No início da década de 1960, vimos surgir no Brasil, quase que imediatamente após a renúncia do presidente Jânio Quadros (1961), duas organizações de direita: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD).
Esse ‘complexo’ (IPES/IBAD) toma forma principalmente com a participação de oficiais militares e da elite brasileira, pensado para ser um ‘porta-voz’ seus interesses de classe da burguesia. O IPES tinha como principal tarefa organizar estudos e movimentos contra o presidente João Goulart. O IBAD, por sua vez, atuava como uma espécie de unidade tática do IPES.
Essas organizações agregaram um conjunto de ‘intelectuais orgânicos’, a fim de formar um bloco concentrado para articular e levar a cabo o desenvolvimento de seus projetos. Segundo René Dreifuss (1981, p. 71), comporiam esse novo bloco: a) diretores de corporações multinacionais e diretores e proprietários de interesses associados, […]; b) administradores de empresas privadas, técnicos e executivos de empresas estatais que faziam parte da tecnoburocracia; c) oficiais militares.
Naquele tempo, como hoje, a criação de organizações desse tipo pode ser vista como uma reação ao crescimento da esquerda no cenário político. Naquele tempo, como hoje, a imprensa, mas também religiosos, políticos e intelectuais aderem ao ‘projeto’ e passam a atuar de forma concentrada, disciplinada, para disseminar ideias e legitimar a ação das organizações.
Enquanto a imprensa atua para manipular a opinião pública, reproduzindo uma caracterização negativa da esquerda e, assim, fornecer uma base para a resistência e o ataque aos partidos e projetos progressistas. A imprensa é importante para, também, conseguir adesão do empresariado.
Mas não era apenas uma questão de moldar a opinião pública, as organizações atuaram diretamente para infiltrar seus associados nos movimentos de esquerda e assim os desestabilizar, como fizeram com o movimento estudantil e camponês, mas também financiando candidatos para atuar no Congresso Nacional. Com dinheiro que, sabe-se faz tempo, veio de fora do país, mais precisamente dos Estados Unidos da América.
Outubro de 2019, três anos após o golpe que destituiu a presidenta legitimamente eleita, Dilma Rousseff, por meio de um impeachment fraudulento, ficou claro o que avaliávamos já desde 2012, a saber, que a direita estava se preparando para promover um novo golpe de estado.
A imprensa burguesa atuou como sempre fez ao longo da história brasileira e mundial, mas com o know how adquirido nos anos 1960, e aprimorado nas décadas seguintes, com a direita atuando mais fortemente a partir não mais apenas do Congresso Nacional, mas também do sistema de justiça, inclusive do Supremo Tribunal Federal.
Nesse contexto, vimos proliferarem por todos os cantos organizações de tipos diversos, mas com objetivos similares: Movimento Brasil Livre (MBL)[1], Vem Pra Rua, Estudantes Pela Liberdade (Belo Horizonte/MG), Students For Liberty Brasil (São Paulo/SP)[2], e outros menos organizados como Revoltados Online e dissidências do MBL e Vem Pra Rua como o Avança Brasil, Consciência Patriótica, Direita São Paulo e Movimento Brasil Conservador, entre outros.
No final de semana passado, foi realizada a primeira reunião, no Brasil, da Conferência de Ação Política Conservadora
(CPAC), criação de Steve Bannon, trazida dos Estados Unidos pelas mãos de Eduardo Bolsonaro. A repercussão da imprensa foi enorme e relativamente positiva, e, do ponto de vista da participação, pode-se dizer que foi um sucesso. Pouco ou nada se falou do financiamento desse encontro, mas além do uso de recursos do Fundo Partidário (via PSL), dinheiro norte-americano foi assegurado por Bannon.
Da mesma forma, é bom lembrar da realização do Fórum da Liberdade. Surgido em 1988, tem como um de seus idealizadores o empresário gaúcho Jorge Gerdau, e organização a cargo do Instituto de Estudos Empresariais (IEE).
Em 2015, na sua 28ª Edição, um ano antes do Golpe, com patrocínio da Souza Cruz, Gerdau, Ipiranga e RBS (afiliada da Rede Globo), lotou um auditório de 2 mil lugares da PUC-RS, em Porto Alegre, com a presença maciça de jovens, grande parte deles ligados ao MBL, Estudantes pela Liberdade e afins.
A extrema-direita, pelo que vimos, mostra-se extremamente organizada, e devidamente financiada, para atuar na disseminação de suas ideias e hoje, mais que nunca, também na produção e circulação de fake News, compondo um verdadeiro exército de militantes virtuais, que atuam de forma coordenada e persistente.
Mas não apenas os hoje apoiadores do fascista Bolsonaro, mas grupos de extrema-direita mais antigos e tradicionais no pais, como os integralistas, buscam reorganizar-se e voltar a ter alguma relevância no cenário político nacional.
O grupo fundado por Plinio Salgado em 1930, Movimento Integralista, que nasceu inspirado no fascismo português, chegou a fazer parte da base de sustentação do governo de Getúlio Vargas. Dele fez parte o famigerado General Olímpio Mourão Filho, conhecido por ter inventado um suposto plano comunista para tomar o poder no Brasil, o famoso Plano Cohen[3].
Os integralistas fundaram o Partido de Representatividade Popular (PRP), que atuou de 1945 a 1965, sem muita importância no cenário nacional, mas capaz de eleger, além de Plínio Salgado, deputado por São Paulo, um conjunto de deputados em diversos estados, com maior peso em 1962.
É bom lembrar que a CPI do IBAD, ocorrida em 1963, revelou uma lista de 111 deputados que tiveram suas campanhas financiadas pela CIA. Estavam na lista Aécio Ferreira da Cunha (pai de Aécio Neves), direitistas como o próprio Plínio Salgado[4], Padre Godinho, Amaral Neto, além de Mário Covas, para ficarmos com poucos exemplos.
Alguns meses depois de a CPI ter exposto o esquema de interferência externa na política nacional, Mourão seria um dos responsáveis pela deflagração do golpe de 1964[5].
Não falamos aqui dos setores religiosos que sozinhos, ou em ocasionais alianças com grupos leigos, também se mostram extremamente atuantes e organizados para alcançar seus objetivos, para disseminar suas ideias e calar seus adversários. Assim tem sido desde o início de nossa história, em sua fase monárquica e ainda mais na republicana. Mas esse seria um capítulo a parte a ser explorado.[6].
A extrema-direita segue buscando a máxima organização, garantindo apoio e financiamento, interno e externo, enquanto a esquerda parece se contentar em brincar de fazer oposição, e apenas parlamentar. Ou, como pode ser observado por qualquer um, em dedicar-se a fazer performances discursivas, midiáticas, para disseminação em redes sociais.
A esquerda parece acreditar que alguma força superior, ou o acaso, ou coisas tão vagas/genéricas como ‘a justiça’, ‘a verdade’, ‘a história’, farão todo o trabalho de derrotar a burguesia, nacional e internacional, o imperialismo. Talvez acredite que um ser divino faça o trabalho de mobilização do povo, de conscientização e organização dos trabalhadores, para o que bastaria, então, algumas cirandas, festivais, e, ocasionalmente, que se solte alguma nota indignada, ou que se promova abaixo-assinados que jamais são entregues, ou, pior, torcer para que o Judiciário salve o país.
A extrema-direita, de quem se faz muita troça, não brinca em serviço quando a questão é organização. A esquerda, com todo seu discurso rebuscado e frases de efeito, formulas éticas, prefere, por outro lado, continuar brincando. Seremos mais uma vez atropelados? Mesmo quando tudo nos é favorável?
BIBLIOGRAFIA
DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado – Ação política, poder e golpe de classe. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 1981.
NOTAS
[1] Ligada à Atlas Network, think tank norte-americano de direita, intermedida pela Red Liberal de América Latina (Relial).
[2] Ramificação do Studentes For Liberty, financiada pelos Irmãos Koch.
[3] O general Mourão, quer era dirigente do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira, em 1937, redigiu um documento que deveria ser de circulação interna – no qual simulava um plano comunista de tomada de poder no Brasil, mas fez algumas cópias no Exército brasileiro e na imprensa, o que foi conveniente para justificar a implantação da ditadura de Getúlio Vargas.
[4] Plínio Salgado, durante a fechamento do sistema, se filia ao partido da ditadura, a Arena.
[5] Na manhã do dia 31 de março de 1964, General Mourão manda espalhar o seguinte aviso: “Minhas tropas estão na rua!”.
Na noite do mesmo dia, o General ordena a ocupação do estado da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro) por soldados da 4ª Divisão de Infantaria – Juiz de Fora/MG, que estava sob seu comando.
[6] Por exemplo, na década de 1960, o cardeal dom Jaime Câmara, então arcebispo do Rio de Janeiro, liderava uma ala conservadora da Igreja Católica, junto com o cardeal da Bahia, Dom Augusto Álvaro da Silva, o arcebispo de Porto Alegre, dom Vicente Scherer, e o Arcebispo de Diamantina, Dom Geraldo de Proença Sigaud (monsenhor Sigaud), ligado à TFP, entre outros. Esse setor do clero foi firme em seu apoio ao IBAD e ao IPES, tendo igualmente apoiado o golpe de 1964. No contexto atual, é fato que a importância das igrejas evangélicas cresceu absurdamente, merecendo um olhar mais atento.





