A reeleição de Lula foi apresentada pela direção do PT como uma grande vitória popular. Os trabalhadores teriam derrotado o fascismo e garantido a continuidade dos direitos sociais. Não foram necessários nem quinze dias para que os próprios acontecimentos começassem a desmentir essa propaganda.
A discussão política passou imediatamente da suposta derrota do fascismo para as exigências dos banqueiros. A Bolsa caiu, o dólar disparou e os porta-vozes do capital financeiro começaram a cobrar um novo ajuste fiscal. A escolha do ministro da Fazenda tornou-se uma questão que os grandes empresários pretendem resolver de acordo com seus próprios interesses.
O governo respondeu procurando demonstrar “responsabilidade fiscal”. A equipe econômica prepara mudanças que permitirão transformar contingenciamentos em cortes permanentes e alcançar despesas protegidas por lei, incluindo saúde, educação e benefícios sociais.
O fato de o governo ainda não ter aprovado essas medidas não diminui sua gravidade. Elas já estão sendo discutidas porque o capital financeiro exige garantias de que o próximo mandato continuará subordinado à política neoliberal.
O contraste com a campanha eleitoral é completo. O PT exigiu o apoio dos trabalhadores para impedir que a direita retirasse seus direitos. Agora, são os próprios dirigentes petistas que examinam mecanismos para limitar as despesas destinadas à população.
A política econômica de Lula já estava organizada para atender aos interesses do grande capital. O arcabouço fiscal, a preservação da autonomia do Banco Central e a continuidade das privatizações demonstraram isso durante o terceiro mandato.
A reeleição apenas agravou a dependência política do governo. Lula venceu com o apoio de setores decisivos da burguesia e agora precisa negociar com os partidos que representam esses mesmos interesses no Congresso.
A aproximação com Gilberto Kassab e Aécio Neves deixa ainda mais clara essa orientação. O PT procura justamente os dirigentes dos partidos responsáveis por grande parte da política neoliberal brasileira para garantir sua sustentação parlamentar.
O governo que deveria salvar o País do fascismo prepara sua composição com os representantes tradicionais da burguesia. A contrapartida exigida é uma política econômica favorável aos grandes empresários.
Esse é o verdadeiro significado da chamada ‘governabilidade”. Para aprovar seus projetos, Lula aceita negociar cargos, ministérios e compromissos econômicos. Para preservar esses acordos, restringe cada vez mais a possibilidade de atender às reivindicações dos trabalhadores.
O resultado é um círculo vicioso. O PT governa com a direita para impedir o crescimento da direita. Depois, aplica uma política que desmoraliza a esquerda diante dos trabalhadores e amplia o descontentamento popular. Na eleição seguinte, volta a exigir apoio incondicional para impedir o retorno dos mesmos adversários.
A classe trabalhadora não pode ficar esperando que Lula decida contrariar os banqueiros. As organizações operárias e populares precisam defender suas próprias reivindicações, independentemente da política levada pelo PT.
É necessário combater o ajuste fiscal, exigir a redução dos juros, o aumento dos salários, a ampliação dos serviços públicos e o fim dos pagamentos aos grandes credores da dívida.





