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Esquerdismo histórico

Doença infantil do comunismo: “Fora Lula e D. Pedro I!”

O revisionismo histórico da esquerda, mesmo em sua visão pseudo radical, apensa serve aos interesses do imperialismo para manter seu controle sobre o Brasil


Os 200 anos da Independência do Brasil deram lugar à maior campanha de difamação já feita sobre esse importantíssimo acontecimento em décadas. Desde a direita até a autoproclamada extrema esquerda, vemos versões que ridicularizam a história nacional que são divulgadas todos os dias. É o caso de um blog chamado Primera Línea Revolucionaria América Latina, que publicou em seu sítio o texto “O que realmente foi a Independência do Brasil?” com a resposta imediata: “saque, a corrupção institucionalizada e o massacre da maioria da população”. Impossível ignorar os ares tucanos.

O artigo em si é repleto de falsidades, o que já torna impossível uma análise política da história brasileira. Ele começa afirmando: “A burguesia portuguesa e brasileira foi ‘treinada’ por uma das burguesias mais ardilosas de toda a história do capitalismo, a burguesia inglesa”. A burguesia de Portugal foi, na verdade, precursora de toda a burguesia europeia, ela teve a sua revolução ainda no ano de 1385, a Revolução de Avis, de forma extremamente precoce. Foi isso que permitiu a Portugal realizar as grandes navegações e se tornar o primeiro império de proporções mundiais.

A Inglaterra só foi ter a sua revolução burguesa na década de 1640, quase 300 anos depois de Portugal, tendo sido secundária na política europeia até este século. A verdade é que a Espanha, a Holanda e a própria Inglaterra aprenderam em grande parte com os portugueses. As colônias de açúcar inglesas no Caribe e as colônias do sul dos EUA foram em grande parte imitações do que Portugal havia criado no Brasil nas primeiras décadas da colonização. O PLRAL estende o quadro de 1822 por séculos no passado, um claro erro de anacronismo.

Isso por si só é importante pois a burguesia Portuguesa, que deu origem a burguesia brasileira, foi extremamente habilidosa durante todo esse periodo, sendo o Brasil um resultado desse sucesso. A monarquia Portuguesa era um instrumento dessa burguesia e o sucesso de D João VI em lidar com o periodo mais revolucionário da história da Europa mostra essa habilidade, o próprio Napoleão, uma das personagens mais importantes da história, afirmou que o admirava, que ele havia sido o único que conseguiu enganá-lo.

O artigo afirma que o acúmulo das tendências independentistas forçou D Pedro I a assumir a liderança porque isso era inevitável. O erro aqui, que é muito comum, é o de considerar que por ser um príncipe e depois um imperador D Pedro I não poderia ser uma liderança revolucionária. É uma tese que toma a forma pelo conteúdo e portanto não é uma análise da luta de classes. Napoleão, por exemplo, mesmo após se tornar imperador continuou sendo uma força revolucionária na Europa destruindo o antigo regime por onde suas tropas dominavam.

A chegada da corte portuguesa ao Brasil também foi uma força de progresso, desenvolveu o país rapidamente. Na realidade o governo da monarquia da dinastia Bragança foi progressista no Brasil desde a chegada da família real até o governo de D Pedro I. O principie Pedro por sua vez foi uma personagem revolucionária, tanto no Brasil quanto em Portugal. Ele liderou todo o movimento de independência derrotando os exércitos de Portugal se apoiando na mobilização de brasileiros em todo o país. D Pedro I foi uma espécie de Napoleão da América do Sul, uma figura análoga a Simon Bolívar, e por isso ganhou a alcunha de Libertador do Brasil.

Contudo, o artigo foca muito pouco na Independência e passa a jogar diversas informações gerais sobre a história nacional. Começando com a dramática frase “A história do Brasil é a história do saque, a corrupção institucionalizada e o massacre da maioria da população.”  O ataque à corrupção, típico da direita, fica solto neste comentário em destaque. Ele então levanta o massacre dos indígenas, a escravidão, o abandono dos libertos após a Lei Áurea, o que fez gerar as favelas nas grandes cidades. Uma crítica genérica à história que não leva a lugar nenhum, o problema seria que a história não foi um mar de rosas, algo que nunca existiu em lugar e momento algum.

Depois o artigo passa a falar das mais de 70 revoltas que aconteceram antes da independência em 1822 e das mais de 40 que vieram acontecer depois. Ele cita as revoltas das Carrancas, dos Malês, a Sabinada, a Balaiada, a Farroupilha, a Praieira, a guerra de Canudos, a revolta do contestado, a Chibata, o Contestado, a greve geral de 1917 e o movimento tenentista. Essa revoltas teriam sido as mobilizações legítimas enquanto a Independência seria uma farsa, sequestrada pela via institucional.

O que todas essas revoltas, a exceção do movimento tenentista, tem em comum é que elas foram derrotadas. O movimento pela Independência, pelo contrário, conquistou de fato a independência do Brasil, um dos maiores países do planeta, foi a maior independência de uma colônia da história. Ela teve um caráter institucional, pois foi dirigida pelo príncipe herdeiro, mas teve um caráter revolucionário, expulsando as tropas estrangeiras, e proclamando um novo regime constitucional, ao estilo das demais revoluções que existiram no início do século XIX.

O Brasil se tornou um regime constitucional, mesmo sendo uma monarquia, muito antes do que vários países da Europa. O ano de 1848 contou com várias revoluções para derrubar os regimes absolutistas e prol de regimes constitucionais, foi o caso das revoluções nas repúblicas que viriam a ser a Itália e a Alemanha, bem como em grande parte da Europa Oriental. Não só isso como a Independência teve um enorme feito que foi criar um regime político que garantiu a integridade do território nacional, algo que não aconteceu em nenhum outro país da América Latina.

Para fechar o debate é válido lembrar das análises de Marx e Engels sobre as revoluções de 1848. No caso da Hungria, quem liderava a guerra de libertação nacional contra a Áustria não era a classe operária, nem o povo pobre, apesar deles serem a linha de frente na guerra, era um setor da nobreza Húngara. O nobre Lajos Kossuth foi o líder desse movimento e assim foi descrito por Engels: “Pela primeira vez após um longo período finalmente aparece uma figura realmente revolucionária, um homem que em nome de seu povo ousa aceitar o desafio de uma luta impiedosa, um homem que é para a sua nação Danton e Carnot e uma pessoa: Lajos Kossuth.”

A crítica do PLRAL é portanto uma crítica esquerdista, ao estilo do que a esquerda fez com os governos do PT, só que voltada ao passado. Caso o PLRAL estivesse organizado no Rio de Janeiro em 1822, seguindo a mesma política, iria se colocar contra o movimento pela independência porque era o príncipe que liderava o movimento de libertação nacional pois ele era filho do rei, ignorando todo o gigantesco movimento real pela independência que tinha D Pedro I como a sua principal liderança. Esse ultraesquerdismo reflete também na política atual em que a PLRAL, para surpresa de ninguém, se coloca abertamente contra Lula pois ele seria o candidato oficial do imperialismo. A análise errada do passado leva a erros graves para a política do presente.

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