Convidado para participar do encontro virtual convocado pela CUT para o 1º de maio, em associação com centrais menores (incluindo a famigerada Força Sindical), o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP), não demonstra sensibilidade alguma diante do gesto nobre, cristão até, da esquerda pequeno burguesa em querer salvar a alma do golpista e em reabilitá-lo aos trabalhadores. Prova disso é o amplamente anunciado pacote de ajuda do governo federal aos estados e municípios em dificuldades por conta da paralisia econômica, que voltou a ser tema dos noticiários esta semana.
O pacote de resgate aprovado na Câmara por Rodrigo Maia prevê que a União cubra as perdas na arrecadação do ICMS, para os estados e ISS, para os municípios. Com o custo estimado em R$93 bilhões, o Executivo, especialmente o ministro da Economia, Paulo Guedes, alegaram que o valor era muito alto, sendo atendido justamente por Alcolumbre, que propos alterações no projeto para diminuir o impacto no orçamento por meio de uma contrapartida: a proibição de aumento salarial dos servidores públicos.
O primeiro aspecto a ser destacado é a mistura de oportunismo com canalhice por parte da direita. Aproveitando-se da confusão na classe trabalhadora, atordoada pela propaganda intensa da imprensa burguesa, e da loucura das direções políticas da esquerda (inclusive da CUT), que abandonaram os trabalhadores à própria sorte num momento de aprofundamento da luta de classes, a direita tem usado todos os meios ao seu alcance para transferir o custo da crise capitalista única e exclusivamente à classe trabalhadora.
Por exemplo, com este contraponto de arrocho sobre os salários do funcionalismo público, o que era um custo de R$93 bilhões vira um ganho de R$37 bilhões, já que a economia estimada com a desvalorização dos salários é de R$130 bilhões. Parece muita esperteza mas não para aí.
É sabido que o principal gasto corrente do país refere-se a rolagem da dívida pública. O que poucos se dão ao trabalho de explicar é que o mesmo padrão de gastos públicos verificado nas contas do governo federal, se replica nos estados e nos municípios, o que faz com que os banqueiros sejam os principais destinatários de tudo o que se arrecada em impostos no Brasil, em todos os níveis da administração pública. Logo, quando o prefeito Mário Hildebrandt, de Blumenau, pede reposição das perdas do ISS, ele não o faz para atender a população desassistida do Ribeirão Fresco mas um número infinitamente menor de grandes burgueses.
Outro ponto importante de se ter em mente é que ataques assim começam com setores mais bem posicionados mas a tendência é que rapidamente cheguem ao atendente de call center ou o operário de fábrica, cujos patrões ganharão força para atacar seus próprios trabalhadores com muito mais brutalidade. Nesse sentido, sendo Alcolumbre um político burguês, portanto, dedicado a este segmento específico da sociedade, não pode ter outro tipo de política além desta que está sendo manifestada. Seu papel não é defender o país em abstrato mas os interesses concretos da burguesia, como claramente estão postos na “ajuda” da União. Quando isto o obrigar a mudar leis, ele mudará, se o momento for propício para revogação da lei Áurea, será revogada e quando a defesa destes interesses o levarem a se juntar aos setores mais desorientados da esquerda, ele o fará também, sabendo que quem se desmoraliza não é ele mas a esquerda.





