Na última segunda-feira (9), o site Intercept Brasil publicou todo um dossiê, composto por arquivos do Serviço Nacional de Informações (SNI), que comprovam que a ditadura militar de 1964 estava diretamente envolvida na organização das bases do enorme esquema de tráfico de drogas que hoje atinge todo o país.
Os arquivos revelados pelo Intercept demonstram que a força repressiva quase absoluta da extrema-direita no poder, no exato oposto da fantasia direitista de governos moralistas e “saneadores” da sociedade, era usada justamente para dar plena liberdade de ação para o crime.
O poder nas mãos dos militares era usado para proteger e dar cobertura aos primeiros grandes traficantes e contrabandistas brasileiros, que agiam sob a proteção de suas ligações políticas com os aliados do regime golpista, com total imunidade para fazer o que bem entendessem.
Os documentos publicados estavam classificados como confidenciais até 2005, quando decreto do ex-presidente Lula os tornou públicos e os remeteu ao Arquivo Nacional.
Neles, o Intercept encontrou cópias de investigações, relatos de policiais, informações sobre prisões, dentre outros documentos que revelam bandidos como Fahd Jamil Georges agindo livremente graças à ajuda providencial de Pedro Pedrossian, do PDS (antiga Arena), à época governador do Mato Grosso do Sul.
Fahd organizou um esquema em que maconha, cocaína, armas, munições e até nitroglicerina, usada em explosivos, chegavam em São Paulo e Rio de Janeiro, abastecendo o mercado e armando os pequenos traficantes, envolvidos na distribuição da droga. Era o início da conhecida “rota do Paraguai”, que é o caminho de boa parte das drogas e armas que chegam ilegalmente ao país até hoje.
Na época, Fahd era conhecido como o “Rei da Fronteira”, em Mato Grosso do Sul, e foi considerado um dos maiores traficantes de drogas do mundo até mesmo pelo governo dos EUA.
Os documentos revelam, inclusive, que este esquema utilizava-se de propriedades familiares de políticos da direita para organizar a sua logística, como as do deputado Gandi Georges. Exatamente do mesmo modo que o caso do “helicoca”, de Aécio Neves, revelou.
Como todas estas informações estão relatadas em documentos do SNI, órgão de informação da cúpula do governo militar, fica claro que tudo era de pleno conhecimento do alto escalão do regime, que não só sabia, mas principalmente permitia, acobertava, dava condições para as operações.
O relatório, da época do governo de João Figueiredo, não deixa dúvidas:
“Para que o esquema possa funcionar foi montado um processo de corrupção de autoridades e funcionários dos mais variados níveis. Todos os fatos são do conhecimento de autoridades e órgãos do governo estadual que, entretanto, não atuam devido às injunções políticas que giram em torno da questão, ou até mesmo de seu envolvimento direto no acobertamento de tais ilícitos”.
Os fatos revelados pelo Intercept demonstram que o tráfico de drogas no Brasil não é produto das camadas mais desfavorecidas da população, nem foi organizado pelas favelas do Rio ou São Paulo, como a direita gosta de fantasiar.
Quem deu origem, construiu e organizou todo o violento mercado brasileiro de drogas foi a ditadura militar, com os seus capangas, políticos, generais e toda aquela corja de bandidos que se apresentavam para a população justamente como os maiores defensores da moral e dos bons costumes, seres além do bem e do mal, empenhados em uma missão redentora de nosso país.
Por trás da propaganda alardeada por toda a imprensa burguesa, em que a repressão da ditadura tinha como objetivo uma “limpeza” da sociedade, o que o poder proto-fascista dos militares fazia era implantar um dos maiores esquemas criminosos do planeta.
Um esquema que iria colocar o Brasil definitivamente na rota do comércio mundial de drogas, e que, além de possibilitar uma enorme acumulação de capital, foi usado como justificativa para produzir um dos maiores e mais criminosos sistemas de contenção social, um verdadeiro inferno de repressão às populações mais pobres das maiores capitais brasileiras, ao colocar toda a culpa do tráfico de drogas justamente nestas comunidades.
Os “cidadãos de bem” do regime militar conseguiram assim dois objetivos: enriquecer com o crime e reprimir a população mais pobre, freando, pelo terror, a rebelião social sempre iminente destas camadas da sociedade, arrasadas pela miséria e pela fome constante.
Não resta dúvida de que estes esquemas criminosos e repressivos encontrarão no governo Bolsonaro o mesmo ambiente favorável que tinham na época da ditadura, como já se vê pela cocaína encontrada no avião da comitiva presidencial.
A realidade é simples: quanto mais a direita se sente à vontade para governar, mais ela nos presenteia com crimes e repressão de toda espécie.
É preciso colocar abaixo o regime de arbítrio, derrubando Bolsonaro e todos os golpistas, por meio da mobilização popular, nas ruas, para por fim à está politica de perseguição e repressão e defender os direitos democráticos de todo o povo.





