Nessa última semana este Diário noticiou a declaração de ex-presidente da Argentina, Eduardo Duhalde, onde ele afirma categoricamente que não haverá eleições municipais na Argentina em 2021, denuncia as ilusões em relação às eleições e adverte a população do país das Malvinas sobre o risco de um golpe militar. A declação, difícil de ouvir saindo tão claro da boca das figuras políticas da esquerda, do nacionalismo burguês aos autointitulados revolucionários, causou imenso mal-estar na Argentina.
Agora, depois de uma certa repercussão dessa polêmica que acabou colocando a política da esquerda eleitoral em xeque e da política da direita a olho nu, a burguesia colocou sua máquina de propaganda para distorcer a declaração. O objetivo é voltar a denuncia as vítimas do golpe de Estado que a burguesia planeja. Uma tática velha e muito corriqueira da imprensa burguesa, esse monstro de desinformação e manipulação da burguesia. E não só na Argentina, como no Brasil a declaração do ex-presidente argentino foi completamente estuprada.
Um grande expoente dessa distorção é o jornal O Globo, que apresentou em suas páginas golpistas uma matéria cinicamente intitulada: “Crise da pandemia põe Argentina no caminho de um projeto autoritário”. Sem consultar o ex-presidente, o jornal da burguesia golpista coloca sua declação, sua polêmica, de cabeça para baixo. As páginas, além de ofender Duhalde dizendo que ele estava delirando, ficando louco, força a mão em dizer que o golpe de Estado que o ex-presidente denuncia seria no próprio presidente atual Alberto Fernandez, também um peronista.
É, no mínimo, absurdo. A matéria é todo um contorcionismo para apontar o canhão do golpe nos golpeados, e safar os golpistas. É ostensiva a fraude. Nas páginas do Globo podemos ver que, segundo essa linha editorial aberrante, a culpa da crise é do peronismo, e não do neoliberalismo imposto pela fraudulento eleição que levou Macri ao governo. Há menção de que não há uma ofensiva golpista porque não há politização dos quartéis, o que é também uma farsa porque já vemos um movimento de tipo fascista na Argentina que está ecoando nas forças armadas.
E, claro, o “recheio do bolo”: a campanha claramente golpista contra a esquerda. Todo aquele apelo que vimos contra o PT, vemos contra o peronismo argentino. Que é um “projeto de poder”, se isso fosse horrível, que não querem alternar, que não deixam a direita ganhar porque são sujos, etc. E toda a propaganda burguesia, direitista e asquerosa que vimos no golpe de Estado de 2016 e até hoje, como nessa matéria d’O Globo.
O último parágrafo, de brinde, temos uma defesa do governo Bolsonaro:,
“Já não se fazem golpes como antigamente, com fuzis e tanques nas ruas. A Argentina começa a repetir o padrão insidioso de declínio institucional, num projeto autoritário que não prevê alternância no poder. Não é um recado salutar à América Latina, muito menos ao Brasil de Bolsonaro.”
Primeiro que o “golpe de antigamente”, o clássico militar, se choca com o que aconteceu aqui, em Honduras e também na Ucrânia, portanto é uma bobagem. Há sim um grande risco. Principalmente no que se refere a toda América Latina e principalmente o Brasil, que já possui no seu governo uma junta militar. O caso mostra como a burguesia é ardilosa em distorcer declarações que repercutem e não a convém, e de que é necessário em toda América Latina uma grande mobilização para derrubar os governos fantoches do imperialismo e expulsar daqui a influência imperialista que nos subjulgam nos impondo juntas militares para nos colocar em ditaduras abertas.





