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Carla Dórea Bartz

Jornalista, com 30 anos de experiência (boa parte deles em comunicação corporativa). Graduada em Letras e doutora pela USP. Filiou-se ao PCO em 2022.

Cinema e política

O Desprezo, uma experiência brechtiana de Jean-Luc Godard

Filme é um exercício épico brechtiano que discute cinema em uma chave política


A primeira cena de O Desprezo (Le Mépris, 1963) é um resumo extraordinário de seu tema principal: o cinema como forma de arte na conjuntura capitalista. Um dos grandes representantes do movimento francês chamado Nouvelle Vague, parte indissociável da história do cinema dos anos 1960, o filme é uma experiência artística magistral pela maneira como trata seus materiais e como propõe essa discussão.

A abertura acontece em um cenário ao ar livre, uma externa do famoso estúdio italiano Cinecittà, em Roma. Ao fundo, vemos galpões e o aparato cinematográfico: uma câmera e um operador sobre trilhos, operadores de som e assistentes acompanham. 

Em uma referência ao pioneiro A Chegada de um Trem à Estação (1895), dos Irmãos Lumière, Godard substitui o trem pela câmera, fazendo-a se aproximar de nós, audiência, ressaltando, de um lado, a perspectiva ou a profundidade de campo como elemento formal das artes plásticas e como matéria da composição cinematográfica e, de outro, o movimento como característica principal do aparato do cinema. 

Enquanto a câmera da cena (diegética) se movimenta, um narrador fala os créditos iniciais e nos informa os nomes dos atores, do diretor, dos produtores e outros detalhes técnicos que, normalmente, lemos nas aberturas dos filmes. Ao final, esta câmera e seu operador ocupam todo o quadro até que esta, em close-up e em movimento de plongée, volta-se para nós, enquanto o narrador profere essas últimas palavras: “O cinema, diz Andre Bazin, substitui o mundo por um outro em mais harmonia com nossos desejos. O Desprezo é a história deste mundo”.

Tal abertura tem sua origem nas teorias do teatro épico do dramaturgo e cineasta alemão Bertold Brecht, que será citado explicitamente no filme por Fritz Lang, diretor conterrâneo e contemporâneo de Brecht, com longa e importante carreira cinematográfica e que, no filme de Godard, interpreta a si mesmo como um diretor que está fazendo um filme sobre A Odisseia.

A referência às teorias de Brecht logo na abertura alerta que este filme não visa simplesmente entreter, ou seja, estar “em harmonia com nossos desejos”, como diz a citação do crítico da revista Cahiers du Cinema, André Bazin. Ao contrário, ao mostrar o aparato e colocar o espectador dentro da ação, o filme provoca um certo estranhamento que nos obriga a assisti-lo com distância crítica, evitando assim um mergulho inconsequente na encenação, a ponto de tomar o que é mostrado como realidade.

Além disso, a citação a Brecht coloca o filme na chave política, talvez a mais importante que uma obra de arte pode explorar. O objetivo de Godard é fazer uma discussão política do cinema como forma de arte e, ao trazer para o primeiro plano os truques de produção, a câmera e o modo de fazer, ele visa se contrapor a este cinema que esconde isso tudo com o intuito de naturalizar e nos vender uma representação do real que, tanto nos anos 1960, quanto agora, condiz com o ponto de vista daqueles que dominam o mundo e fazem do cinema uma ferramenta de apaziguamento, ao invés de manifestação crítica sobre os conflitos dentro da luta de classes. Neste sentido, podemos claramente ver O Desprezo como um grande filme político.

Após estabelecer sua temática, a película nos brinda com uma tragédia, em sua forma aristotélica, para contar a história de três personagens colocados em uma disputa terrível: o roteirista Paul Javal (Michel Picolli), sua esposa Camille Javal (Brigite Bardot) e o produtor Jeremy Prokosch (Jack Palance). Prokosch entra em cena na Cinecittà, pouco depois da abertura, como se estivesse em um teatro. Dono de muito dinheiro, ele representa o poder estadunidense naquele momento. “No passado, os nazistas tinham armas, agora têm dinheiro”, diz Javal sobre ele. 

O personagem de Palance é claramente faustiano e escolhe Javal para escrever um roteiro, dando-lhe uma oportunidade na indústria. Este, pequeno-burguês, ambicioso e com dívidas, é o retrato de um intelectual de esquerda que, dada a oportunidade, não resiste à possibilidade de ascensão individual e sucumbe. Na cena em que ele discute com Camille, ela acha sua carteira de filiação ao Partido Comunista italiano.

Camille é a personagem sacrificial desta tragédia, a que é usada como objeto no embate entre esses dois homens, e que tenta manter, diante do pacto diabólico em que se vê enredada pelo próprio marido, a lucidez e a dignidade. “Eu te desprezo”, diz ela a Paul. Os deuses gregos aparecem nesse conto como estátuas rígidas, imutáveis e sem vida, prontas a manipular os humanos e exigir deles a sua cota de sacrifício. No entanto, fica claro que, no pacto fáustico moderno, quem exige o sangue é o capitalismo.

Confesso que, há alguns anos, quando assisti a este filme pela primeira vez, ainda presa à chave feminista identitária, entendi O Desprezo como machista. Cheguei até a escrever sobre isso. Meu erro teórico foi não perceber que os pontos de vista da obra e do autor não são aderentes ao machismo dos personagens e ao final de Camille. A crítica estava ali o tempo todo. A chave crítica exige esse distanciamento brechtiano, que me era falho naquele momento. Perceber esse problema agora é resultado desse processo de aprendizado, no qual a obra de Brecht foi essencial. Discutir e conhecer Bertold Brecht é um caminho para quem quer mergulhar no cinema com mais profundidade.

Por fim, um último adendo. O ano de 1963 nos brindou com obras de arte cinematográficas impressionantes. Neste ano, Nelson Pereira dos Santos adaptou Vidas Secas, clássico do Cinema Novo, Federico Fellini dirigiu 8 ½, Luchino Visconti nos brindou com o maravilhoso O Leopardo, Ingmar Bergman nos deu O Silêncio e Luz de Inverno e Alfred Hitchcock, Os Pássaros, além de muitos outros que poderia citar aqui. Incrível, não é?

O Desprezo pode ser assistido no YouTube, com legendas em português, sem qualquer custo.
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*As opiniões dos colunistas não expressam, necessariamente, as deste Diário.


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