Na última quarta-feira (15), o governador Flávio Dino (PCdoB-MA), em entrevista concedida ao jornalista Luis Nassif e transmitida pela TV GGN, se posicionou novamente em defesa da política da frente ampla, expondo seus argumentos a partir de uma análise completamente distorcida dos últimos acontecimentos. No final da entrevista, após criticar o governo Bolsonaro pela sua política genocida em relação à pandemia de coronavírus, Dino declarou:
Nossa sorte é que, aos trancos e barrancos (…), nós conseguimos construir um cinturão institucional forte no Brasil, que envolve a imprensa, que envolve o trabalho de jornalistas independentes, que envolve setores do Judiciário, com muita dificuldade, do Ministério Público e do mundo jurídico de um modo geral, os governadores, do próprio Congresso, do presidente da Câmara ao presidente do Senado, é esse cinturão que está evitando que esses profetas do caos possam realizar os seus intentos. O nosso objetivo é fazer com que o pacto do bom senso consiga deter e derrotar o fascismo.
Não é necessário grandes esforços para constatar que os aliados citados pelo governador maranhense são, com exceção, em parte, do que chama de jornalistas independentes, os principais responsáveis pelo golpe de Estado que depôs a presidenta Dilma Rousseff em 2016 e pelos seus desdobramentos. Mencionaremos, logo em seguida, para refrescar a memória do leitor, um pequeníssimo recorte da participação de cada um desses elementos no estabelecimento do regime golpista:
- Imprensa burguesa: representada costumeiramente pelas Organizações Globo, que são o maior monopólio do setor no país, a imprensa foi responsável por reproduzir um número infindável de acusações de corrupção contra integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT), sobretudo o ex-presidente Lula. Nenhuma das acusações foram comprovadas, e as acusações jamais foram reparadas. Manipulações grotescas, como a associação do nome do ex-presidente Lula à foto de um bunker com dinheiro escondido, operada pelo jornal O Globo, também integram o cardápio das canalhices da imprensa capitalista.
- Judiciário: da primeira instância ao Supremo Tribunal Federal (STF), o Judiciário sempre esteve mergulhado, da cabeça aos pés, nas operações golpistas. O caso do ex-presidente Lula é bastante esclarecedor nesse sentido: foi sentenciado à prisão, em primeira instância, sem ter qualquer crime comprovado contra si, teve sua pena aumentada em um tribunal de apelação e foi preso sem ter tido o seu processo integralmente concluído.
- Ministério Público: foi um dos pilares da Operação Lava Jato e foi apresentou a escatológica denúncia contra o ex-presidente Lula, acusando, por meio de uma apresentação de Power Point, o maior líder popular do país de ser o “comandante supremo” dos esquemas de corrupção.
- Governadores: o fato é que nenhum governador, até hoje, decidiu enfrentar diretamente o presidente ilegítimo Jair Bolsonaro, como ficou claro na capitulação às chantagens feitas pelo governo federal em meio à aprovação da Reforma da Previdência. No entanto, a maioria dos governadores não só têm procurado se adaptar ao regime político, como tem aplicado, de maneira literal, a política assassina do governo Bolsonaro em seus estados. É o caso, por exemplo, de Wilson Witzel (PSC-RJ), que não teve pudor algum em subir em um helicóptero da polícia para metralhar a população dos morros.
- Presidente da Câmara: mais conhecido como Rodrigo Maia (DEM-RJ), é hoje um dos elementos mais estáveis e decisivos para o regime político. Eleito com o apoio do PCdoB e frequentemente adulado por setores da esquerda nacional, Maia já está no comando da Casa há quase quatro anos — isto é, durante todo o período em que a direita se estabeleceu no controle do regime político. Todas as medidas do governo Temer e do governo Bolsonaro, portanto, desde a reforma trabalhista à reforma da Previdência, passaram pela articulação de Rodrigo Maia.
- Presidente do Senado: de menor destaque em relação ao presidente da Câmara, Davi Alcolumbre (DEM-AP) cumpre a mesma função de dar sustentação ao regime no parlamento. Nesse exato momento, em que a população empobrece a cada minuto por causa da pandemia do coronavírus e da crise econômica, o presidente do Senado procura articular a aprovação da “minirreforma trabalhista”.
O breve panorama que apresentamos mostra, assim, que os aliados que formariam o cinturão apontado por Flávio Dino são, sem qualquer exagero, inimigos do povo. Uma frente que leve em consideração um acordo com esses setores não poderia, portanto, atender a qualquer interesse real dos trabalhadores.
A defesa desse cinturão, que nada mais é do que a conhecida política da frente ampla — isto é, a frente entre as organizações populares e a burguesia —, partiria do princípio de que esses setores teriam algum interesse comum em relação às massas — no caso, o interesse em combater o coronavírus. Nada poderia ser mais falso.
Todos os elementos citados, além de terem contribuído para o golpe de Estado, apoiaram a eleição do presidente ilegítimo Jair Bolsonaro. Se não apoiaram de maneira explícita, como no apoio declarado dos integrantes do DEM e de governadores como João Doria à candidatura de Bolsonaro, os acontecimentos posteriores revelariam esse apoio, como a contratação de Moro para o alto escalão do governo, recompensa por ter prendido o ex-presidente Lula.
Mesmo com Bolsonaro deixando claro que irá matar milhares e milhares de pessoas com o novo coronavírus, esse cinturão não se propõe a derrubar o governo — afinal, nem de longe a burguesia desejaria que isso acontecesse. A política da burguesia é a de manter um regime político que seja capaz de aplicar um duríssimo ataque aos trabalhadores, que compense todas as perdas que os capitalistas estão tendo com a crise econômica. E, nesse sentido, o cinturão está cumprindo um papel fundamental para que o regime permaneça estável.
Nem os governadores, nem os parlamentares, nem a imprensa, nem absolutamente ninguém que faça parte do cinturão apontado por Dino está agindo, de alguma maneira, para que os trabalhadores não sejam os mais atingidos pela pandemia de coronavírus. Pelo contrário, estão, seja pela ação de fato, seja pela omissão, garantindo que os capitalistas abusem de todas as maneiras a população. Não há máscaras, hospitais, remédio ou qualquer política emergencial para a sobrevivência dos trabalhadores. A única iniciativa que há é a de decretar o isolamento social, que, desprovido de qualquer esforço do Estado para combater a doença, está servindo apenas para que a burguesia consiga pôr o regime político em ordem, impedindo manifestações de rua, criando leis a cada dia e retirando os poucos direitos democráticos que ainda restam.
Em sua fala, Dino deixa de fora, no entanto, a única força verdadeiramente interessada em combater a pandemia e derrubar o governo: a classe operária. E é justamente ela quem deve atuar, de maneira totalmente independente dos representantes da burguesia — isto é, do cinturão de Dino. À palavra de ordem de frente ampla, é preciso levantar a palavra de ordem de frente única dos trabalhadores para derrubar o governo. Fora Bolsonaro e todos os golpistas! Formar conselhos populares em todo o país!




