário diante de uma luta ainda mais intensa que se avizinha.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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