Esquerda tem que ir às ruas

O povo não está online, está nas ruas ameaçado pelo vírus

A ação online da esquerda e dos sindicatos em apoio ao confinamento contrasta com a realidade do trabalhador

O objetivo deste artigo de opinião não é o de entrar no debate sobre se as atividades pela internet são mais ou menos eficazes, mas o fato real, concreto, é que elas não substituem a mobilização de rua.

É fato que a esquerda, seja grande ou pequena, reformista ou que se reivindica revolucionária, inclusive trotskista, com raríssimas exceções, mesmo pelo mundo, aderiu de mala e cuia à campanha do imperialismo pelo isolamento, como método principal de combate ao coronavírus.

Independentemente da validade científica dessa opção – e está comprovado que o confinamento por si só, sem estar acompanhado de uma série de medidas, como testes seguros em massa, condições reais de segregação, entre outras, não basta -, a “defesa da vida”, pelo simples confirmamento, não é mais do que um mantra entoado pela esquerda.

Como método de “luta”, diante da opção pelo confinamento, não restou outro caminho a não ser a internet, as redes sociais. Frases do tipo “as redes sociais são a nossa principal trincheira de luta” , “fique em casa”, “salve sua vida” passaram a ser o lema da esquerda. 

O problema é que a vida real é como ela é, não permite fantasia. O povo não está confinado, não está online, mas está nas ruas ameaçado pelo vírus. Dezenas de milhões de trabalhadores são obrigados a se deslocar em transportes de péssima qualidade, a trabalhar em locais insalubres, sem equipamentos básicos de proteção, como o álcool gel, a máscara, as luvas. Ao final do dia, utilizam os mesmos transportes abarrotados de gente e chegam em suas casas, nas periferias, muitas delas de um ou dois cômodos, sem água, sem sabão e sem saneamento básico.

Nesse meio tempo, os governantes da direita e da extrema-direita recebem carta branca da esquerda para “combater” o coronavírus. Muitos, inclusive, são festejados como “amigos do povo”. Em nome desse combate, aprovam leis que permitem que a burguesia demita, suspenda contrato de trabalho, reduza ainda mais os já parcos direitos dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que autoriza que o Estado conceda alguma esmola para as massas e muito, mas muito dinheiro para a própria burguesia.

E onde estão as direções que deveriam estar mobilizando os trabalhadores de categorias que não têm o direito de fazer o confinamento? O que dizer dos bancários, trabalhadores dos correios, dos próprios servidores da saúde, que estão morrendo aos montes pelo país? Será possível mobilizar essas categorias por videoconferência? Pela imprensa online que denuncia, mas não constrói a mobilização?

Estar por detrás de um celular, de um computador não funciona. Não dá para fazer distribuição de panfletos, mobilizar os trabalhadores pela internet, pelas redes sociais.

As poucas iniciativas louváveis vieram justamente dos locais onde a população não tem saída: é lutar pela sobrevivência ou sucumbir à fome e ao vírus; e isso ocorre justamente nas periferias mais desassistidas. E isso não está sendo construído via online.

O que se pode dizer é que, por mais importante que sejam as informações transmitidas via internet, inclusive a própria imprensa da esquerda e dos sindicatos, nada pode substituir a ação. E sem ação tudo é inútil e não passa de uma mera questão de opinião. Opinião sempre é uma questão individual, mas o trabalhador precisa é de estar mobilizado como classe social, o que é a única maneira efetiva de se defender do patrão e do vírus.

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