Polêmica com Valério Arcary

Com toda a ameaça de genocídio, Bolsonaro tem audiência popular?

Em coluna publicada pelo jornal Brasil de Fato, o dirigente do PSOL Valério Arcary afirma que as atrocidades disparadas pelo fascista Jair Bolsonaro têm "audiência popular".

No dia 26 de março, o jornal Brasil de Fato, em sua versão online, publicou a coluna Nem morrer de vírus, nem morrer de fome: aonde vamos?, assinada por Valério Arcary, dirigente do Partido Socialista e Liberdade (PSOL). No texto, Arcary faz uma breve análise das posições tomadas pelo governo Bolsonaro em relação à pandemia de coronavírus e a crise econômica.

O que mais chama a atenção, no entanto, é um termo que aparece na conclusão do artigo: a suposta audiência popular da extrema-direita:

Aparentemente, a linha defendida por Bolsonaro é minoritária na classe dominante, mas mantém ainda muita influência na classe média e audiência popular. A boa novidade é que maioria da classe trabalhadora está se deslocando para a oposição. Ela é a portadora da esperança.

A tese de que Bolsonaro teria uma audiência popular é não somente falsa, como é frequentemente utilizada como base de uma política oportunista e paralisante em meio à gigantesca crise em que o regime político se encontra no Brasil, na América Latina e em todo o mundo. Vejamos o porquê.

Para considerar que Bolsonaro tenha uma audiência popular, seria necessário que uma parcela considerável da população apoiasse a política desastrosa e devastadora do governo ilegítimo. No entanto, que parcela seria essa? A Central Única dos Trabalhadores (MST) — uma das maiores centrais sindicais do mundo — não apoia o governo Bolsonaro. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) — que mobiliza milhões na luta pela terra — também não apoia o governo ilegítimo. As torcidas organizadas também não apoiam. E, de uma maneira geral, nenhuma organização popular apoia.

Se as principais organizações populares do país não apoiam o governo Bolsonaro, quem apoiaria? a única alternativa seria, portanto, a pequena burguesia, que é fortemente influenciada pela pressão da imprensa burguesa e da burguesia em geral. Se esse fosse o caso, já não se poderia falar em audiência popular, mas sim em uma adesão parcial de um setor levado, por meio da pressão, a adotar a política da classe dominante. Seria, portanto, uma completa falsificação por parte da burguesia.

Contudo, nem mesmo esse caso pode mais ser levado em conta. Um setor considerável da burguesia já está indicando que está articulando a maneira menos traumática de se livrar do governo Bolsonaro e a pequena burguesia, em peso, tem se posicionado contra o governo, que é um completo fracasso do ponto de vista econômico e — conforme está se mostrando — também do ponto de vista da saúde pública. Prova disso são os panelaços e janelaços feitos contra o presidente, frequentemente acompanhados de gritos de “Fora Bolsonaro”.

Ao mesmo tempo em que o apoio ao governo vai se esvaziando rapidamente, a disposição da população para pôr abaixo definitivamente a farra dos capitalistas vem crescendo exponencialmente. As últimas manifestações de rua, que continham como principal palavra de ordem a derrubada do governo, a reação dos trabalhadores aos mutirões organizados pelos comitês de luta e a tendência à formação de conselhos populares para combater o coronavírus diante da inação do Estado provam isso.

A tese de que há uma audiência popular para o governo ilegítimo leva, inevitavelmente, à seguinte conclusão absurda: se a sociedade está dividida entre apoiadores e opositores de Bolsonaro, o “Fora Bolsonaro” não seria viável. É preciso, no entanto, romper com esse tipo de consideração escolástica, baseada nas impressões e análises da imprensa burguesa, e organizar os trabalhadores em torno de seus próprios interesses — é preciso, portanto, mobilizar a classe operária pela derrubada do governo.

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