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Falência

O histórico da crise no Reino Unido e a falência do regime inglês

Uma recapitulação da falência do regime inglês desde o Brexit


O Reino Unido é um dos países mais afetados pela crise nos últimos tempos, com o recorde de três diferentes primeiros-ministros terem assumido o cargo apenas em 2022. Além disso, o país perdeu sua longeva rainha em meados de setembro.

Os últimos quatro primeiros-ministros pertenciam ao Partido Conservador do Reino Unido, e todos eles renunciaram. David Cameron, em 2016; Theresa May, em 2019; Boris Johnson, em 2022; e Liz Truss, também em 2022, sendo a primeira-ministra a ficar menos tempo no cargo: 46 dias.

A carne nova no mercado é Rishi Sunak. Descendente de indianos, o mais novo líder do Reino Unido — que, pelo menos até o término desta edição, ainda não renunciou ao cargo — possui a fama de deter mais riquezas do que a própria família real. O premiê britânico construiu sua carreira no Partido Conservador sob a liderança de Theresa May, acompanhando de perto todos os governos desde então.

Brexit

Um dos indícios iniciais da crise estrondosa no Reino Unido foi o imbróglio da saída do país da União Europeia.

Em 2016, os britânicos votaram em maioria pelo Brexit — este foi o mesmo ano da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, um sinal de que o regime imperialista já estava em franca decadência de maneira geral, com a força do movimento separatista na Europa, o ganho de força do fascismo nos EUA e diversos outros acontecimentos, como o golpe no Brasil. 

A União Europeia tomou um duro golpe com a saída de um dos três países mais importantes do continente do bloco. O Brexit foi o ponto central da crise britânica até a saída se tornar oficial, em janeiro de 2020. O governo do período do referendo, presidido pelo conservador David Cameron, caiu devido à vitória do Brexit. Foi substituído, então, pelo governo de Theresa May.

Os conservadores ainda conseguiram a vitória em 2017, subindo mais uma vez à cabeça do regime apesar da renúncia de Cameron. Mas May, sua sucessora, acabou renunciando em maio de 2019 após várias tentativas de negociação do Brexit, que foram derrotadas. 

Nesse meio tempo se fortalecia o candidato do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. Em um determinado momento, Corbyn era o preferido para vencer as eleições gerais. Sua posição, ligada diretamente aos sindicatos, era a posição tradicional da esquerda inglesa contra a ditadura dos bancos europeus que controlam a União Europeia, uma organização controlada pelo imperialismo e, portanto, inimiga da classe operária inglesa e de toda a Europa. Contudo, a pressão da burguesia sobre o partido foi muito grande e Corbyn voltou atrás em sua postura sobre o Brexit, dando assim a vitória para Johnson nas eleições de 2019. A capitulação de Corbyn foi a principal razão de sua derrota, que levou a um refluxo na tendência imediata de mobilização dos trabalhadores e representou um duro golpe contra a ala esquerda dos trabalhistas.

Foi então que assumiu Boris Johnson, pertencente a um setor mais abertamente pró-Brexit do Partido Conservador. Após as eleições de 2020, Johnson seguiu como primeiro-ministro e o Brexit de fato aconteceu em alguns meses.

Contudo, no Partido Trabalhista, a derrota da ala esquerda devido à capitulação abriu caminho para um golpe da ala direita do partido. Jeremy Corbyn foi retirado da liderança da organização e perseguido, suspenso do partido em outubro de 2020. Com essa perseguição também foram pegas figuras menos importantes da ala esquerda — com essa guinada à direita dos trabalhistas, sua popularidade diminuiu ainda mais e o partido deixou definitivamente de ser uma alternativa real para os trabalhadores.

Sequência de crises

O Brexit foi seguido por mais duas grandes crises que abalaram o Reino Unido: a pandemia e a Guerra na Ucrânia. Boris Johnson, não aguentando toda a situação que tudo isso estava causando no país, acabou renunciando.

A pandemia da Covid-19 também foi fundamental para a radicalização da população. Os governos europeus, numa suposta tentativa de tentar conter a doença, implementaram uma série de medidas de segregação para quem não se vacinasse, com alguns países inclusive autorizando a justificativa de demissão para este motivo. Isso fez com que a população se insurgisse contra os governos, realizando grandes manifestações tachadas como pertencentes à extrema-direita apenas por contestarem a real eficácia da vacina, que não havia sido testada e apresentava um risco para as pessoas, pois tanto os efeitos colaterais quanto em quais pessoas ela poderia levar a morte eram motivos desconhecidos.

A crise com a questão das vacinas e das manifestações acabou ficando ainda pior para o governo com os escândalos de Boris Johnson, que teria promovido festas no pico da pandemia, contrariando as próprias recomendações do governo. Esse foi, inclusive, um dos principais motivos que a imprensa burguesa apresentou para sua renúncia, escondendo completamente toda a crise causada pela própria pandemia e sobretudo pelo conflito na Ucrânia ─ com a intervenção russa em defesa dos povos do Donbass em fevereiro de 2022 representando um fator fundamental de desestabilização dos regimes europeus.

Após Boris Johnson, veio Liz Truss, a mulher que se propôs a ser uma segunda Margaret Tatcher, ou seja, uma espécie de Dama de Ferro 2.0, que aplica as políticas neoliberais não importando o quanto isso afete o povo. A primeira-ministra, no final das contas, não estava nem um pouco preparada para o problema jogado em suas mãos, considerando ainda que mais uma crise se abriu poucos dias após sua posse: a morte da rainha Elizabeth II. Com apenas 46 dias de mandato, Liz Truss renunciou ao cargo, sem ter conseguido cumprir nenhuma de suas promessas e adicionando mais um fator de crise na pilha que já assolava tanto a burguesia britânica quanto o próprio Partido Conservador. De fato, ela não atendeu minimamente às expectativas dos grandes capitalistas, pois no tempo em que ficou à frente do governo apresentou uma tendência contrária àquela neoliberal que o imperialismo esperava. Foi chutada para fora do governo pela burguesia.

O desafiado da vez para enfrentar a crise seria bem diferente: Rishi Sunak, descendente de indianos, foi o ministro das finanças do governo Boris Johnson e havia perdido as eleições que decidiriam o substituto de Boris Johnson ─ vencidas por Truss ─, apesar de ter chegado bem perto da vitória. Sunak é um bilionário, ex-banqueiro, parlamentar mais rico do país, com uma riqueza maior do que a da própria família real britânica. Ao que parece, a burguesia inglesa, para tentar manter o Partido Conservador frente à sua crise estrondosa dos últimos anos, decidiu escolher um neoliberal com feições esquerdistas (por ser parte de uma “minoria oprimida”, os imigrantes) para presidir o país e cuidar do problema.

Enquanto a crise nos partidos políticos que controlam o regime cresce, também ganham força dois movimentos importantíssimos no país. O primeiro são os movimentos de independência da Irlanda do Norte e da Escócia, os quais possuem partidos que se fortalecem se colocando contra o governo central. Com a morte da rainha, os movimentos se intensificaram tanto pela independência, quanto pelo fim da monarquia, com manifestações periódicas exigindo essas medidas que já fazem parte de uma luta histórica para os países citados.

O segundo movimento representa um perigo assustadoramente grande para a burguesia: o movimento da classe operária. A Inglaterra, mesmo saindo da União Europeia, ainda faz parte do mesmo regime político imperialista que governa todo o continente, e, portanto, sofre das mesmas crises que os alemães e franceses. Nos últimos meses, greves e mobilizações atingem o país semanalmente, de diversos setores, protestando contra as condições de trabalho, os baixos salários e a falta de reajustes frente à inflação histórica. Ferroviários, trabalhadores da saúde e das universidades, portuários dentre outros estão se organizando para uma greve geral no inverno, a qual, se for realizada, promete sacudir não só o país, mas todo o continente.

Entre as diversas causas citadas, pode-se dizer que a principal é a Guerra na Ucrânia. As sanções impostas pelo imperialismo à Rússia fizeram com que o país cortasse o seu fornecimento de gás à Europa, jogando o continente numa crise intensa. Sem sua principal fonte de energia elétrica, a inflação foi às alturas e diversas medidas relacionadas ao racionamento de energia elétrica foram tomadas. Isso fica visível pelo gráfico abaixo, que mostra a inflação de determinados setores na Zona do Euro — a qual o Reino Unido não faz parte, mas, mesmo assim, estava em uma situação parecida.

Em setembro, a inflação britânica alcançou os 10,1%, a maior nas últimas quatro décadas, conforme o seu Escritório Nacional de Estatísticas (NOS). Segundo o portal da biblioteca da Câmara dos Comuns, entre agosto de 2021 e 2022 o preço do gás doméstico aumentou 96% e os preços da eletricidade doméstica, 54%. Em 2021, mais de 40% da produção de eletricidade vieram de usinas movidas a gás, sendo que cerca de 80% das casas britânicas são aquecidas por este combustível — fica evidente a crise aberta com a falta do recurso do principal fornecedor do continente.

A crise também fica evidente no setor alimentício: no início de setembro, a Instituição de caridade Resolution Foundation previu um aumento de mais de 3 milhões de pessoas vivendo em níveis de pobreza. Os aproximadamente 2.500 bancos de alimentos, abastecidos por meio de doações, também têm atendido mais de cem famílias por dia.

Outro dado interessante é que, mesmo com todos os problemas citados, uma pesquisa de outubro da consultoria PwC afirma que a renda dos patrões das maiores empresas britânicas aumentou duas vezes mais rápido que a inflação neste ano. Conforme o diretor do think tank High Pay Center, Luke Hildyard, as empresas da bolsa inglesa raramente pagam mais de “três a quatro milhões de libras” anualmente aos seus executivos-chefes: “isso equivale pagar a eles mais de cem vezes o salário de um trabalhador britânico médio”, afirma Hildyard.

A crise do regime político inglês deve resultar, assim como em todo o mundo, na polarização e radicalização ainda maiores. De um lado a extrema-direita, que está lutando por espaço no país, e do outro, a esquerda e os trabalhadores. O golpe contra Corbyn foi justamente um golpe preventivo para esse momento de ascensão da classe operária, pois, mal ou bem, o Partido Trabalhista teria uma liderança ligada aos sindicatos. Aos trabalhadores ingleses resta organizar um partido independente capaz de entrar em conflito o imperialismo e derrubar o regime político podre que impõe a fome e o frio a milhões em um dos países mais ricos do planeta.

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