Polêmica

Movimento 65: uma camuflagem política

O denominado movimento 65 é a tentativa desesperada da burocracia dirigente do PCdoB em esconder o nome e símbolo do partido para adaptar-se como sigla burguesa

Na esteira do golpe de Estado de 2016, um setor oportunista da esquerda advogou a “virada da página” ou seja a busca por maneiras de adaptação ao regime golpista. Em virtude da pressão dos golpistas contra a esquerda, uma onda de abjuração e renúncia proliferou-se. Os símbolos, as cores e as marcas da luta pelo socialismo como o uso da cor vermelha foram abandonadas ou escondidas. O PCdoB, um partido tradicional da esquerda oportunista, principal proponente da frente ampla com a burguesia, não satisfeito com aliança de colaboração de classe, resolveu liquidar com os vestígios do seu próprio passado para facilitar o processo de completa integração (leia-se capitulação).

O denominado movimento 65 é a tentativa desesperada da burocracia dirigente do partido em esconder o nome e símbolo do partido para facilitar a conversão do PCdoB em mais uma sigla burguesa no sistema eleitoral. Todavia, os parlamentares e burocratas que controlam a máquina do PCdoB não pretende simplesmente abrir mão da identificação do “ movimento 65” com a esquerda, inclusive com o “ marxismo”. Assim, ao lado da política abertamente colaboracionista, inclusive com a direita “ civilizada” na pretendida frente ampla, defendida ardentemente pelo governador Flávio Dino, estrela do partido, a história do antigo partido seria “ preservada” como uma credencial, para ser usada seletivamente.

Evidentemente que essa operação é extremamente complexa, e inevitavelmente tende a fracassar. De certa maneira, é uma política de “reconversão democrática” que os partidos stalinistas europeus tentaram fazer nos anos 80 e 90, que mesmo na Itália, que tinha o maior partido comunista do ocidente, com uma base operária de massas não houve êxito. No Brasil, o antigo PCB transformado em PPS, agora em Cidadania, fracassou completamente e se transformou em uma sublegenda da burguesia.

O texto Movimento 65, uma boa ideia, publicado no site vermelho do PCdoB, o antigo militante Luciano Siqueira procura apresentar a política de escamotear até mesmo o nome do partido para adquirir novos filiados para a disputa eleitoral como uma “ boa ideia” como uma forma de “ atualizar” o velho partido.

Para ilustrar é descrito uma reunião com o antigo secretário geral do partido, João Amazonas, em que é afirmado que a construção do PCdoB como “ partido bolchevique” deveria agregar militantes e “ amigos” do partido”. O Movimento 65 realizado atualmente seria a continuidade daquela “ tática”:

“Pouco mais de quarenta anos após, o Movimento 65 se afirma pouco a pouco como uma alternativa ao ajuntamento de militantes e amigos do PCdoB, empenhados no pleito municipal deste ano, na condição de candidatos ou não.” https://vermelho.org.br/coluna/movimento-65-uma-boa-ideia/

Certamente, que a descrição de um partido bolchevique como “ um ajuntamento de militantes e amigos” não tem nada haver com bolchevique, mas é justamente a descrição da formulação menchevique de partido. Mas não é esse o ponto a ser destacado, o que é relevante é a operação casuística de tentar apresentar o “ajuntamento” de novos filiados visando aumentar a densidade eleitoral do PCdoB como parte de uma “ história” do partido.

A antidemocrática lei eleitoral, com sua cláusula de barreira, que exige uma quantidade de parlamentares eleitos para o pleno funcionamento dos partidos, expressa o caráter nada inclusivo do sistema eleitoral brasileiro. O PCdoB está ameaçado, nas eleições de 2018, não conseguiu dez deputados federais, sendo obrigado a fazer uma fusão com o PLP, partido que apoiou o golpe de 2016. A resposta do PCdoB a essa situação é avançar na sua transformação em uma sigla eleitoral burguesa com um verniz de esquerda.

“Uma parcela expressiva de mulheres e homens comprometidos com os interesses e aspirações do povo, com ou sem experiência partidária pregressa, se abriga sob esse guarda-chuva cívico-democrático. Nenhum chega de mãos vazias. Agregam diferentes modos de enxergar a realidade, nos trazem energia criadora e ao mesmo tempo uma enorme abertura a aprender na fonte da quase centenária agremiação comunista.” https://vermelho.org.br/coluna/movimento-65-uma-boa-ideia/

A noção de partido como “guarda-chuva cívico-democrático” é uma maneira elegante, ou melhor um eufemismo para camuflar que o movimento 65 é a busca por oportunistas de plantão, que poderão utilizar a sigla do PCdoB. Como afirma, o texto “Nenhum chega de mãos vazias. Agregam diferentes modos de enxergar a realidade”, leia-se não tem importância quem são e por quais propostas se unificam, mas que estão no movimento “ policlassista” 65 para se eleger de qualquer maneira.

Em tempos pretéritos, a política do PCdoB era ser parte do partido burguês da “oposição”, o MDB. Naquela oportunidade, o PCdoB estava na ilegalidade e atuava na oposição oficial à ditadura militar. Na segunda metade da década de 1970 e início dos anos 1980, o PCdoB, atuava destacadamente no movimento estudantil, justificava a aliança com a burguesia “progressista” em nome da luta pela defesa das liberdades democráticas. Notem que o PCdoB era o braço do MDB no movimento, opondo-se a palavra de ordem de Abaixo a ditadura militar.

Na Nova República, o PCdoB já um partido legalizado apoiou o governo Sarney, chegando a perder a direção da UNE, por contra do desgaste de ser correia de transmissão do MEC no ME. Entretanto, adesão do PT à politica de colaboração de classes no marco da Frente Popular, permitiu que o PCdoB desempenhasse um papel crucial, transformando-se em um aliado preferencial do PT e uma ponte para setores burgueses. A entrada dos sindicalistas do PCdoB na CUT foi parte do estrangulamento dessa importante entidade sindical, e a retomada da UNE pela UJS ( corrente estudantil do PCdoB) significou a conquista de uma posição politica para o PCdoB.

Posteriormente, o PCdoB participou nos governos do PT, e com o golpe de Estado, o PCdoB procurou  adaptar -se a nova situação, se aproximando cada vez mais dos setores burgueses tradicionais. O movimento 65 é tão somente o coroamento de uma política desesperada do partido em sobreviver no regime político.  A política de frente ampla com a burguesia e o movimento 65 são expressões da capitulação da política reformista eleitoreira do PCdoB diante do regime controlado pela direita golpista.

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