Haddad presidente?

PT corre o risco de se tornar uma social democracia europeia

Ao apontar Haddad como possível sucessor, Lula fortalece a ala direitista que avança sobre o comando do partido

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apontou Fernando Haddad como um possível sucessor durante a Convenção Nacional do PT, realizada nesse domingo (2), em São Paulo. Ao final de seu discurso, Lula projetou uma futura candidatura presidencial do ex-ministro da Fazenda, que neste ano disputa o governo paulista.

“Qual é o país do futuro que eu vou lhe entregar quando você, Haddad, depois de governar São Paulo por 8 anos, quiser ser presidente da República”, declarou Lula.

O presidente mencionou depois Rafael Fonteles e possíveis candidatos de outros estados, mas Haddad foi o primeiro nome citado e recebeu tratamento privilegiado durante a convenção. Chegou ao evento na comitiva de Lula e foi o único candidato a governador apoiado pelo presidente a discursar.

A declaração chama a atenção para um problema decisivo no futuro do PT. Haddad é um dos principais representantes da ala direita do partido, justamente o agrupamento que mais ganhou espaço com a política seguida pela direção petista nas últimas décadas – e, em especial, desde o início do atual mandato presidencial.

A direita avança no PT

A política de frente ampla abriu espaço para uma aproximação ainda maior com os partidos burgueses. A ela se somam as concessões feitas pelo governo à direita, a submissão às pressões do grande capital, o carreirismo eleitoral e a penetração do onguismo identitário no interior do partido.

Esse conjunto de fatores vem alterando definitivamente a fisionomia do aparato partidário petista e aumentando o peso de sua ala pequeno-burguesa.

Haddad é uma expressão acabada dessa tendência.

Sua trajetória não poderia ser mais diferente da de Lula. O atual presidente entrou na política como operário metalúrgico e dirigente sindical, à frente das grandes greves do ABC contra os patrões e a ditadura militar. Foi desse movimento que surgiu a força política que daria origem ao PT.

Haddad, por sua vez, é um professor universitário sem origem no movimento operário. Não se formou politicamente nas greves, nos sindicatos ou no enfrentamento direto entre trabalhadores e patrões.

A diferença de origem corresponde também a uma diferença política.

Da greve ao aparelho estatal

O PT nasceu em 1980 no interior de uma enorme mobilização da classe operária. Milhares de trabalhadores procuravam construir um partido próprio, independente das organizações tradicionais da burguesia.

Ao mesmo tempo, desenvolveu-se dentro do partido uma camada pequeno-burguesa empenhada em enquadrar esse movimento nos limites do regime capitalista.

Esse agrupamento defendia que o PT não fosse além de reformas aceitáveis para a burguesia. Em lugar de uma política independente dos trabalhadores, colocava a colaboração de classes; em lugar da mobilização operária, o parlamentarismo e as eleições; em lugar do enfrentamento com a burguesia, os acordos com seus partidos.

Ao longo das décadas, esse setor ocupou uma parcela crescente do aparelho petista.

Haddad pertence justamente a essa camada.

O próprio Lula já o definiu como o petista mais próximo de um tucano. A caracterização combina com as posições assumidas pelo ex-ministro. Recentemente, Haddad lamentou o desaparecimento do PSDB como grande força nacional, afirmou que gostaria que o partido “voltasse a existir”, elogiou nomes históricos do tucanato e disse haver entre PT e PSDB “um solo comum de conceitos, de valores”.

Não se trata de uma declaração isolada. Sua atuação política aponta no mesmo sentido.

Frente ampla fortalece a ala direitista

O crescimento dessa ala é consequência da política adotada pelo próprio PT.

A frente ampla transformou antigos adversários em aliados e entregou posições importantes a políticos da direita. Geraldo Alckmin, durante décadas um dos principais dirigentes do PSDB, tornou-se vice-presidente da República na chapa de Lula.

Em São Paulo, a composição organizada em torno de Haddad reúne personagens oriundos da direita tradicional. A própria política econômica defendida pelo ex-ministro o coloca entre os representantes mais nítidos da ala burguesa do partido.

Quanto mais o PT se adapta às exigências da burguesia, maior é o peso dos dirigentes que representam essa adaptação.

O problema aparece na submissão ao ajuste fiscal, nas concessões ao mercado financeiro, na contenção dos gastos públicos e na insistência em governar por meio de acordos com um Congresso dominado pelos grandes capitalistas e seus representantes.

A política seguida por Lula acaba, portanto, fortalecendo uma ala que se encontra em contradição com a própria base lulista.

Uma política contra a base de Lula

A força de Lula não nasceu do aparelho do PT. Ela surgiu antes dele.

Sua autoridade foi construída nas greves do ABC, quando milhares de operários entraram em confronto com os grandes empresários e com a ditadura. Essa origem explica por que Lula conserva, até hoje, uma relação com parcelas importantes da classe trabalhadora que nenhum outro dirigente petista possui.

Haddad não tem essa relação.

Ao apresentá-lo como possível sucessor, Lula ajuda a colocar no comando do partido justamente um representante da camada mais distante das origens operárias do PT.

Há aí uma contradição fundamental. A política de Lula favorece aqueles que, em última instância, tendem a liquidar a própria base política do lulismo.

Caso Haddad ou outro dirigente do mesmo perfil assuma a liderança partidária depois de Lula, isso significará a tomada praticamente completa do aparelho burocrático do PT pela ala direita e pequeno-burguesa.

Lula e os dirigentes oriundos das greves dos anos 1970 e 1980 constituem o último vínculo importante entre a cúpula partidária e o movimento operário que fundou o PT. Sua substituição por políticos formados exclusivamente no Parlamento, nas universidades, nas ONGs e no aparelho estatal romperá esse último cordão.

A crise acelera a direitização

A crise capitalista torna essa evolução ainda mais rápida.

À medida que se aprofunda a crise econômica e política, a burguesia exige mais cortes, mais arrocho, ataques aos direitos sociais e transferência dos recursos públicos para o grande capital.

Como o PT está profundamente incorporado às instituições do regime, sofre diretamente essa pressão.

Quanto maior sua dependência de governos, prefeituras, mandatos parlamentares, fundos eleitorais e acordos com partidos burgueses, menor sua capacidade de resistir às imposições da classe capitalista.

A crise do regime, nesse sentido, acelera a degradação política do próprio PT.

Sua adaptação leva a uma nova adaptação, ainda mais profunda. O partido se distancia de sua base original e os dirigentes mais identificados com a burguesia ganham espaço no aparelho.

É nesse terreno que Haddad aparece como possível sucessor de Lula.

O caminho da social democracia europeia

O perigo é que o PT percorra o mesmo caminho dos grandes partidos social-democratas europeus.

Eles também surgiram como partidos de massas da classe operária. Organizaram sindicatos, mobilizaram milhões de trabalhadores e chegaram a representar politicamente amplas parcelas do proletariado.

A adaptação ao capitalismo modificou completamente esses partidos. Sua burocracia foi se incorporando ao Estado, abandonando a mobilização dos trabalhadores e aprofundando a colaboração com a burguesia. Ao final, organizações surgidas da classe operária passaram a governar contra ela.

O PT pode estar caminhando nessa direção.

A frente ampla, a colaboração permanente com a burguesia, a dependência do aparelho estatal, o avanço do onguismo, o abandono da mobilização independente dos trabalhadores e o crescimento da ala direita são manifestações da mesma evolução.

A ascensão de Haddad não é, portanto, apenas uma disputa por nomes no interior do partido.

Sua eventual sucessão de Lula representaria uma mudança qualitativa: o controle do PT por uma ala sem ligação com o movimento operário que lhe deu origem e completamente adaptada às instituições do regime capitalista.

Seria o avanço decisivo para transformar o partido criado pelas greves do ABC em uma social democracia nos moldes europeus: originada no movimento dos trabalhadores, incorporada ao regime e, finalmente, voltada contra sua própria base social.

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