Lobo em pele de cordeiro

Direita tradicional é civilizada? O próprio Uruguai diz que não!

Dependendo de como a extrema direita se "apresenta" gera enorme confusão entre a esquerda, que não analisa a política colocada em prática e atém-se apenas a aspectos secundários

Moisés Mendes, jornalista, publicou um artigo no portal de notícias Diário do Centro do Mundo onde compara a situação dos presidentes do Brasil e do Uruguai, Jair Bolsonaro e Lacalle Pou. O artigo afirma que Lacalle Pou, apesar de ser conservador, pertence a uma direita “civilizada”. Rasga elogios sobre o comportamento de Lacalle e chega a elogiar até mesmo o pai de Lacalle Pou, “o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, foi um conservador correto e democrata, líder do partido Nacional, dos blancos.”

Também afirma que “o Brasil não tem mais essas figuras de centro-direita com a grandeza dos Lacalle, por mais que se discorde das suas posições políticas.” A tese apresentada por Moisés Mendes possui erros que vamos debater neste artigo.

Em primeiro lugar, o governo formado por Lacalle Pou não tem nada de “civilizado”, pelo contrário. É uma frente que deu grande espaço para elementos da extrema direita fascista como o partido chamado Cabildo Abierto (CA). Este partido foi fundado em 2019 e possui não somente características fascistas como é composto por elementos militares que formaram uma das piores ditaduras militares da América Latina.

Uma das principais lideranças do CA é o ex-militar Manini Rios, uma figura bem ao estilo de Jair Bolsonaro, apesar de mais comedido, mas que defende a mesma política da extrema direita no Brasil. Encabeça, juntamente com seu partido, um movimento de “virar a página” da ditadura aplicando uma Lei de Anistia para que não haja punições dos bárbaros crimes cometidos pelos militares, entre outras políticas da extrema direita.

Outra ponto da política levada adiante que mostra que Lacalle Pou não tem nada de “civilizado” é a imposição da Lei de Urgente Consideração, que dá amplos poderes para a polícia e o exército, aumentando os efetivos nas ruas e permitindo que invadam as casas das pessoas, transformando o país em uma nova ditadura contra o povo. E faz isso porque tem muitas semelhanças com a extrema direita no Brasil, com política de privatizações, ataques aos direitos dos trabalhadores e uma política pró-imperialista, que convulsiona o país e onde é necessária uma ditadura para ser implementada. Ou seja, é a política da direita para a população trabalhadora.

Lacalle Pou, e podemos até dizer da direita “civilizada” no Brasil como o centrão, não difere no fundamental de Jair Bolsonaro. Difere apenas no modo de falar e nos absurdos que Bolsonaro diz, mas no fundamental da política são muito semelhantes. Lacalle Pou é uma espécie de João Doria uruguaio, onde até mesmo a esquerda ultimamente vem elogiando, mas que possui a mesma política genocida de Bolsonaro.

Os dois casos são uma expressão da crise política atual, na qual o imperialismo está estabelecendo regimes de extrema direita na América para impor sua política contra a população.

No entanto, a esquerda pequeno-burguesa institucional insiste na crença de que há uma direita “civilizada”, seja no Uruguai, seja no Brasil. Mas por quê? Ora, vemos como políticos do PCdoB, do PSOL ou mesmo do PT se iludem ao acreditar que seja possível uma “aliança tática” com setores do MDB, do PSDB ou do DEM contra o “mal maior”, o bolsonarismo. Porque, por algum motivo que não sabemos, eles teriam interesses diferentes de Bolsonaro e, portanto, formariam, junto com a esquerda, uma frente ampla “pela democracia”.

Mas foram justamente esses setores da direita “civilizada” que levaram Bolsonaro ao poder, ao derrubarem o governo do PT e incentivarem o surgimento da extrema-direita que hoje está no poder. São justamente esses setores que fazem acordos com Bolsonaro para mantê-lo no governo, que apoiam integralmente a política econômica de Paulo Guedes e promovem o mesmo genocídio a nível estadual e municipal que Bolsonaro a nível nacional.

Esses setores da direita tradicional, da “centro-direita”, são tão “civilizados” quanto Lacalle Pou no Uruguai, cujo pai tem ligações intrínsecas com o imperialismo e foi peça fundamental no golpe “branco” contra a esquerda uruguaia e mesmo no golpe a escala continental. O atual presidente uruguaio, que é responsável, pela primeira vez desde a “retomada” da democracia no Uruguaia, por resgatar a extrema-direita para o governo ao conceder ministérios para o Cabildo Abierto e dar poderes cada vez maiores aos militares, é tão civilizado quanto Bolsonaro.

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