No último dia 14, como parte da primeira grande paralisação nacional contra o governo Bolsonaro, uma grande manifestação tomou conta da cidade de Recife. O ato teve como local de concentração a esquina da Avenida Guararapes com a Rua do Sol, tendo iniciado às 14h. Logo no início, um evento marcou a forte tendência à radicalização na luta contra a direita golpista: os manifestantes expulsaram os repórteres da Rede Globo no ato.
Os repórteres do canal de televisão golpista foram expulsos por um grupo de militantes enfurecidos, que gritavam palavras de ordem como “abaixo a Rede Globo” e “Fora Bolsonaro”, além de os chamarem de “golpistas”. Como os repórteres demoraram a sair, testando a paciência dos militantes, a câmera da Rede Globo chegou a ser chutada e a ter um fio puxado.
Embora quase a totalidade dos manifestantes tivesse apoiado os militantes que colocaram a Rede Globo para correr, alguns membros da União Nacional dos Estudantes (UNE) saíram em defesa dos golpistas. De início, tentaram convencer os presentes de que as repórteres não poderiam ser hostilizadas por serem mulheres. Sem sucesso, foram pedir desculpas às repórteres, após ter acontecido a expulsão.
Os acontecimentos acima descritos foram também repercutidos pela própria imprensa burguesa. O jornal Diário de Pernambuco, em matéria do dia 14 de junho, confirmou a expulsão da Rede Globo: “momentos antes de o ato ser iniciado, manifestantes expulsaram uma equipe da Globo que fazia a cobertura do protesto”. Os pedidos de desculpa da UNE também foram lembrados na matéria: “após o ocorrido, um pequeno grupo formado por integrantes da UNE (União Nacional dos Estudantes) pediu desculpas às profissionais e disse que a atitude não refletia a essência do movimento”.
Pedir desculpas aos repórteres da Rede Globo reflete uma política completamente distinta dos interesses dos trabalhadores e da juventude nesse momento. O governo Bolsonaro se encontra em uma crise profunda e só será derrotado por meio de uma mobilização revolucionária, que coloque a direita contra a parede. A colaboração com a direita apenas fará com que a burguesia consiga resolver suas contradições e parta para uma nova ofensiva.
A questão da “essência do movimento” também é outro aspecto que merece ser discutido. O movimento da greve geral é um capítulo do movimento de luta contra o golpe, que vem se desenvolvendo ao longo de anos. A luta contra o golpe, que é a luta contra a direita, já comportou diversas ações violentas, inclusive contra a própria Rede Globo. A militância contra o golpe já aprendeu, pela própria experiência, como a direita deve ser tratada nos atos: expulsar os golpistas já faz parte da luta política dos trabalhadores.
Não é porque um grupo tem uma opinião específica sobre a expulsão da Rede Globo que isso deve ser considerado a “essência do movimento”. O que deve ser levado em consideração é que a esmagadora maioria das pessoas presentes no ato já estão fartas de toda a farsa montada por Sergio Moro, por Deltan Dallagnol e pela Rede Globo, entre outros, para destruir o país.
Uma vez considerado o problema da legitimidade – isto é, que os manifestantes têm todo o direito de expulsar os golpistas dos atos -, é necessário discutir o problema do pacifismo. Os golpistas que derrubaram Dilma Rousseff e colocaram o ex-presidente Lula na cadeia estão dispostos a devastar o país para que os capitalistas encham ssus cofres. A única forma de impedir que a burguesia consiga saquear completamente o Brasil e massacrar sua população é através da força dos trabalhadores: é preciso que esses se imponham e force a direita a recuar. Se a direita não se sentir ameaçada, os ataques não cessarão.
Demagogia com a luta das mulheres
A matéria do Diário de Pernambuco também apresentou o seguinte argumento de uma das repórteres que foram expulsas: “fazem isso porque eu sou mulher”. Trata-se, obviamente, do cinismo típico da direita golpista para tentar justificar seus ataques contra a população.
Primeiramente, as repórteres não foram expulsas por serem mulheres: a mobilização da esquerda já expulsou dezenas de figuras da direita nos últimos três anos, sendo que a maioria era composta por homens. Em segundo lugar, o fato de as repórteres serem mulheres não pode ser usado como justificativa para permitir que a Rede Globo não seja hostilizada: a Globo é inimiga das mulheres e deve ser expulsa violentamente em absolutamente qualquer ocasião.
O único objetivo da direita é esmagar os trabalhadores para atender os interesses dos capitalistas. Por isso, é necessário que a esquerda e os setores democráticos desenvolvam um movimento independente da burguesia: nenhum acordo com golpistas, nenhuma aliança com partidos golpistas e nenhuma orientação da imprensa golpista. Esse movimento, por sua vez, deve ser dirigido pelas palavras de ordem que unificam os trabalhadores no momento e que permitirão que o regime político entre em uma crise ainda mais profunda: “fora Bolsonaro e todos os golpistas”, “liberdade para Lula” e “eleições gerais já”!




