Nas últimas semanas antes das eleições para a presidência da Câmara dos Deputados, a imprensa burguesa já estava dando como certa a vitória de Arthur Lira (PP), candidato apoiado pelo presidente ilegítimo Jair Bolsonaro. O resultado, que se confirmou no dia 1º de fevereiro, marcou uma virada de votos em favor de Lira, uma vez que, quando foi dada a largada da disputa, Rodrigo Maia (DEM), então presidente da Casa, havia apresentado um bloco aparentemente majoritário. Em matéria do dia 6 de janeiro, publicada pelo jornal Gazeta do Povo, apresentava-se o seguinte cenário:
“os partidos que declararam apoio a Baleia Rossi, candidato do grupo de Rodrigo Maia (DEM-RJ), somam 278 dos 513 deputados. (…) Caso Baleia Rossi, de fato, obtivesse de 100% desse apoio, estaria eleito. Para vencer, um candidato precisa de de 257 votos. Já Arthur Lira – o candidato do presidente Jair Bolsonaro e do Centrão – é apoiado formalmente por PP, PL, PSD, Republicanos, Solidariedade, Pros, PSC, Avante e Patriota. Em tese, ele conta com 195 votos”.
Como havia a perspectiva de que Baleia Rossi ganhasse as eleições — afinal, contava com o apoio do então presidente da Câmara e de setores importantes da burguesia —, a esquerda parlamentar, que é capaz de vender a mãe para conseguir um cargo qualquer, decidiu apoiá-lo entusiasticamente. Todos sabiam que se tratava de uma política mesquinha, que não levaria a qualquer benefício para o trabalhador, mas tão somente para os parlamentares, que, em posse da secretaria tal de assuntos sem importância alguma, poderiam conseguir controlar uma fração minúscula da máquina estatal e utilizá-la em prol de sua carreira.
A desculpa para essa traição — isto é, de apoiar um vigarista, que aprovou mais de 90% dos projetos do governo Bolsonaro e que foi um dos articuladores do golpe de 2016 — era a de a vitória de Baleia Rossi favoreceria a “democracia”. Ninguém são, obviamente, caiu nessa conversa fiada.
Mas como a atividade parlamentar é um exercício permanente de enrolação, todos os partidos da esquerda parlamentar se passaram ao papel ridículo de explicar por que apoiariam Baleia Rossi. O PT e o PCdoB chegaram a assinar cartas e manifestos falando em “luzes” e “trevas”. O PSOL, mais malandro, declarou, em nota, que lançaria uma candidatura própria no primeiro turno e que votaria em Baleia Rossi no segundo:
“A Executiva Nacional do PSOL, reunida para debater as posições presentes no interior da nossa bancada federal acerca da tática para a eleição da Presidência da Câmara dos Deputados, e reconhecendo a legitimidade de todas as opções em discussão, delibera:
(…) Que caso a candidatura de esquerda não esteja no segundo turno, orienta o voto da bancada do PSOL no candidato que representar uma alternativa àquele apoiado pelo governo Jair Bolsonaro”.
A candidatura do PSOL à Câmara sempre foi, portanto, uma farsa, um jogo de cena. O partido, corretamente, sempre considerou impossível vencer as eleições na Câmara — a esmagadora maioria é composta por golpistas. Mas considerava que seu voto “para valer”, o voto que poderia decidir de fato a eleição, deveria ser destinado a Baleia Rossi. Não há diferença, portanto, para as posições do PT e do PCdoB: o PSOL tinha a mesma consideração de que a aliança com Baleia Rossi era uma política correta.
No entanto, como a candidatura de Baleia Rossi foi sendo esvaziada, na medida em que, na política de compra de votos, Bolsonaro tinha mais a oferecer do que Rodrigo Maia, o PSOL procurou apresentar que sempre esteve contra apoiar o candidato do MDB. Dias antes da eleição na Câmara, a imprensa burguesa afirmou que o PT e o PCdoB teriam procurado convencer o PSOL de apoiar Baleia Rossi no primeiro turno, mas a legenda rejeitou o pedido:
“Apesar dos pedidos das presidentes do PT e do PCdoB, Gleisi Hoffmann e Luciana Santos, o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, não aceitou a proposta de o partido ingressar no bloco liderado por Baleia Rossi (MDB-SP) na disputa pelo comando da Câmara dos Deputados. (…) A presidente do PT disse lamentar, mas compreender, a decisão do PSOL. Segundo ela, a posição está relacionada a divergências no partido. Frisou que o PSOL votará em Baleia Rossi no caso de um segundo turno” (CNN Brasil, 31/01/2021).
Ora, mas se a vitória de Baleia Rossi era tão importante, por que o PSOL não decidiu apoiá-lo no primeiro turno, já que a situação estava tão crítica e o próprio segundo turno estava sob risco? Porque, no cálculo dos parlamentares do PSOL, a candidatura de Baleia Rossi já não era mais viável, e, portanto, o melhor a fazer seria pular fora do barco. O caso revelou, portanto, que não havia compromisso algum em fazer a “democracia” vencer, mas simplesmente uma tentativa de garantir seus cargos na mesa diretora.
Mas não é só isso. O PSOL está fazendo questão de apresentar-se como um partido que nunca apoiou Baleia Rossi porque ele foi construído sobre a base da mais baixa demagogia contra o PT. Isso fica claro no próprio discurso de Luiza Erundina, após a votação:
“Há poucas diferenças entre as duas candidaturas. O PSOL é o único partido cuja candidatura polariza com os candidatos dos dois blocos, constituídos predominantemente por partidos de direita, além de alguns partidos do campo progressista que se aliaram ao campo de Baleia Rossi”.
E o PSOL não se aliou? É evidente que sim. Até porque a “polarização” com as candidaturas da direita é uma farsa total. Em seu programa, Erundina não propõe nada que “polarize” com a direita: lava as mãos quanto ao aborto, pede mais polícia e mais repressão e ainda se compromete com a luta contra a corrupção. E, o principal: em vez denunciar que as eleições são antidemocráticas que o Congresso inteiro é golpista e convocar novas eleições, Erundina se comprometeu em votar no candidato do regime, Baleia Rossi.
A tentativa do PSOL de liderar uma “ala esquerda” da oposição é uma farsa que deve ser duramente combatida. A única oposição real ao governo Bolsonaro é aquela que se propõe a romper com o regime. Isto é, a que está ancorada nas palavras de ordem de “fora Bolsonaro e todos os golpistas”, “eleições gerais” e “Lula presidente”.





