A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (18), uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e colocou entre os alvos o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado.
A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), indicado ao tribunal por Jair Bolsonaro. Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal.
Segundo a imprensa burguesa, a PF encontrou US$55.175 e 33,5 mil euros em endereços ligados ao senador, o equivalente a cerca de R$471 mil. Parte do dinheiro, US$49 mil, foi apreendida no quarto de hotel em que Wagner mora, em Brasília. Outros US$6.175 e 33,5 mil euros foram encontrados em endereços na Bahia.
A assessoria de Wagner afirmou que os valores são fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais. O senador também declarou que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados.
“O senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá”, afirmou sua assessoria, em nota.
A investigação apura a relação entre Jaques Wagner e o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master. A PF afirma investigar se Wagner recebeu vantagens ligadas ao banco, entre elas um apartamento em Salvador, avaliado em cerca de R$2,5 milhões, viagens em jatinhos e ingressos para um show em Los Angeles, em 2023.
A PF também investiga um pagamento de R$3,5 milhões feito por uma empresa ligada a Augusto Lima à BN Financeira. Segundo a decisão de André Mendonça, Bonnie Bonilha, esposa do enteado de Wagner, aparece como vinculada à estrutura societária da empresa.
A transferência, segundo a investigação, ocorreu em outubro de 2025, depois de o Banco Central barrar a venda do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB). A operação de venda do Master ao BRB provocou uma grande crise no sistema financeiro e levou à intensificação das investigações sobre Daniel Vorcaro e seus associados.
A PF também aponta que Wagner atuou no Senado em favor de interesses do Banco Master. Entre os pontos investigados estão propostas relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ao crédito consignado e à fiscalização da tentativa de compra do Master pelo BRB.
Em entrevista à BandNews, Jaques Wagner negou ter atuado em favor do Banco Master e disse não ter relação com Daniel Vorcaro. Sobre o dinheiro apreendido, afirmou que os valores vieram de diárias do Senado recebidas em viagens internacionais.
“Eu, várias vezes, viajei para o exterior, mandei até levantar. E, de 2019 para cá, eu recebi de diárias aproximadamente US$70 mil, e outras vezes que eu fui viajar eu comprei via Banco do Brasil, onde eu tenho conta, dólares ou euro, para fazer a viagem. Então, eu não tenho nenhuma coisa para esconder”, afirmou.
Segundo dados do Portal da Transparência do Senado divulgados pela imprensa burguesa, Wagner realizou 27 viagens internacionais entre 2019 e 2026 e recebeu R$338,7 mil em diárias, o equivalente a US$66.830,07.
O senador disse ainda que os valores estavam guardados em envelopes com timbre do Senado.
“Então, do ponto de vista do dinheiro, estou absolutamente tranquilo. Nunca recebi dinheiro de ninguém, muito menos do Master ou do Augusto Lima. Então, eu estou absolutamente à vontade”, declarou.
Sobre o apartamento em Salvador, Wagner afirmou que o imóvel jamais foi transferido para ele. Segundo o senador, tratava-se de uma negociação particular. Ele disse que tinha interesse em ajudar uma filha a comprar o apartamento e que pediu a Augusto Lima, seu amigo, para adquirir o imóvel, com a intenção de recomprá-lo depois.
“Sobre o apartamento, na verdade é um apartamento que está em construção aqui no Horto. Eu tinha interesse de dar um apartamento, de ajudar minha filha a comprar um apartamento desse. Como o Guga, o Augusto Lima, é um investidor, eu disse a ele: ‘Você pode comprar? Depois eu vou recomprar’, porque o apartamento está em construção, não está pronto”, afirmou.
A operação atingiu diretamente um dos principais articuladores do governo no Congresso Nacional. Wagner é o líder do governo Lula no Senado e um dos nomes mais próximos do presidente dentro do PT.
Segundo a imprensa burguesa, Lula telefonou para Wagner após a operação e manifestou solidariedade ao senador. O petista afirmou que o presidente lhe disse para “ficar firme” e que a operação seria uma tentativa de desestabilizá-lo.
“O presidente Lula ligou para se solidarizar comigo, dizer que mantém absoluta confiança, a gente se conhece há 48 anos. Portanto, ele sabe como é o meu modo de agir. Ele só ligou para dizer: ‘Fique firme, essa é uma tentativa de desestabilizar você, mas conte com a minha confiança’”, disse Wagner.
O caso já provocou movimentação dentro do próprio governo. Setores do PT e do Planalto passaram a discutir a permanência de Wagner na liderança do governo no Senado. O senador, no entanto, afirmou que não deixará o cargo por iniciativa própria. Disse que permanecerá na função caso Lula não decida retirá-lo.
A operação acontece em um momento de forte pressão da direita contra o governo Lula. Embora a investigação envolva um banco privado, empresários e uma série de negócios suspeitos, a ofensiva policial e judicial se concentrou politicamente em um dos principais nomes do governo no Congresso.
O Banco Master está no centro de uma crise que envolve banqueiros, operações financeiras bilionárias e relações com setores do regime político. A primeira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada em novembro de 2025, quando Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez. Na ocasião, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. Vorcaro foi solto dias depois, passou a usar tornozeleira eletrônica e voltou a ser preso em março de 2026.
A nova fase da operação coloca o caso no centro da crise política nacional. De um lado, a PF afirma investigar possíveis vantagens indevidas e atuação parlamentar em favor do banco. De outro, Wagner nega qualquer irregularidade e afirma estar à disposição das autoridades. O fato concreto, até o momento, é que o líder do governo Lula no Senado virou alvo de uma operação autorizada pelo STF em meio à disputa política contra o governo.





