As empresas de aplicativos encontraram uma nova forma de espremer os trabalhadores: fazê-los pagar para poder trabalhar. Uber e 99 testam um sistema de “passe” — uma assinatura, válida por um período ou por um teto de faturamento, sem a qual o motorista não acessa as corridas nem fica com o valor integral das viagens. Já o iFood impõe aos entregadores o sistema de agendamento prévio de turnos, com atuação restrita a áreas definidas pela plataforma.
O absurdo não tem disfarce. O trabalhador põe o próprio carro ou a própria moto, paga o combustível, arca com a manutenção e com os riscos, e agora ainda deve pagar à empresa uma taxa para ter o direito de rodar. Levantamento do Tribunal Superior do Trabalho mostrou que as despesas mensais desses trabalhadores já superam R$5 mil, corroídas por jornadas extenuantes, remuneração aviltada e ausência total de direitos.
Contra esse aviltamento, motoristas e entregadores de diferentes regiões organizam uma nova rodada de paralisações, com atos anunciados em pelo menos 17 cidades, de São Paulo e Rio de Janeiro a Salvador, Recife, Manaus, Porto Alegre e Brasília. As reivindicações unem as categorias: aumento do valor das corridas, piso por quilômetro rodado, fim do agendamento obrigatório de turnos, fim dos bloqueios e transparência sobre quanto se ganha em cada viagem.
As plataformas respondem com migalhas e reajustes de fachada, quase sempre anunciados às vésperas das greves para tentar esvaziá-las. Cada avanço, por menor que seja, resulta da pressão organizada da categoria — nunca da boa vontade das empresas, cujo lucro depende exatamente de transferir todos os custos para as costas de quem trabalha.
O que os aplicativos apresentam como “empreendedorismo” e “liberdade” é, na prática, uma relação de superexploração em que o trabalhador assume os riscos do capital e ainda paga por isso. A resposta não está na negociação individual com o algoritmo, mas na organização coletiva, na greve e na luta por direitos — o caminho que motoristas e entregadores começam a trilhar.



